Liberdade dos bárbaros [Drawsafio]


Sentia o vento bagunçar seus cabelos, sentia o prazer da liberdade e gostava de sentir. Diferente de tudo que os noticiários mostravam, ele não sentia medo, queria sentir a vida e não deixava que ninguém lhe tirasse isso. Corria o risco de correr com a vida em sua magrela bem cuidada. Fechava os olhos por alguns segundos para esconder o medo que seus olhos, algumas vezes, encontravam.

Queria sentir que o mundo havia mudado, mas sabia que não. Sabia que o tempo de bárbaros com machados não havia passado, eles apenas mudaram as armas. As famílias não mais fogem para se esconder, mas elas estão aqui, presas em seus apartamentos, usando de toda a segurança que esse “mundo moderno” pode prover.

Deixou a marcha mais pesada, queria mais velocidade, mais vento. Pensou nos ferreiros, sabia que já não fabricavam mais espadas, machados ou qualquer outro tipo de arma a eito. As armas não eram as culpadas para o espírito desses, hoje, guerrilheiros. Sabia que o espírito bárbaro, que um dia o mundo se viu cercado, estava ali, usando outro tipo de arma para nos atacar.

Prefere abrir os olhos e fingir não existir guerra. Tinha certeza disso ao rodar a chave da porta duas vezes, ativar o alarme e avisar, alguém preocupado do outro lado da cidade, que havia chegado bem. Não, não conseguia se enganar, ela apenas não estava declarada. Não podemos sair do nosso canto apenas para passear. Temos que saber onde pisar, temos que arriscar para poder andar em um campo dominados pelo antigos bárbaros que ainda vivem.

Sentiu a boca seca e resolveu parar, para uma água de coco tomar. Não poderia matar a fome com o pouco dinheiro que pegou. O horário tinha que perguntar, pois o relógio também não poderia carregar. O celular então, nem pensar. Se os bárbaros da atualidade chegassem, grande coisa não iriam levar.

Achava uma desculpa qualquer ao beber um gole do coco gelado. Dizia não querer mesmo o celular, queria aproveitar o sol e o mar que o Rio de Janeiro tinha para lhe dar. Uma desculpa, que quase todas as vezes, chegava a acreditar.

Não demorou a subir em sua magrela e sair correndo para casa. Queria um banho de mar, sentir o sol queimar, mas não queria bobear… não poderia aproveitar. Sentia-se a cada metro mais seguro ao lembrar da chave, alarme, porta, portaria. Sabia que era fugir, não queria fugir. Mas para aquele dia, já havia se arriscado demais. Foram quase trinta minutos em uma praia, que não o fizera nem suar. Sabia que a liberdade que tanto amava, já haviam lhe tirado e no lugar colocaram o medo… não adiantava se enganar. "Será que um dia, poderemos aproveitar em paz?"


Este texto faz parte do drawsafio LEI&A (texto feito a partir da ilustração do topo), um de nossos projetos para exercitar a escrita. Conheça os outros projetos e leia mais textos em https://medium.com/l-e-i-a