Foto by https://pixabay.com/pt/users/frizio-516868/ -–- Editado por Priss Guerrero

Não Entendemos, Doutor!

Doutor Paulo Oliveira, pesquisador e arqueólogo desembarcou às 15 h no aeroporto da cidade. Tomou um carro com motorista, que o esperava no saguão, com uma placa com seu nome, escrito errado: “Paul Olive Ra”. Era comum errarem seu nome nos serviços que prestava naquele país. Não era a primeira vez. Não seria a última. Havia se conformado com isso.

Vinha de uma cansativa escavação na Europa. Deixou a tarefa para seus auxiliares. A parte mais complexa do trabalho, decifrar os códigos, ele já fizera e estava tranquilo. Tirar o pó, catalogar, isso era importante também, mas podia deixar com seus assistentes. Sua nova empreitada era mais interessante: um mistério na América do Norte.

Olhava pela janela do carro aquela paisagem urbana, que pouco a pouco, transformava-se em amarelo fosco, árvores em plantas espinhudas, asfalto macio em chão de terra batida. Não ficaria em hotel porque não havia um para onde ia. Sabia que ficaria num acampamento, talvez num alojamento. Não tinha problemas com isso, estava acostumado. Passava a maior parte do tempo dormindo em camas de pedras.

Nasceu no Brasil, em São Paulo. Foi pequeno para a Inglaterra, seu pai era funcionário da embaixada e fora promovido. Estudara em uma universidade daquele país e se fizera doutor em arqueologia, sua paixão desde criança. A sorte lhe sorriu, seu país natal não proveria isso tão facilmente. Era especialista em códigos, escritas antigas e linguagens. Amava jogar com palavras, ideias, símbolos, aprender com culturas; brincava com isso, adorava quebra-cabeças e desafios.

O Doutor era um homem perto de seus 45 anos, magro, bigodes largos, a calvície o ameaçava desde os trinta e poucos anos, por isso habituou-se a usar um chapéu marrom de tecido, que fazia conjunto com sua camisa de algodão e suas calças largas, presas por um par de suspensórios, que combinavam com suas botas de campo. Carregava consigo um canivete, um pequeno pincel e um bloco de anotações, com um lápis. Eram suas ferramentas mais importantes em sua rotina de trabalho.

Chegara a seu destino após 4 longas horas de estrada. Saiu, esticou as costas, estava dolorido da viagem. Fora recebido por Rosana Lars, a engenheira vinda da Suécia especialmente para chefiar aquele grande empreendimento. Esta pediu aos rapazes que levassem as bagagens do Doutor para o alojamento improvisado.

Haviam montado uma sala para ele com uma cama de armar como a de qualquer outro trabalhador local, um pouco puída e remendada, pois estava no depósito de quinquilharias havia alguns meses. Colocaram uma escrivaninha feita com tijolos e uma porta que já tinha visto dias melhores.

Para que guardasse seus pertences, fizeram um tosco armário de madeira, cujas tábuas grossas ainda pareciam querer morder quem lhes encostasse as mãos, dadas as inúmeras farpas que sobraram.

Apesar de ter um espaço somente seu, Paulo não recebera um banheiro próprio, dividiria este local com todos os demais funcionários e estaria sujeito, como estes, às longas filas para banho, usar as latrinas e pias. Algo que não incomodava o Doutor, pois já havia estado em locais onde este tipo de cômodo e situação seriam considerados extremamente luxuosos pelos habitantes locais.

Foram ao barracão e a engenheira mostrou-lhe as pedras que descobrira e as marcas. Paulo as examinou. Uma após a outra. Sacou seu bloco de notas, fez alguns desenhos, rabiscou algumas palavras, mordeu a ponta do lápis ao ver a inscrição “555”. Sabia que lhe era familiar, mas não estava lembrado no momento. Precisava consultar um livro que estava na mala. Mas sentia que já vira aquilo antes e isso era como uma coceira que não passava.

Fez algumas perguntas, tomou mais notas. Tirou o pó de algumas peças, examinou outras com mais cuidados. Decalcou algumas marcas, que descobrira ali e que só ficaram visíveis quando tirou o pó delicadamente. Ficou agachado, sentado, cheirando as peças, tirando pó, mexendo aqui, observando, tateando, enfim, trabalhando arduamente naquele quebra-cabeça misterioso.

A noite caia. Foi levado ao alojamento, tomou banho ouvindo os relatos dos funcionários que variavam entre teorias conspiratórias sobre o governo, garotas ardentes e desejos luxuriosos, esportes e outras trivialidades típicas. Jantou no rancho, conversou com alguns rapazes que estavam curiosos sobre o trabalho do doutor, que falou animadamente sobre as pirâmides, múmias, cidades perdidas na Índia, castelos italianos e situações estranhas que já vivera.

Nesse momento, perguntou-se onde estaria seu contratante. Não o vira desde que tinha chegado ao empreendimento, sequer retornou suas ligações, onde estaria Senhor Jones? Refletia sobre isso enquanto escovava os dentes. Seria este um homem ocupado demais? Não sabia responder ou o que pensar sobre o novo patrão. Mas sabia que estava sendo bem pago para largar 3 anos de pesquisas na Grécia para estar ali, especialmente para atender este caso misterioso e intrigante.

E o que o Senhor Jones não fazia ideia era que o Doutor só aceitara o desafio, justamente por causa do mistério que o envolvera de tal modo, que não conseguia mais parar de pensar nele e por isso separara e botara na mala tudo o que imaginou que precisaria para o trabalho. Não estava pelo dinheiro, mas pelo prazer. Há anos isso não acontecia, o que lhe deixava motivado.

Trancou-se em seu cômodo e pôs-se a pesquisar em sua pequena biblioteca, trazida em um grande baú de couro trabalhado com detalhes de estrelinhas e fechos de metal, se assemelhando muito a uma arca de tesouros, que Paulo apelidara de ‘minha arca do conhecimento’.

Olhou entre os exemplares que trouxera até encontrar aquilo que precisava, um tomo conhecido como ‘O Livro dos Mistérios’ e afundou-se nele até o sono tomar-lhe o vigor e abraçá-lo carinhosamente, tal qual sua falecida esposa fazia todas as noites ao irem dormir e assim entregou-se aos domínios do deus do sono, sonhando com a amada e os bons dias que passaram juntos desde que se conheceram.

O Doutor adormeceu tranquilo como um bebê. Contudo, seu contratante, que havia desmaiado subitamente e encontrava-se entre delírios, acomodado em uma outra parte do alojamento, um anexo, onde este repousava há 15 dias, dormindo quase que o tempo todo, dopado com medicamentos fortíssimos para sedá-lo, acordando apenas para necessidades humanas alheias à sua vontade. Seu secretário tornara-se enfermeiro e lhe pajeava.

Os médicos que vieram atendê-lo entraram num consenso de que era melhor não removê-lo e que poderia ter sido uma crise nervosa, visto que o Senhor Jones era um homem muito ativo, que pouco descansava e que tinha muitas responsabilidades, portanto, ter um colapso era muito comum para gente como ele; era melhor descansar por ali mesmo, isolado do mundo e dos jornais.

A construção desse anexo foi rápida: no primeiro dia já estava montado, no outro, pintado e no terceiro, os móveis e utensílios já haviam chegados e estavam à disposição. Ao final deste, o pobre Jones pode ser removido do quarto de Lars, e ocuparia uma dependência apenas sua e de Norman, seu secretário-enfermeiro.

As obras de restauração e demolição de alguns prédios seguiam sua rotina. Lars tinha como objetivo manter as coisas no cronograma. Não fazia sentido todos virarem enfermeiros para o patrão e ela sabia que a continuidade da obra era importante.

Ela o visitava todas as manhãs e ao final dos dias também, para dar uma espiadinha. Poderia ser que no meio de sua acidez, tivesse simpatizado com o patrão ou apenas queria garantir que seria paga. Difícil saber em se tratando de Rosana Lars, um furacão em forma de mulher, imprevisível.

Jones delirava muito em alguns períodos do dia e os médicos não tinham como resolver isso, apesar dos sedativos, os delírios sempre aconteciam. A medicina não conseguia resolver aquela situação, nem dar conforto necessário. Era mantido com soro para mantê-lo hidratado. Não acordava de vez. Podia acordar um pouco, comer algo pastoso e em seguida, voltava a dormir.

Em uma das crises, falou asneiras e coisas desconexas, vomitou o pouco que havia comido; em outra crise, convulsionou e precisou ser imobilizado para que não se machucasse. Os sedativos eram cada vez mais fortes. Gritava o nome Robert Evans algumas vezes e isso assustava os trabalhadores que dormiam no grande alojamento.

Os rapazes diziam à boca pequena que se tratava da maldição, do fantasma da tumba de pedras. Mesmo vindo de fora, de algum modo eles sempre acabavam descobrindo sobre os acontecimentos inexplicáveis de outrora naquela região.

O dia amanhece, Doutor Paulo tomava café no rancho. Revia algumas anotações e comparava com ‘O Livro das Maldições’.

De repente, bateu as duas mãos na mesa e gritou um ‘PUTZ GRILLA!! CACETE!’ tão alto que poderia ser ouvido a quilômetros. Pegou suas coisas e saiu correndo. Os trabalhadores, que não falavam português, idioma gritado pelo bom Doutor, não entenderam nada.

Aquele homem correu até seu quarto, fuçou as malas, pegou uns tubos de couro, alguns cadernos velhos e correu até o anexo, escancarando a porta e gritando:

– JÁ SEI! JÁ SEI O QUE SÃO ESTES SÍMBOLOS!!!!

Mas o quarto onde seu contratante e o secretário supostamente repousavam estava vazio e parecia revirado. A engenheira estava caída, recostada à uma parede e parecia ter sido golpeada na testa. Havia um pequeno hematoma, com um pouco de sangue seco escorrido.

MAS… O QUÊ??! — gritou novamente em português, à medida que confusos e curiosos trabalhadores que o haviam seguido chegavam e se amontoavam para verem, estarrecidos, aquela desordem toda e sua líder naquele estado. Chamaram os médicos e enfermeiros, que vinham com maca e equipamentos de primeiros socorros.

A equipe era ágil e relativamente grande, visto que acidentes eram comuns naquele tipo de obra e por estarem afastados de qualquer cidade, precisavam contar com o mínimo de recursos possíveis para lidar com tipos variados de problemas.

Enquanto a equipe de resgate avaliava a engenheira, um dos carpinteiros que havia chegado primeiro ao local, rastreava com o olhar aquela balburdia ao que proferiu, com a voz gelada e trêmula:

Vejam!!! É o 555!!! É a maldição do fantasma! — exclamou aquele jovem de vinte e poucos anos, cabelos louros e bagunçados, sujo pela profissão, que apontando para a cabeceira da cama, indicava a pequena inscrição, ao mesmo tempo em que ficava de joelhos moles de tanto medo que sentia.

E o Doutor vai até lá examinar, faz um decalque e sobrepõe ao desenho que ilustrava um de seus pequenos cadernos com capa de couro, ao mesmo tempo que pensa, olhos arregalados, mãos trêmulas e se ajoelhando no chão:

Eles não sabem, mas isso não é ‘555’, é algo além e com um significado muito pior. Vamos nadar em uma piscina de merda e não teremos como escapar dessa situação. Seremos destruídos!



Este texto faz parte do laboratório de contos LEI&A, um de nossos projetos para exercitar a escrita. Conheça os outros projetos e leia mais textos em https://medium.com/l-e-i-a


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