Sangue de prazer [Desafio] (+18)


Sentia o suor escorrer por seu corpo. Era um dia frio, mas o prazer que acabou de sentir arrancou toda e qualquer possibilidade de frio que pudesse existir.

Havia algum tempo que não praticava seu maior prazer, sentia-se bem por ter feito.

Ainda nu sentia o membro endurecido, como se ali, em meio a todo aquele sangue e gozo não tivesse encontrado todo o prazer necessário por uma noite.

Soltou a faca bem afiada para que caísse ao chão, olhou fixamente suas mãos cheias de um sangue vermelho ainda vivo. De alguém que, vivo, não estava mais.

Aos poucos aproximou as mãos até sua boca e saboreou o sangue ainda pulsante da mulher que lhe deu prazer naquela noite fatal.

Gozou novamente ao sentir o gosto amargo e úmido que não se repetiria jamais, aquele sabor, seria único.

Escutou o telefone tocar suave, partia do bolso de sua calça jogada no chão. Não se importou, estava satisfeito com aquele momento e sabia que demoraria para sentir novamente algo igual. Deixou o telefone tocar até se cansar, queria aproveitar mais.

Andou calmamente até o banheiro, que fazia parte de um cubículo escuro e fedorento que as prostitutas mais baratas do centro de São Paulo atendiam, para jogar muita água em seu rosto. Uma tentativa quase desesperada de diminuir o prazer que ainda sentia.

Lavou e secou tranquilamente cada parte de seu corpo e foi em direção de suas roupas. Olhava aquele corpo, que já não passava mais o calor do prazer, em um chão com carpete velho, enquanto colocava sua calça social barata e seu terno, que por mais que quisesse, não chamaria atenção nem de um mendigo na rua. Dobrou a gravata e colocou no bolso do paletó. Do mesmo bolso que retirou a quantia combinada com aquela garota que lhe entregou o prazer combinado.

Sabia que ela merecia cada centavo e não descontou nem um real, como fazia algumas vezes que não sentia tanto prazer. Dessa vez, ela merecia.
Jogou com vigor o dinheiro em cima do corpo frio, exposto e sem vida. Fitava aqueles olhos abertos e não sentia mais prazer algum, estava satisfeito. Abaixou e lhe deu um ultimo beijo, não para se despedir, mas para sentir pela ultima vez, o sabor do prazer daquela noite. Uma noite que jamais se repetirá.

Pegou a faca que deixou cair e fechou os olhos de sua amante. Bateu a porta com menos vigor de que quando chegou e saiu. Passou pela portaria velha sem porteiro, como de costume, e caminhou até a delegacia onde sentaria e esperaria o chamado.

Seria mais uma prostituta morta que ele deveria investigar. Seria mais um caso sem sucesso, que ele iria arquivar.


Este texto faz parte do desafio LEI&A mensal, um de nossos projetos para exercitar a escrita. Conheça os outros projetos e leia mais textos em https://medium.com/l-e-i-a