Memórias [Drawsafio]


“Eles chegaram há tanto tempo que eu já perdi as contas. Mas lembro do sol que fazia naquele dia e o céu azul, sem nuvens. Um dia ótimo para fazer qualquer coisa, menos para a chegada deles.

Eu estava numa boa. Tinha um emprego bacana, cuidava da minha vidinha, que ia muito bem. E naquele dia azul, acho que todos estavam cuidando de suas vidas. Mas quem poderia imaginar que isso mudaria de uma hora para outra, não é mesmo? Com tanta tecnologia, com tanta informação, noticiários, redes sociais, televisão e rádio, mesmo com tudo isso, fomos pegos de surpresa. Tomamos um sopapo daqueles quando os brutos chegaram. Aqueles carecas malditos.

E os cientistas estavam fazendo o quê? Os astrônomos estavam distraídos tomando chá? Como a NASA não percebeu nada? E os Estados Unidos? Ah, eles nem notaram quando foram exterminados, todos eles, pobres diabos, sumiram em segundos. Aliás, não apenas os americanos desapareceram, mas chineses, russos, árabes e boa parte da Europa também virou fumaça. Assim, num segundo!

Foi aí que notamos que algo não estava certo. A Internet caiu, os bancos ficaram sem sistemas, os transportes pararam. Caos na terra das bananas. Aí eles chegaram, aquele povo estranho, maldito e asqueroso. Aqueles carecas foram descendo de suas naves. Quem diria que meu vizinho maluco tinha razão: alienígenas existem e estavam entre nós! Sorte dele ter infartado quando viu a primeira nave chegando. Sorte dele!

O extermínio dos gringos foi bem planejado. Afinal, só eles tinham armas boas, as nucleares. Bom plano: acabaram com nossas defesas. E sobramos nós, os pobres diabos, os peões: a ralé da Terra.

Estou vivo e não sei se isso é bom ou ruim. Depois de tanto tempo, não sei se é bom estar vivo nessa nova Era, tomando chicotada toda vez que eles não gostam de uma tarefa ou de um olhar, de uma respirada mais profunda. Qualquer coisa é motivo para apanhar. E eu que reclamava de pagar impostos…”

— É só isso?

— Sim, Hoglar. Não há mais nada neste caderno que possamos traduzir.

— Será que vale alguma coisa para o Museu? A datação diz o quê, Yoher?

— Humm… Cerca de 1535 anos atrás. Acho que vale algo sim. Vamos levar.

E assim os dois recolheram mais alguns objetos e levaram para o famoso Museu das Memórias, onde muitos poderiam apreciar aquela escrita rústica e aprender um pouco mais sobre suas obscuras origens.


Este texto faz parte do desafio LEI&A mensal, um de nossos projetos para exercitar a escrita. Conheça os outros projetos e leia mais textos em https://medium.com/l-e-i-a