Do Outro Lado do Abismo


Dizem que, quando se olha para o abismo, o abismo olha de volta para você. Erick estava encarando o precipício, e tudo que viu foi o vazio, aliado ao som de sua respiração ofegante e o tamborilar do coração no peito. Poucas e rarefeitas nuvens pairavam naquele vale, e não se ouvia o canto de uma ave sequer.

Saltaria, voaria, em caso de emergência seria salvo, não pelos seus limitados movimentos, mas pelos recursivos equipamentos de salvaguarda. Seu salto seria solitário, acompanhado por uma câmera 3d, que captava os arredores para uma remontagem posterior da cena. “Desde que sobrevivesse. Desde que…”

Esse pensamento fora abruptamente interrompido a quilômetros dali, na cabeça de um jovem senhor no auge dos seus 37 anos, com saúde, força, e surpreendente bom humor, mas que no momento estava mancando de um lado para o outro com uma incômoda tala na perna esquerda e uma, mais incômoda ainda, preocupação na cabeça.

Miguel era amigo de infância de Erick, sabia de seu salto, sabia de sua técnica, de seu equipamento de segurança. Sabia porém que o tempo mudara de última hora, pois acompanhava a rádio local e as previsões de clima do computador e do seu MIR, equipamento novo do laboratório de estudos geológicos do qual era chefe, e que eventualmente levava para pesquisa de campo, ou para casa.

“Idiota… se não fosse tão cabeça dura esperaria eu estar melhor para filmar a decida” pensou Miguel lentamente, ao verificar a movimentação do vento na encosta que seu amigo lhe apontara na manhã anterior, continuou seus pensamentos sussurrando para si “Vai dar tudo certo… e a filmagem vai ficar uma bosta! Grande Erick!”.

— Não vai ter auxilio na rota se saltar sozinho — dizia Miguel. — Ninguém mais aceita saltar — respondia Erick. — Espere eu me recuperar que saltamos juntos, seu trouxa… — Estou indo pra Salvador semana que vem, esqueceu do congresso que te falei? Tenho que saltar essa semana. E daqui —Erick apontava o local no mapa — para cá… mais pro norte do que ensaiamos. — Você pode fazer depois do congresso, além de não ter guia não vai ter uma boa filmagem em primeira pessoa, vai estragar minha pasta de registros com essa aberração — rebateu Miguel fingindo desinteresse nas indicações do amigo.

Erick riu alto, tombaria para trás se não estivesse muito confortável no fofo estofado.

— Eu saltarei de um dos picos mais perigosos do país, e você se preocupa com o registro das imagens? Levarei uma câmera 3D presa ao capacete! — Não é com as imagens que me preocupo, e sim com sua segurança, seu inconsequente! — respondeu Miguel, indignado, enquanto dava as costas e saía apoiado em suas muletas.

Ouviu Erick fechar o notebook e se recostar na cadeira. No fundo sabia que gritar e xingar não abalava o espírito jovial dele, nada abalava. Nada…

Agora Miguel ocupava aquele mesmo sofá em que seu amigo se recostara, mas enquanto um estava despreocupado, com tudo calculado e arrumado para seu salto, o outro estava tenso, incerto e preocupado com o mesmo salto. “Espero que nem o penhasco abale sua confiança Erick, ou…”

O celular tocou.


[Este texto é continuação de um exercício criativo desenvolvido em colaboração com Jorge Costa, para a publicação L.E.I.A. e se você se interessou por ele pode acompanhar a primeira parte no link a seguir]

https://medium.com/l-e-i-a/o-abismo-flying-high-parte-1-b759b1520b18

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