A crise política e os memes

Como os memes podem dar significado à crise política brasileira

Lucyleny Rocha e Yanka Senna

As redes sociais trouxeram o boom dos “memes”, em especial os políticos. Em tempos de crise, as imagens, vídeos e jargões só mostram que o brasileiro tem uma imensa capacidade de enfrentar, com humor, suas maiores adversidades. O país é um dos campeões em produção de “memes”, já até venceu a Primeira Guerra Memeal contra Portugal. Utilizar os “memes” como forma de representar sua opinião, diz muito não só sobre o seu senso de humor, mas também sobre seu alinhamento ideológico. É um jogo da adesão, onde o “curtir” e o “compartilhar” ganham cada vez mais espaço.

O termo “meme” aparece, pela primeira vez, em 1976 com Richards Dawkins em seu livro “O Gene Egoísta”, que o define como uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação. Atualmente, o “meme” é um fenômeno típico da Internet, e pode se apresentar como uma coleção de textos, imagens, comportamentos difundidos, desafios ou memórias compartilhadas. Alguns autores como LimorShifman (2014) salientam que o “meme da Internet” é uma ideia que está midiatizada através de uma imagem, texto, ou som, com a característica de rápida difusão e manipulação por parte de atores sociais atuantes enquanto internautas na rede, ou seja, é a ideia que está por trás da imagem. Na cibercultura, os usuários utilizam essa palavra para se referir a tudo que se propaga, ou mesmo se espalha, na Internet.

Fato é que a Internet possibilita a cooperação mútua e a grande replicação, sendo campo de evolução dos “memes” — as mensagens veiculadas pelos “memes” são decodificadas e interpretadas pelos receptores, que irão replicá-las, caso se familiarize com a linguagem contida. Assim, há um diálogo entre esses usuários que compartilham das mesmas interações de transmissão de ideias. “A internet é um ambiente com várias linguagens e o “meme” é uma delas, onde as pessoas trocam ideias. Você vê uma postagem, se você olhar nos comentários, quantos “memes” estão presentes ali? Você lê e já sabe se é uma mensagem de apoio, se é um deboche, se é uma ironia. É uma forma de expressão. Não há mais comentários em palavras, mas com imagens. Há uma interação”, afirma a professora de Relações Públicas, com ênfase em redes sociais digitais, na Ufam, Judy Tavares.

A tecnologia, no entanto, não é usada apenas para replicação, mas também para a criação de “memes”. A Internet pode ajudá-los a moverem-se mais rapidamente e até mesmo criar novos “memes” com mais velocidade, que modifica ainda mais a forma rápida como eles se recombinam, transformam-se e se espalham. Ela possibilita que o transmissor de um “meme” mantenha-se virtualmente anônimo ou torne-se famoso instantaneamente e assegura a sobrevivência dos “memes” mais fortes.

Segundo pesquisadores, os “memes’ fazem tanto sucesso, devido fatores econômicos e laços criados através da reapropriação do mesmo. Os “memes” se inserem na capacidade de atrair o interesse de indivíduos e comunidades para determinados assuntos e situações, em uma sociedade onde tempo é dinheiro. Além disso, criar ou recriar um “meme” é fazer parte de uma comunidade que pode até ser anônima, mas não menos forte. De acordo com o Doutor em Linguística e mestre em Letras, Sérgio Freire, o “meme” pode ser considerado um novo gênero para se comunicar. “Esse gênero faz sucesso porque traz características de quem consome informação hoje em dia, o público jovem.Então, não é mais “textão”, são coisas rápidas, audiovisuais, em movimento, facilmente acessível ou compartilhável”.

Exemplo de rage face (Fonte: pinterest)

No Brasil, os “memes” começam a se popularizar em 2011, com o surgimento de fanpages de humor, blogs com tirinhas de rage faces e a tradução de sites cômicos, como o americano “9GAG”.

Alguns canais também geraram “memes”, como o “Vale Tudo” do siteUol Jogos, que criou os “memes”: “Dorgas” e “Tenso”.

“TENSO” — Um dos maiores memes brasileiros (Fonte: http://www.sequelanet.com.br/) // Exemplo de meme “Dorgas”, difundido no Vale Tudo (Fonte: http://4.b p.blogspot.com/)

O Orkut também foi grande responsável nesse início — as comunidades geraram “memes”, como: “Fica vai ter bolo”.

“Meme” difundido pelo Orkut (Fonte: http://youpix.virgula.uol.com.br)

Outro aliado nessa popularização foi a televisão brasileira. Muitos “memes” tiveram origem na mídia tradicional, como: “Aham Cláudia, senta lá” e “Menos a Luiza, que está no Canadá” que surgiu em um comercial.

“Meme” que migrou da televisão para a Internet (Fonte: Fábio Sorriso)

Atualmente, a criação de “memes” no Brasil é elevada e há um forte trabalho de ressignificação de “memes” produzidos no exterior, como o “Whatch Out”, que ganhou uma versão brasileira denominada: “Ui”. De acordo com Sérgio Freire o humor brasileiro é uma forma de sublimar essa realidade que é tão dura e pesada.

Meme “Ui” que derivou do “Watch Out” (Fonte: http://www.quickmeme.com/)]

Pode parecer estranho, mas nem todo “meme” é engraçado, muito embora o humor seja um artifício muito comum a eles ‐ mesmo quando se trata do chamado “humor negro”. Se a eficácia de um “meme” pode ser medida com base na quantidade de “novas referências, apontamentos e reinterpretações feitas” sobre ele, seu valor não se resume a isto. Como produto cultural, ele não pode ser desvinculado das experiências sociais de seu criador.

Em uma análise de conteúdo com vídeos do YouTube, Shifman (2014) propõe que o humor das redes sociais online recorre sistematicamente a alguns elementos. Segunda a autora, ele se baseia ou é estrelado geralmente por pessoas comuns, questiona ou ridiculariza o lugar da masculinidade, investe em uma comicidade de incongruência (quebras de expectativas), em linguagem simples e popular, permeada de repetitividade, e com ênfase em situações excêntricas ou fora do comum. De antemão, algumas dessas características podem ser relativizadas para os conteúdos políticos.

A presença dos “memes” na política podem ser exemplificados como a utilização dos mesmos na Operação Carne Fraca, realizada em março de 2017. Logo quando foi deflagrada a ação, nas redes sociais, especialmente Twitter e Facebook, multiplicaram-se piadas e ironias, desde o papelão misturado na carne e na salsicha até o ator Tony Ramos. Segundo o coordenador do site Museu dos Memes, Viktor Chagas, na medida em que os “memes” ajudam o debate público a ganhar amplitude, repercutem os temas e pautam uma agenda relacionada a alguns indivíduos ou grupos “Os “memes” causam desconforto aos políticos porque implicam em uma desconstrução da imagem pública, em uma vulgarização e dessacralização da figura do político. É a expressão de uma opinião pública, desvinculada dos meios de comunicação tradicionais”, afirma.

O significado que os “memes”, portanto, também chamam atenção para problemas da sociedade, e, hoje, são parte do cotidiano de jornalistas publicitários e marketeiros, pois é uma linguagem acessível e chamativa. “Estamos em um ambiente de reconstrução. Pode ser que em uma matéria você vá encontrar um “meme” (…) há outro aspecto, os jovens, adolescentes acompanham notícias, então é preciso ter essa identificação. Acredito que o “meme” tenha uma inserção nesse cenário, já que sempre traz uma ideia”, afirma a professora Judy Tavares.

Exemplos de “memes” na Operação Carne Fraca (Fonte: Gaz/ Estadão, respectivamente)

Mas nem só da política folclórica vivem os “memes” — a maior incidência deles são como peças persuasivas de propaganda política. Se por um lado, o político busca ratificar sua posição de distinção, por outro, a competição eleitoral o obriga a fazer uso cada vez mais intenso uso do marketing e das técnicas publicitárias, de modo que ele oscila entre um extremo — o da autenticidade inalcançável, incomunicável com as bases — e outro — o da posição vulnerável como produto fútil, produzido pelos “marketeiros”. O marketing político vem incorporando gradativamente a linguagem dos “memes” de Internet na criação de peças publicitárias para divulgação de propostas dos candidatos ou difamação dos adversários.

A política é recheada de “memes” — desde antes da Internet há o uso de jingles e bordões dos candidatos, como o jingle “Ey-Ey-Eymael” ou o bordão “Meu nome é Enéas” — que identifica como os eleitores reproduzem e se reapropriam dessas peças de marketing, de forma divertida. Compreender estas peças como “memes” não é reduzi-las em sua significância, mas admiti-las como conteúdos culturalmente e coletivamente elaborados.

É importante ressaltar, entretanto, que o “meme” não é um viral. O viral é uma informação que se espalha sem sofrer alterações e tem fidelidade de cópia. Já o “meme” se espalha como um comportamento imitado e pode se reinventar a cada compartilhamento. Um “meme” só é um viral quando tiver intenção publicitária ou atrair um todo. “Há um processo ideológico muito forte. Você compartilha algo e alguém que lhe segue, de repente, não acha graça, não acha “compartilhável”. Mas é exatamente esse jogo ideológico (…) e aí, quando ele viraliza significa que é um pensamento coletivo”, afirma Sérgio Freire.

Porém, até que ponto um “meme” pode ser legal e popular para ofender pessoas e utilizar imagens pessoais sem devida autorização? A liberdade de informação, um direito garantido na Constituição Federal, não significa uma carta branca para a utilização e criação de “memes” à vontade. Em um mundo em que fica cada vez mais fácil registrar e compartilhar o que está à volta, estabelecer o melhor balanço entre o direito à informação e à expressão e o direito à imagem é um desafio gigantesco. Exemplo disso foi o processo à uma empresa jornalística que utilizou, em 2015, fotos pessoais de um casal, de forma jocosa, sem sua autorização — o site publicou em destaque na página, fotos do casal sob o título “Top 50 de Esquisitices”. Caso semelhante foi a proibição da utilização de imagens do presidente Michel Temer, em finalidades que não sejam jornalísticas e governamentais.

Imagem do presidente Michel Temer em uma referência à novela A Usurpadora (Fonte: reprodução Twitter)

Há um limite entre pessoal e público? De acordo com a professora Judy Tavares, a questão do público e privado está muito confusa e o direito do outro acaba sendo esquecido. Muitas vezes, a piada vale mais que a exposição e humilhação alheia. É preciso pensar quem é o outro, se colocar no lugar do outro. Ela afirma ainda que é possível sim, viralizar ideias sem tirar o espaço do outro. O professor Sérgio Freire compartilha a mesma opinião “Logo após o ex-presidente Lula fazer o discurso dele e começaram a dizer que ele jogou a culpa na mulher (…) e a Marisa (loja Marisa) lançou o “meme” no Instagram com dizeres: “Se a sua mulher ficar sem presente no dia das mães, não culpe a Marisa”, fazendo um intertexto com a situação, e é uma atitude de risco (…) a apropriação desse conteúdo que está circulando precisa ser feito com muita responsabilidade, as pessoas às vezes tendem a achar que a Internet é terra de ninguém, mas não é”, afirma.

A ideia de “meme” proposta por Dawkins é análoga ao gene. Ele afirma que a maior parte daquilo que o homem tem se resume em cultura e a transmissão cultural é análoga à transmissão genética. Assim, é possível afirmar que os “memes” utilizam a sociedade para evoluírem e sobreviverem. Dessa maneira, as pessoas se tornam hospedeiros das ideias que saltam de cérebro para cérebro e estão em constante transformação e recombinação.

Referências: SHIFMAN, Limor. Memes in digital culture. Massachusetts: MIT Press, 2014.

Para saber mais sobre:

https://medium.com/lab-f5/podcast-os-memes-na-vis%C3%A3o-de-s%C3%A9rgio-freire-f9faff870841

https://medium.com/lab-f5/entenda-o-conceito-de-meme-8fe3406f8417

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