A evolução do movimento LGBT e sua atuação na internet

Por Alifer Sales

O movimento LGBT, assim como os demais movimentos sociais, se depara com um novo ambiente para a militância: a internet e as redes sociais. Elas proporcionam um ambiente mais dinâmico e favorece o alcance ao público alvo das pautas de reivindicação, onde as ideias são propagadas com mais rapidez, mas com menos intensidade, já que é grande o volume de informações que os usuários da rede recebem.

No Brasil, a história do movimento LGBT começa em meados da década de 1970, antes mesmo de o movimento ter a sigla como identificação. No auge da ditadura militar, motivados pelas perseguições e torturas provocadas pelo Regime, homens gays se organizaram e iniciaram o chamado Movimento Homossexual Brasileiro (MHB), criando uma identidade para a luta contra a discriminação e pelo respeito às diferentes orientações sexuais. Um marco histórico importante para a mobilização política foram as criações do Jornal Lampião da Esquina e do grupo Somosde São Paulo, em 1978, dando força às pautas homossexuais. Com o passar dos anos, Lésbicas, Transexuais, Travestis e Bissexuais se aproximaram e ganharam espaço no movimento que enfim foi nomeado como Movimento LGBT, na década de 1990, unindo à causa as pautas de identidades de gênero e sexualidades.

Nos anos 80, o Brasil assiste a sua ditadura chegar ao fim, enquanto o pluripartidarismo ressurge. O movimento começa a conquistar mais espaço político, embora tímido, quando partidos, como o PT e o PSTU, começam a internalizar pautas com a temática LGBT. Uma conquista nesse sentido foi a proposição do projeto de lei sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo, em 1995. Outro marco importante, ainda na década de 90, foi a criação do Programa Nacional DST/Aids, possibilitando que a população tivesse mais informações sobre como evitar e como tratar a doença, além de desmistificar a relação da doença com os LGBTs.

O movimento se torna mais expressivo com a virada do milênio, onde o chamado Orgulho LGBT motiva a realização de diversas paradas e eventos com o objetivo de que o público LGBT adquira maior empoderamento, além de promover maior interação entre a comunidade e lutar contra as diversas formas de preconceito que permeiam os LGBTs. Junto ao crescimento do movimento, a tecnologia avança e o mundo vê o “boom” da internet e dos smartphones, com as redes sociais ascendendo e o ambiente de interação social sendo drasticamente reconfigurado.

Na internet, a comunidade LGBT se reúne e age de diversas maneiras. No Youtube, diversos canais voltados para o tema abordam assuntos importantes para o movimento, de forma a promover a ascensão, a conscientização e a informação de uma forma leve e lúdica, mantendo, na maioria dos vídeos, a seriedade devida. Como exemplo de canais que atendem a tal perfil, o Canal das Bee, o Põe na Roda, a Mandy Candy, o Para Tudo e o Barraco da Rosa trazem à tona discussões do mundo LGBT que precisam ser debatidas de forma saudável. Já no Facebook, páginas de organizações e grupos ativistas ganham diversos espaços para a propagação de informações e divulgação de eventos e campanhas. Além disso, há também grupos fechados, como o Grupo LDRV, que oferecem um ambiente confortável e seguro para o compartilhamento de experiências e dúvidas, onde xs internautxs podem acolher e ajudar no processo de empoderamento e auto aceitação.

Quando o assunto é representatividade, a mídia — e principalmente a música — traz personalidades fortes para o movimento. A drag queen Pablo Vittar, com seu hit Todo Dia, tem o clipe produzido por uma drag mais visto no mundo, superando a famosíssima RuPaul. No RAP, Rico Dalasam quebra conceitos e abre espaço para rappers gays no Brasil. Na MPB, Liniker arrepia com suas músicas originais. Johnny Hooker não decepciona quando o assunto é sofrência. E é claro que a Daniela Mercury não deixaria o Axé de fora dessa seleção. Já na Televisão, o programa Amor & Sexo, apresentado por Fernanda Lima, contribui muito para a desconstrução de conceitos, ao tratar da temática LGBT, dentre diversas temáticas, de uma forma educativa, séria e descontraída.

Ainda no panorama atual das movimentações da comunidade LGBT, a organização All Out se destaca como um movimento global que cria uma rede de pessoas no mundo para a realização de campanhas contra abusos realizados contra o público LGBT e a favor dos direitos de igualdade e cidadania para a comunidade. O principal meio de comunicação da organização é via email.

No início do ano, em São Paulo, foi inaugurada a Casa 1[1] com o objetivo de abrigar LGBTs que foram expulsos de casa pela família. Para a criação desse espaço importante para a comunidade, a internet foi essencial para a arrecadação do dinheiro usado na reforma do espaço. Através de um financiamento coletivo[2], foram arrecadados 112 mil reais para a execução do projeto. Entra, assim, para a história do movimento um ótimo exemplo de união da comunidade.

No campo das políticas públicas, muito se avançou nesta última década. Em 2010, o Superior Tribunal de Justiça reconheceu o direito de casais homossexuais adotarem crianças[3]. No ano seguinte, em 2011, o Supremo Tribunal Federal passou a reconhecer a união estável de pessoas do mesmo sexo[4] para, em 2013, o Conselho Nacional de Justiça assinar uma resolução que obriga todos os cartórios a celebrarem o casamento homoafetivo[5].

Infelizmente, no entanto, nem tudo são flores e arco-íris. O movimento LGBT ainda enfrenta muitas dificuldades. A bancada evangélica no congresso nacional cresce, dificultando a discussão e aprovação de políticas públicas e projetos de lei essenciais para o público LGBT, como o PLC 122[6] que criminaliza a homofobia e encontra-se arquivado. O Congresso eleito em 2014 é considerado, inclusive, o mais conservador desde 1964[7]. Além disso, a violência contra os LGBTs ainda é grande, seja ela explícita[8], através de agressões físicas e até homicídios, ou implícita através de discriminações e segregações.

Assim como acontece em todos os grupos sociais, o movimento LGBT também abriga disputas internas e desentendimentos, o que pode desencadear uma separação das lutas que a sigla tenta unificar. Mesmo dentro do movimento, transexuais e travestis ainda sofrem certa discriminação dos próprios gays, lésbicas e bissexuais, motivados desde a falta de informação até mesmo pela falta de respeito e reconhecimento. Esse é um ponto crítico e que deve ser debatido. Nesse sentido, é extremamente necessário um esforço da comunidade em entender e acolher mais o público trans, possibilitando a união de forças para a conquista de pautas e políticas que garantam os direitos de todos os grupos do movimento. O respeito e a conscientização são necessários não apenas fora do movimento, mas dentro também.

Embora a internet tenha possibilitado uma nova configuração de interação para a comunidade, existem lados negativos que devem ser considerados. Por mais que a internet tenha aproximado o movimento, uma parte dos militantes acabam não “saindo da rede”, o que dificulta a organização de eventos físicos, não só com o intuito de lutar pelas pautas, mas também para a integração da comunidade. Numa outra linha, as redes sociais têm o potencial de expor usuários a níveis que podem deixar de ser seguros, no sentido de que ainda existem muitas pessoas LGBTfóbicas que usam a rede para atacar o público LGBT.

Na linha dos pontos críticos da internet, é importante que haja discernimento acerca do que é encontrado na web. A famosa “terra de ninguém” permite que pessoas mal intencionadas assumam a identidade e os discursos que melhor lhes forem convenientes. Isso pode ser perigoso, principalmente para o público jovem que, pela inocência comum da idade, pode ser enganado, manipulado e até agredido. Dessa forma, até mesmo dentro da comunidade, é importante estar sempre de olhos abertos e com o senso crítico bem apurado para as inúmeras informações que são jogadas na rede.

Num panorama geral, a internet e a tecnologia podem e devem ser usadas cada vez mais pelo movimento. Ainda há muito a se lutar. Nunca antes o movimento LGBT conquistou tanto e as conquistas ainda são poucas. As pautas do movimento giram em torno dos direitos LGBTs que deveriam ser garantidos constitucionalmente, mas que por uma série de acontecimentos históricos foram cerceados, sem que haja uma justificativa aceitável num Estado laico e Democrático de Direito.

As expectativas das pessoas por informações se tornam cada vez mais imediatistas e a comunidade LGBT acumula energia e empolgação, alimentada pela dor da discriminação. É o momento de usar a rede para reafirmar o orgulho LGBT e pressionar o Congresso Nacional, o setor público e a sociedade para a aprovação de políticas públicas que garantam o direito de cidadania do público LGBT, exigindo o respeito e criminalizando qualquer tipo de discriminação motivada por orientação sexual e por identidade de gênero. A comunidade deve adentrar na política, elegendo políticxs que vistam a camisa do movimento, levantando a bandeira da diversidade. Nesse caminho, as próximas gerações poderão viver com mais harmonia, bem-estar e respeito, tornando o Brasil um país mais diverso e justo.

Referência principal

NAZARÉ, M. P. B. As mídias digitais e seus usos pelo movimento LGBT Brasileiro publicado em Anais do X Seminário de Ciências Sociais — Tecendo diálogos sobre a pesquisa social | Universidade Estadual de Maringá, 2012

[1] http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,apos-vaquinha-casa-para-abrigar-lgbts-expulsos-pela-familia-e-inaugurada,70001640471

[2] https://benfeitoria.com/casa1,

[3] http://www.athosgls.com.br/noticias_visualiza.php?contcod=29208

[4]http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=178931

[5]http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/05/1278302-cnj-estabelece-casamento-gay-em-todo-pais.shtml

[6]https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/79604

[7]http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,congresso-eleito-e-o-mais-conservador-desde-1964-afirma-diap,1572528

[8] http://blogs.oglobo.globo.com/na-base-dos-dados/post/mapa-de-direitos-lgbt-e-dados-sobre-violencia-mostram-divisoes-e-contradicoes.html?loginPiano=true