Religião não se discute

Religião é assunto de foro privado, de você com seu Deus, com sua família ou com sua paróquia. Por isso não se discute. Deixamos alguma eventual polêmica para os teólogos — não vamos nos permitir entrar num diálogo em que alguém esteja desafiando nossa fé ou tentando nos converter a algo.

Essa é nossa perspectiva usual de religião — nossas convicções de foro mais íntimo, que em alguns casos não exigem justificação nem no escopo pessoal, nem para nós mesmos, que dizer para com os outros.

Porém, na visão budista pode ser um tanto diferente.

Uma das dúvidas mais comuns que surgem no relacionamento com os ensinamentos budistas é exatamente se o budismo é uma religião. Alguns afirmam categoricamente que sim, outros que é mais como uma ciência da mente, e ainda outros, como eu, tentam uma visão compatibilista. Isto é, embora o conceito de religião como o entendemos no ocidente não tenha uma perfeita tradução asiática, certa definição antropológica e restrita de religião de algum modo efetivamente se aplica a determinados aspectos do budismo. Existe fé, devoção, o mágico, o ritual, e estruturas hierárquicas e sociais semelhantes ao que vemos como religião no ocidente. Porém, isso não é tudo que o budismo é, e nem talvez seja o mais relevante, ou o que é propriamente característico do budismo.

Um dos aspectos importantes dos ensinamentos budistas — como apresentados pelo próprio Buda, e por milhares de comentadores de seus ensinamentos na Ásia — é seu aspecto público, examinável e lógico. Nesse sentido, o budismo é como a ciência ou a filosofia ocidental: um conjunto de juízos pretendidos como justificados e justificáveis, sobre os quais podemos debater e, até certo ponto, sobre os quais podemos efetuar provas e refutações.

Diversas autoridades religiosas com Sua Santidade o Dalai Lama na conclusão do Diálogo Inter-religioso “Além da crença” no Alabama Theater em Birmingham, Alabama em 26 de outubro de 2014. Foto de Liesa Cole.

Portanto, o budismo foi desde sempre debatido — isso é algo encorajado pela maioria das tradições budistas, quando não é parte do treinamento formal. E o diálogo respeitoso com pessoas que tenham visões diferentes sempre foi praticado e considerado enriquecedor, pelo menos na Índia medieval, que desenvolveu as mais influentes tradições budistas.

Porém, quando o budista se depara com as tradições religiosas do ocidente, rapidamente percebe que por aqui as coisas andaram de outro modo. Embora algumas tradições antigas ainda preservem uma união entre fé e razão — a razão vista como menor, mas uma ótima coadjuvante da fé — o que ocorre na prática é que houve uma cisão entre religião e ciência, ou mais amplamente entre racionalidade e convicção pessoal e foro íntimo. Para muitas pessoas no ocidente não é considerado educado desafiar uma crença básica. Consideramos no mínimo uma intrusão, e possivelmente uma ofensa. Curiosamente, isso acaba acontecendo tanto no lado da fé quanto por vezes, também do lado da ciência. Uma religião como o budismo, que refuta a existência de um criador, e ainda assim acredita numa série de coisas que soam “sobrenaturais” é muito estranha para um ocidental. Bem como é difícil para um cientista lidar com as noções epistemológicas do budismo que desafiam o realismo ou o materialismo — bases metafísicas injustificadas da maior parte da ciência praticada hoje, e para quais justificativas, quando existem, se mostram puramente circulares.

E então surge Sua Santidade o Dalai Lama, que é uma pessoa que há quarenta anos interage com cientistas e religiosos de outras tradições, procurando entender e dialogar significativamente com as perspectivas hegemônicas no ocidente.

No início deste milênio Sua Santidade parece ter optado por uma versão secular de humanidade comum como base para seus diálogos. Evidentemente, na visão budista de modo geral, ao contrário de algumas fés monoteístas, a conversão não é um objetivo considerado particularmente elevado. Tradicionalmente, desde a época do Buda, para receber ensinamentos é necessário requisitá-los formalmente. É considerado uma infração ensinar o budismo a alguém que não peça por isso. E em alguns casos foi considerado adequado ensinar somente após a terceira requisição.

Portanto, não é estranho, por exemplo, que Sua Santidade, tenha ensinado publicamente com base em um texto budista apenas em sua terceira vinda ao Brasil. Os ensinamentos que Sua Santidade concede, particularmente num país católico como o nosso, são muito pouco especificamente budistas. Ele sempre ensina sobre um bom coração, sobre como é possível exercer boas qualidades no mundo e assim por diante. Ele ressalta que o melhor é praticar bem a sua religião, e não trocar de religião. Algo que além de verdade, sem dúvida cai muito docemente sobre os ouvidos do diálogo inter-religioso.

Cabe lembrar que, ao contrário de outros professores budistas e lamas tibetanos, Sua Santidade não tem uma cadeia de centros de prática, com sua franquia específica, alimentando financeiramente projetos na Ásia, e coordenando uma estrutura hierárquica de professores por todos os lados. Sua Santidade é uma figura respeitada por todas as tradições legítimas do budismo, mas não existe uma estrutura formal de obediência, e principalmente de doações que revertem a uma administração central — a exemplo do que ocorre com a Igreja Católica. O Dalai Lama ocasionalmente se pronuncia sobre certos tópicos, e cada professor budista vê isso como um bom conselho, os professores ligados ao budismo tibetano ouvem um pouco mais, os professores de outras tradições budistas ouvem um pouco menos, mas todos eles acatam essas orientações apenas na medida em que as considerem relevantes para seus contextos próprios. O Dalai Lama é principalmente treinado numa das quatro formas principais de budismo tibetano, chamada “Gelug”, e mesmo dentro de sua própria escola sua opinião, embora muito respeitada, não é definitiva.

De modo geral, é um bom critério confiar num professor que respeita e segue o que o Dalai Lama diz, mas isso é uma prerrogativa pessoal que depende também de sua confiança na pessoa e na instituição do Dalai Lama.

Assim, o Dalai Lama fala de uma perspectiva bastante livre, em termos políticos e de impacto sobre visões diversas. Livre e leve, porque, como já dito, o objetivo dele como monge budista, como ele sempre diz, não é fazer budistas, mas ajudar os seres humanos a serem melhores seres humanos.

Sendo assim, quando é adequado discutir foro íntimo, ou religião? Apenas quando houver abertura explícita para isso. De outra forma, por melhor que seja sua intenção, é uma espécie de violência.

E isso é válido do ponto de vista dos ensinamentos budistas. Sua Santidade muitas e muitas vezes começa seus ensinamentos fazendo um louvor ao Buda composto por Nagarjuna, um influente professor budista indiano, geralmente tido como tendo ensinado no séc. III D.C. “Prostro-me ao Buda, que não se apega a nenhuma perspectiva”. Os ensinamentos budistas que negam a existência de um “eu” tem algumas implicações interessantes. Eles estão na base de coisas polêmicas como a refutação budista de um criador — que teologicamente e filosoficamente, é, desde os gregos, o “ser enquanto ser”, o ser por excelência, e assim igualmente o “eu”, ou ser independente, por excelência. Mas também na base da abertura budista ao diálogo, uma vez que ausência de eu se torna ausência de uma essência nas coisas, e enfim, ausência de uma essência nos ensinamentos budistas, e em quaisquer visões.

Essa perspectiva, é de fato a imparcialidade ou isenção tão prezada na busca do conhecimento. Não se fixar a conceitos é não se deixar enganar pela ideia de que se detém uma formulação final de sobre como as coisas são. Não se aferrar ao que se pensa é o que permite ouvir o outro — e debater com o outro, não de um ponto de vista de conversão, mas de um ponto de vista que converge para a liberdade e isenção.

E não é que o budismo, com isso, esteja negando a possibilidade de conhecimento ou verdade. É apenas que essa visão última é unicamente resultado de uma isenção absoluta, e da análise exaustiva — até o final, não no sentido de cansativa — das visões que se apresentam.

Nas palavras de Sua Santidade em Além de Religião (Lúcida Letra, 2016):

Para aqueles que acreditam que a verdade requer um Deus, só Deus pode fazer com que a ética prevaleça. Sem Deus como garantia, eles dizem, existe, na melhor das hipóteses, apenas a verdade relativa, de tal modo que aquilo que é verdadeiro para uma pessoa pode não ser verdadeiro para outra. E, em situação como esta, não existe uma base para distinguir o bem do mal, para avaliar o que é certo e o que é errado, ou para dominar os impulsos egoístas e destrutivos e cultivar os valores internos.
Embora eu respeite plenamente este ponto de vista, não compartilho dele. Não concordo que a ética precise se basear em conceitos religiosos ou na fé. Ao contrário, acredito firmemente que a ética também pode emergir de forma simples, como uma resposta natural e racional à nossa própria humanidade e à condição humana que compartilhamos.
Não me enquadro entre aqueles que pensam que os seres humanos em breve estarão prontos para dispensar totalmente a religião. Pelo contrário, na minha opinião, a fé é uma força para o bem e pode ser extremamente benéfica.

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