#EspecialÁgua

Essencial para a vida dos seres vivos, a água possui características químicas que garantem o seu consumo até mesmo direto das torneiras e dos rios

Jefferson Morais
Jul 20, 2018 · 7 min read

Por Alessandra Aquino, Aline Moura, Jamilly Nascimento, Jefferson Morais, Kézia Ferreira, Ruvia Dias e Társis Luz. Especial para o LabF5

Diferente dos europeus, os brasileiros não confiam em tomar água das torneiras. Foto: Alessandra Aquino.

Em nossa vida escolar, seja naquela aula de Ciências do 9º ano ou numa aula de Química no Ensino Médio, aprendemos que a água ideal para o consumo tem que ser incolor, sem cheiro e sem sabor. E que sua fórmula química é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, formando a famosa fórmula H²O. Mas os estudos não param por aí. Cada vez mais a água é estudada pela Bioquímica e pela Química Analítica, que conferem sua fundamental importância para vida na Terra e até mesmo fora dela.

Quando respiramos, comemos ou dormimos, reações químicas ocorrem em nosso corpo garantindo o equilíbrio e o funcionamento do organismo como um todo. Tudo isso ocorre em meio aquoso, já que a água é um “solvente universal devido a sua capacidade de dissolver outros compostos químicos”, como informa Giovana Bataglion, professora doutora em Química Analítica da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

A potabilidade da água

Para a água ser considerada potável, características químicas e biológicas devem ser consideradas, como atenta a professora Bataglion: “Quanto à composição química, é aquela que não apresenta compostos que seriam nocivos à saúde, como chumbo, cromo e cádmio, que são metais tóxicos”.

Segundo a professora, o Ministério da Saúde determina limites máximos onde esses metais são encontrados na água para ser considerada potável. Esses compostos são chamados de “disruptores endócrinos, capazes de interferir no sistema endócrino do organismo”, que causam efeitos prejudiciais ao desenvolvimento, a reprodução e ao sistema neurológico e imunitário dos seres vivos.

É comum pensar que todas as águas são iguais. Mas são diversos os fatores que diferenciam as águas, variando desde pureza, poder de hidratação, níveis de minerais, até o pH da água, que é o percentual hidrogeniônico. Em sua portaria nº 2.914, o Ministério da Saúde recomenda que no sistema de distribuição, o pH da água seja mantido na faixa de 6,0 a 9,5, pois todo pH inferior a 6 é ácido e quanto menor o número, mais ácida é a água, o que é prejudicial à saúde. O pH acima de 7 significa que a água é alcalina e ideal para a nossa saúde, com poder de hidratação superior às demais águas.

Água e Corpo humano

O corpo humano dá sinais de alerta de desidratação. Arte: Aline Moura.

A água também exerce papel primordial na eliminação de substâncias tóxicas pela urina, como indica Alessandra Magalhães, professora do Departamento de Ciências Fisiológicas do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), da Ufam. “A água é responsável pelo transporte de nutrientes, oxigênio e sais minerais para as células, que basicamente são compostas por 60% de água”. A professora também lembra que a água garante a proteção de algumas estruturas do corpo:

Podemos citar o líquido presente nas articulações que evita o atrito entre os ossos, o líquido amniótico, que protege o bebê em desenvolvimento, e as lágrimas, que evitam o ressecamento das córneas e realizam sua limpeza.

Como não pode ser armazenada em nosso corpo, é fundamental sempre ingeri-la para que haja um equilíbrio entre o que é ingerido e o que se perde, principalmente por meio do suor e da eliminação de urina e fezes. Por isso “é necessário beber bastante água, principalmente em dias com temperaturas altas e durante a realização de atividades físicas”, sugere a professora Alessandra Magalhães.

Direto das torneiras

Em países da Europa, o consumo de água é feito direto das torneiras. O Centro de Política e Lei Ambiental da Universidade de Yale, em conjunto com a Rede de Informação do Centro Internacional de Ciências da Terra da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, criaram um indicador que analisa o desempenho ambiental dos países: o Índice de Performance Ambiental (IPA), que classificou Alemanha e Suíça como lugares confiáveis para beber água diretamente da torneira.

Na Alemanha, a água potável é controlada por leis, diretrizes e regulamentos que definem os critérios de qualidade que devem ser seguidos pelas companhias de abastecimento de água, as quais oferecem uma análise gratuita da qualidade da água e das instalações hidráulicas de um imóvel. Assim, toda água que sai da torneira deve seguir padrões microbiológicos e químicos estabelecidos, mesmo que seja usada para tomar banho, cozinhar ou regar as plantas.

Além disso, uma portaria editada em 2003 determina que os proprietários de casas e estabelecimentos garantam que a tubulação esteja limpa e em condições adequadas. Por este motivo, não é necessário nenhum tipo de tratamento extra nas casas para garantir o consumo de água direto das torneiras.

Países pelo Mundo possuem realidades distintas quanto ao consumo de água diretamente das torneiras. Arte: Aline Moura.

Na Suíça, é comum ver pessoas andando com garrafinhas que são completadas com águas de fontes e torneiras encontradas pelo caminho. Quando a água não é própria para o consumo, há avisos no local. Nos restaurantes, os suíços consomem água direto da torneira, com custo zero. No país, as águas são de qualidade graças às estações de tratamento construídas a partir dos anos 1950, melhoradas tecnicamente até os dias de hoje. A chuva contribui para a abundância de água no país, pois as precipitações anuais cobrem virtualmente a Suíça com um metro e meio de água, sendo que dois centímetros e meio já são suficientes para fornecer a água potável necessária.

Onde o consumo da água não é confiável

Enquanto algumas regiões apresentam grandes reservas, outras convivem com a escassez. Dois terços da humanidade vivem em regiões onde há escassez de água ao menos uma vez por mês e a demanda por água deve aumentar 50% até 2030, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Existem muitos países cujo consumo de água é arriscado, principalmente vinda dos encanamentos.

É o caso do Kuwait. O país situado no Golfo Pérsico convive com praticamente nenhuma reserva de água e vê-se em um grande dilema em relação aos dois principais recursos naturais da atualidade em termos estratégicos: o petróleo e a água. Não existem reservas de água no Kuwait em forma de rios e lagos ou mesmo em aquíferos, já que o país é cercado por uma área desértica que desemboca no mar. Sendo assim, a água tratada não é confiável e seu consumo pelas torneiras pode trazer riscos à saúde.

Muitos países sofrem com a ausência desse recurso tanto pela poluição e má gestão quanto por problemas econômicos e a falta de investimento em captação e distribuição das águas dos mananciais, como é o caso dos Emirados Árabes Unidos, onde por mais que o crescimento tem sido intenso, se esquecem de cuidar do meio ambiente.

De acordo com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), uma das causas mais comuns de doença em viagens é beber água contaminada. Tomar água não potável pode causar diarreia, hepatite A, febre e até mesmo cólera.

Brasileiros e o Mundo das Águas

No Brasil, o consumo de água mineral é um hábito comum em boa parte do país. É possível encontrá-la sendo vendida em lanchonetes, supermercados e até em semáforos, na forma de garrafinhas ou em garrafões de 20 litros. Essa prática se justifica pela pouca confiança da população nos serviços oferecidos pelas redes de abastecimento.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em censo realizado em 2010, as regiões Norte e Nordeste do Brasil apresentam a maior quantidade de municípios sem água tratada. Dessa forma, apresenta-se a dificuldade de criação de sistemas de monitoramento da qualidade e a complexidade de criação de redes onde não há acesso à água.

Essa realidade se contrapõe diretamente ao que ocorre em alguns países do continente europeu, como no caso da Islândia, que é considerado um dos países com água encanada mais pura do mundo. Por lá, a água utilizada vem de fontes subterrâneas que, ao passarem pelas rochas, são purificadas e aquecidas. Até os riachos são próprios para consumo humano, onde é comum o armazenamento dessa água natural em squeezes e sendo assim, dispensa a compra de água industrializada.

Experiência semelhante viveu a brasileira aposentada Maria Elizabeth Agard que presenciou o mesmo costume na França durante o tempo que esteve lá:

“De início recusei beber água da torneira porque tive medo de contrair alguma bactéria, mas depois de ver todos de lá bebendo e rindo do meu temor, resolvi experimentar e graças a Deus nada de ruim me aconteceu por conta disso”.

De acordo com o site da EAU de Paris (companhia que cuida da gestão municipal da água da cidade) a água das torneiras da França atende a todas as exigências e parâmetros de potabilidade podendo ser bebida sem problemas. Até mesmo em seus rios e córregos correm águas frescas. Seus níveis de bactérias são baixíssimos porque ela recebe um rigoroso tratamento que lhe atribui um gosto mais forte e a torna bem calcária (rica em cálcio e magnésio), concentração que, por sua vez, ajuda a evitar a osteoporose e outras doenças.

Destino de muitos brasileiros para morar, fazer turismo ou estudar, Portugal também possui um tratamento de qualidade de sua água, tanto que o consumo lá é feito também direto da torneira. Mas como os brasileiros que viajam para lá não têm esse hábito, a desconfiança persiste. É o caso de Maria Sandra Campos, professora aposentada da Ufam que viajou ao país para estudos:

“Por conta dessa cultura que nós temos no Brasil, eu tinha preocupação. Então eu comprava água embora soubesse que a água da torneira lá em Braga era saudável”.

E ainda acrescenta: “um fato curioso que me chamou atenção foi quando passei por um córrego em uma rua e a água dele era cristalina, bem diferente dos córregos que vemos aqui em Manaus, acredito que até dali daria para beber”.

LabF5

O LabF5 publica conteúdo desenvolvido por estudantes do curso de Jornalismo da Ufam e colaboradores. Leia nosso antigo blog também http://labf5-blog.tumblr.com/

Jefferson Morais

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Manauara, 24, aprendiz da Comunicação.

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