Sociedade

Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim

O Brasil é o quinto país que mais violenta mulheres no mundo.

Jullie Pereira, especial para o LabF5.

Essa semana, mulheres do mundo inteiro iniciam a campanha “16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra a Mulher”, uma iniciativa que engloba ONGs, associações, coletivos e movimentos. Já são cerca de 160 países que, simultaneamente, criam ações de luta contra a violência de gênero.

Segundo relatório divulgado pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH), no primeiro semestre de 2018, a central do ‘Disque 180’ realizou 523.339 atendimentos, sendo 72.839 registros e relatos de violência contra a mulher. Em 43% dos casos, a vítima denunciou ter sofrido violência física, na maioria das vezes, por seu companheiro ou ex-namorado.

(Créditos: Thinkstock)

Embora as mulheres estejam ocupando seus espaços e sendo protagonistas de suas próprias histórias, os números de mortes justificadas por gênero continuam crescendo. O Brasil é o quinto país que mais violenta mulheres no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Nessa mesma semana, uma hamburgueria do município de Salto, no interior de São Paulo, criou um lanche denominado “Maria da Penha”, com um destaque em seus ingredientes:

O cardápio da hamburgueria gerou indignação nas redes sociais. (Créditos: Reprodução/ Internet)

Num país em que, a cada dois minutos, mulheres sofrem algum tipo de agressão, não será tolerado fazer piada sobre o assunto. Não mais. Não depois de décadas de luta. Não depois que a internet chegou e nos mostrou que a pressão online traz resultados. Foi o que aconteceu no caso da hamburgueria em SP, que se retratou, embora não satisfatoriamente. Após a repercussão, trocou o nome do lanche para “Censurado” e depois por “Um Lanche com Repolho”. Não entendeu nada, mas precisou se responsabilizar pelo erro.

Gênero e raça

Não se pode ignorar a vivência de um país racista, que mata as mulheres, também, pela cor de sua pele. Segundo o Atlas da Violência, em 2016, a diferença da taxa de homicídios entre as mulheres negras e não negras foi de 71%. Em dez anos (2006–2016), o número de mulheres negras mortas aumentou em 15,4%, enquanto entre as mulheres não negras houve uma queda de 8%.

No artigo “Enegrecer o Feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero”, da escritora e filósofa Sueli Carneiro, ela fala sobre a importância do antirracismo dentro do movimento feminista:

“A unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo”, salienta a filósofa.

Os “16 dias de Ativismo pela Violência Contra a Mulher” é mais uma das iniciativas que as mulheres protagonizam durante todos os outros 349 dias do ano. Essa luta não parou em 1857, quando fomos queimadas e mortas por exigir nossos direitos. Nem em 1989, quando Marc Lépine invadiu uma sala e matou 14 mulheres por não aceitar que elas estudassem engenharia. A nossa luta não vai acabar agora com um presidente machista e misógino eleito no Brasil.

Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim ou pra qualquer outra irmã, hoje ou amanhã. Marielle Franco escreveu em artigo sobre o movimento feminista, publicado em janeiro desse ano, no Le Monde: “2018 que nos aguarde!”

Marielle, 2019 vem aí, e nós continuaremos. Por você também.