“Conexão” (9)
A distância tem uma dança diferente.
O tempo corre de forma diferente.
O sábado, de calor, a levou pra praia, durante a tarde. Eu a imagino chegando lá. Primeiro, ainda dentro do carro. No som, alguma música tocando baixinho. Ela, afinal de contas, quer ouvir o barulho do mar quebrando não tão longe dela. Tem chamados que não podem ser recusados. A imagino, pouco tempo depois, caminhando devagar, deixando as pegadas na areia. São suas marcas. Ela é uma pessoa que deixa marcas, mesmo quando parece não acreditar muito nisso. A imagino deixando suas coisas em algum canto seguro, antes de finalmente tomar a direção do mar. A imagino fechando os olhos, respirando fundo, antes de sentir a água molhando seus pés. Um mergulho rápido. A volta pra areia. A leitura. O banho de sol. O rápido cochilo que só a ajudou, mais tarde, a relembrar a ideia de retocar a tatuagem das costas. “Todo amor que houver nessa vida”.
O sábado de calor, mais pro final da tarde, me levou até um dos bares que amo. O amo por ser de esquina. Gosto desse encontro de caminhos. Por ser tão perto da mais paulista das avenidas. Gosto de ver o movimento das pessoas. Ouvir as risadas espalhadas pelas mesas. As conversas animadas. Gosto de ver os casais com conversas ao pé do ouvido e dos carinhos que acontecem por cima da mesa e também entre as pernas que se entrelaçam desejando mais. Gosto da cerveja gelada em noites quentes.
Talvez esse cenário faça vocês se perguntarem como fazemos para nos relacionarmos ainda com essa distância que nos envolve. A resposta é mais simples do que as pessoas geralmente pensam: nós… Conversamos. Mesmo com todos os quilômetros que nos separam, eu sinto, de alguma forma, que a Thaís está ao meu lado. E por isso, onde pessoas podem enxergar fronteiras dividindo, nós enxergamos oportunidades de união.
Então, durante o dia inteiro, conversamos. Falamos sobre o tempo. Sobre a leitura dela. Sobre o meu bar. Sobre a tatuagem dela. Sobre o meu sofrimento com o calor. Nós falamos. Nós estamos juntos.
Antes de voltar de vez pra casa, ainda paro em um último bar. Uma “saideira” a pedido de um velho amigo que queria contar sobre o encontro que acabara de ter. Eu gosto de ver isso. Eu gosto de ver que as pessoas ainda tentam — e isso é cada vez mais raro. Dizem que não existe amor em São Paulo. Ele existe. É que as pessoas estão procurando cada vez menos por ele.
Chego em casa. Luzes acesas. Ligo a TV. Netflix. Friends. Resolvo também pegar um café.
“I’ll be there for you”
Talvez essa seja uma boa noite pra escrever.
Ela começa a comentar comigo sobre o show da P!nk que está vendo.
Se você pudesse dividir essa cena em dois, provavelmente a teria de um lado, em seu apartamento, descalça, dançando e se divertindo horrores — pra infelicidade dos vizinhos. Do outro, eu, com o notebook no colo, com as pernas cruzadas, um cafezinho em cima da mesinha de centro da sala enquanto penso nas histórias que gostaria de contar.
O tempo vai passando, a madrugada começa a chegar e a conversa entre nós vai ficando, aos poucos, mais lenta.
Eu sinto o sono querendo chegar por aqui e ela confirma que ele também está chegando por lá. Conexão.
Desligo o notebook. Me deito no sofá mesmo. Gosto de dormir com o barulho de qualquer coisa ligada, então a televisão me fará companhia hoje.
Meu celular vibra mais uma vez.
“Posso te pedir uma coisa?”.
“Claro, amor”, eu respondo, confiante, mesmo sem fazer a menor ideia do que ela poderia pedir. Talvez essa seja uma das bases do amor. Sem dúvida, essa é uma das bases do amor.
“Escolhe uma música pra eu ouvir antes de dormir?”, sorri, depois de ler a mensagem.
Angel, Jack Johnson.
Ela agradeceu, antes de desejar boa noite. Leio um “eu te amo” e sei que ali existe toda a verdade dela. Toda a minha verdade em retribuir três pequenas palavras tão carregadas de sinceridade e sentimento. O peito chega a esquentar.
Eu botei a música pra tocar no meu celular também.
Fechei os olhos e suspirei. Se eu forçasse a imaginação um pouco mais, poderia imagina-la deitada sobre mim no sofá mesmo. Poderia sentir o cheiro do seu cabelo. A forma que sua pele reagiria ao meu carinho até que ela finalmente dormisse.
O tempo, apesar de correr de forma diferente para cada pessoa, gosta de fazer esquinas nos caminhos que a gente nunca pensa que poderiam se encontrar.
Tem histórias que pedem por mais tempo pra serem escritas.
Outras… Outras só esperam pra serem vividas. Com sorte, a dois.
É… A distância tem uma dança diferente. E nós dançamos muito bem juntos.

