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Amor de bêbado

Tragos e mais tragos de um cigarro barato o levam de um sofá velho e rasgado no meio de uma rua para algum boteco largado. Olhava pouco para os lados e não se importava com quem cruzava. Sentia os olhares, mas não se importava, não tinha motivos para se importar.

Jogou o cigarro, já acabado, no meio-fio. Pigarreou e passou a mão na longa barba nada cuidada. O boné escondia seu cabelo oleoso, que precisa muito encontrar um banho, um banho que o corpo inteiro não encontrava fazia alguns dias. Sentou no canto e não precisou pedir seu conhaque com limão para o português do balcão.

Observou a garrafa derrubar em um copo sujo o liquido que lhe tiraria, mais uma noite, a consciência e deixaria que dormisse tranquilo aquela noite serena. O português lá estava, com a garrafa na mão e o olhar a esperar. Sabia que aquele sujeito viraria aquela dose em uma talagada só e apenas no próximo tentaria apreciar.

Assim ele fez seu mundo começar a girar. O português, sem se importar, completou a dose do sujeito que depois do porre, não ficaria sem pagar. Olhou a garrafa lhe deixando, mas encontrou seu copo transbordando de um conhaque que, agora, levaria um tempo para tomar.

Olhou para televisão e viu uma novela qualquer. Não conseguia acompanhar todos os capítulos, sempre se embriagava antes do final. O cheiro de algum cigarro entrou no bar e acordou sua mente embriagada para o desejo de fumar. Apoiou-se com força no balcão e usou de todo o equilíbrio que ainda tinha para sair e aproveitar a liberdade, que não queria ter, para matar seu desejo.

A árvore estava no mesmo lugar da noite passada, mas o carro que encostou não. Batalhou com o tronco torto uma posição que pudesse ficar e aproveitar os cinco minutos de prazer que a nicotina lhe proporcionava antes do fazer.

Fazer? Fazer o quê, se essa foi a vida que sobrou de outra vida que um dia gostou de viver.

Chorava em pensamentos soltos o amor que lhe deu um troco de uma traição que cometeu. Queria alguém para conversar, não sobre os seus problemas, não sobre problemas. Sobre as mulheres e vida de farra que levava… mas não levava. Dos bares de Moema foi parar em um que fazia jus ao seu nome. Maldito copo sujo.

Entre uma tragada e outra lembrou do bom emprego e da vida que um dia teve. Deixava o olhar viajar até o copo que estava a lhe esperar e voltava a pensar em tudo que a vida lhe tirou. Nunca conseguia responder se realmente foi tirado ou fez por onde para tudo perder. Parava de tentar descobrir quando o cigarro acabava e seus dedos queimavam na tentativa fracassada de um cigarro inteiro fumar.

Dançava tanto ao voltar para seu lugar que tinha certeza que ganharia a dança dos famosos. Queria que aquela dose tivesse sido a primeira, mas na calada da noite já não conseguia mais contar. Sua mente viajava para seu antigo lar, antes de sua vida sem casa e sua via sacra começar. Sentia o gosto dos beijos, que acreditou serem amorosos, daquela puta que ainda amava. Virou, virou o último copo que seu corpo conseguia tomar por aquele dia, quando se lembrou do dia que foi colocado para fora por não ser mais um grande amor.

Via o amor próprio e a alma se apagarem antes de cair e o português puxa-lo para o fundo do bar, onde dormiria aquela maldita noite serena. Olhava a falta de conhaque e só desejava um trocado imundo para mais uma talagada. No seu bendito copo sujo… que hoje era o seu lar.