Sobre viver (e sobreviver) fora da caixa…

Rafaella Franco
Aug 22, 2017 · 5 min read

“Because in the end, you won’t remember the time you spent working in the office or mowing your lawn. Climb that goddamn mountain.” Jack Kerouac

Depois de mais de dois meses vivendo no Vale do Silício, eu poderia relatar uma série de coisas. Poderia falar sobre startups ou pitches, sobre estratégia de conteúdo ou sobre experiência do usuário, ou ainda, sobre chatbots ou inteligência artificial. Poderia postar fotos para mostrar como estão ficando os novos câmpus da Apple em Sunnyvale e Cupertino. Poderia contar sobre a variedade enorme de vegetais curiosos e, provavelmente, transgênicos que existem na Califórnia, ou sobre como as pessoas aqui sempre te cumprimentam na rua como se te conhecessem.

Poderia dizer sobre a quantidade impressionante de mendigos nas ruas de San Francisco, o que lembra bastante as cenas de um capítulo de The Walking Dead. Poderia relatar sobre o vento congelante da Bay Area em maio, ou sobre o fato de que todas as cervejas produzidas aqui têm flavor de laranja ou limão.

Mas não. Não sei se desagrado, mas preferi escrever sobre uma impressão pessoal. E é provável que metade do que escrevi aqui não seja novidade. No entanto, como acredito que reforçar uma ideia positiva não é um esforço de todo inválido, prosseguirei com o relato.

Contarei então como essa experiência tem sido o momento mais incrível e memorável da minha vida. Com ela, descobri uma série de coisas sobre mim. Por exemplo, descobri que é possível viver com uma mala pequena de roupas e alguns poucos pares de tênis por três meses. Descobri também que a forma que eu estava conduzindo minha carreira em breve não me satisfaria mais, e que estava meio apática em relação a isso. Descobri que, na minha opinião, as minhas melhores qualidades (perfeccionismo e apego a detalhes) aqui podem ser grandes defeitos.

Mas a minha descoberta mais surpreendente foi sobre comodismo. Conhecido também como conformismo ou inércia. Pode significar conveniência quando nos convém, ou estabilidade para nos fazer respirar aliviados. Mas no fundo, para o conforto virar simplesmente prostração, é apenas um passo.

Há mais de quatro anos trabalhando com gestão de produto na área de agronegócios do Banco do Brasil, posso afirmar que aprendi muito. Foi e tem sido bem importante. E houve momentos em que me foi conveniente o comodismo, que falei sorrindo sobre o prazer de estar “adaptada”. Me vi anestesiada com a relevância da rotina diária do serviço bancário.

E quando tive a oportunidade de fazer algo diferente, acho que acabei por fazer mais do mesmo. Remodelei o velho, o defasado. E é provável que eu tenha desperdiçado recursos com soluções pouco inovadoras, que no fim não devem ter contribuído de forma tão significativa para melhoria dos processos internos ou para a experiência do cliente.

Logo, a estadia na Bay Area me fez finalmente concluir o que já deve parecer óbvio: o meu modo de pensar e agir, tanto no aspecto pessoal quanto profissional, estava realmente ultrapassado. Pobre de mim, que acreditava estar sendo ousada nos meus afazeres.

O ambiente do Vale provoca um certo caos mental. A quantidade de informações em trânsito, a necessidade de ser ágil e eficiente e o bilhão de oportunidades de aprendizado tornam os dias aqui mais frenéticos. Estabilidade e conforto não são vocábulos usualmente valorizados por aqui.

Desde o choque inicial, tenho então tentado fugir do comodismo. Confesso que abandonar a minha caixa tem sido meio doloroso. Me sinto dormente e enferrujada. Mas, vamos lá! A possibilidade do novo, e mesmo do incerto, é empolgante.

Além da descoberta pessoal, aqui aprendi que a criatividade tem muito valor, e que o trabalho em equipe é essencial. Não aquelas equipes numerosas, mas as mais enxutas que utilizam metodologias ágeis. E não somente as equipes formalmente constituídas, mas aquelas interações estabelecidas naturalmente em espaços colaborativos de meetups, workshops e afins.

Aprendi também que a noção de tempo no Vale é diferente. Ele é precioso, e temos que ser incansáveis. Executemos agora, não dá para deixar para mais tarde. O trabalho aqui não admite acomodação. E, no fundo, fortuitamente, nosso cérebro não foi feito para ser acomodado.

Percebi que inquietação é essencial, assim como os questionamentos. E ainda, que a liberdade é o real benefício da existência, e que essa sensação de total desconexão com a realidade anterior que a imersão no Vale nos proporcionou me fez sentir-me mais viva.

Aquela história que todo mundo conta é verdade: não superestime sua ideia, ela provavelmente não é inovadora. Mas se conseguir executá-la em tempo hábil, entrará na corrida para obter algum sucesso. Mas aja. E se falhar, admita o erro e o corrija. Reconheça. Repense. Mude. Antes que seja tarde. E aqui, o “tarde” não é muito distante.

Aqui pude confirmar a importância do feedback, especialmente daquele dito “negativo”. É o poder da crítica construtiva. E ninguém leva para o lado pessoal.

As pessoas aqui não parecem se agradar com projetos a longo prazo. Claro que objetivos a longo prazo são essenciais, mas as entregas menores ao longo do caminho é que são realmente valorizadas. Caso contrário, o risco de chegar ao final com um resultado já obsoleto é grande demais.

Aprendi ainda que sim, o universo tende à desordem. Aquela história de entropia, lembra? No entanto, muito por uma questão de convenção social, tudo que está vivo tende a se organizar. Mas nós, sendo seres livres, podemos ajudar a desorganizar o mundo. A “incomodar” a acomodação alheia de forma inteligente, a inovar, a sair do quadrado.

E depois de tantas descobertas, acabei me perguntando: qual é o meu propósito ao ir trabalhar todos os dias, afinal? É bonito falar sobre a estratégia corporativa da empresa gigante e bicentenária da qual fazemos parte. Mas o quanto estou realmente alinhada com ela?

A resposta tem sido, pelo menos pra mim, um tanto árdua. Tenho ainda mais perguntas do que quando cheguei aqui. Todavia, já vejo uma luz, já consigo ser diferente. Já não sou mais a mesma. Nenhum de nós aqui somos os mesmos, tenho certeza. Mas como ir além da rotina diária e realmente fazer diferente? Como mudar a cultura da “estabilidade”?

Imagino que essa pergunta tem inúmeras respostas, e elas certamente não serão eficientes em todos os ambientes. Vamos precisar de engajamento e de flexibilidade no processo de transformação cultural do BB, que já se tornou questão de sobrevivência. Em algumas dependências, sei que a semente já foi plantada. Cabe aos “contaminados” perpetuarem os novos hábitos, métodos e ideias. E a equipe aqui no Vale, já no fim do nosso California Dreamin’, estamos cientes dessa responsabilidade.

Labbs

O Laboratório Avançado do Banco do Brasil (Labbs) é um ambiente de experimentação onde novas tecnologias, metodologias e modelos de negócios são testados por profissionais de diversas areas.

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Rafaella Franco

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