81 anos de história, cultura e jornalismo

Conhecendo a rádio Inconfidência além da locução

Por: João Pedro Viegas, Marina Magalhães, Rebeca Braga e Taynara Gregório

(Foto: Marina Magalhães)

A história do jornalismo tem como peça importante o rádio e como esse meio de comunicação se conecta com o público atualmente é uma questão que muitas vezes levantamos. Como o rádio se transformou para continuar sendo relevante mesmo com o advento da televisão e da internet? Para ter contato de perto com a realidade do radiojornalismo atual, escolhemos a rádio mais tradicional de Minas Gerais, com 80 anos de história: a rádio Inconfidência. A rádio pública, inaugurada com AM em 1936, e mais tarde também com a estação FM em 1979, foi criada no intuito de integrar o estado e ser referência para mineiros e turistas.

Conversamos com os jornalistas Pedro Henrique, apresentador do programa “Em Boa Companhia”, e Elias Santos, professor universitário, diretor artístico da rádio e radialista apresentador do programa “Casa Aberta”, sobre o rádio nos dias de hoje, as implicações de serem uma rádio pública e como a rádio se vê em relação à concorrência.

Além disso, acompanhamos Pedro na transmissão do “Em Boa Companhia”, que acontece de segunda a sexta, das 7h30 às 10h, na rádio AM 880. Já na rádio FM 100,9, acompanhamos Elias no “Casa Aberta”, que é transmitido também de segunda a sexta, das 10h às 12h. No dia, nosso grupo participou dos programas, como convidados, deixando um “bom dia” em ambos e dando palpites no quadro de psicologia do “Em Boa Companhia”.

Nosso grupo, João Pedro, Taynara, Rebeca e Marina com o apresentador Pedro Henrique e com o psicólogo Wesley Carneiro, após o programa “Em Boa Companhia”

O rádio é um recurso tecnológico conhecido por ser um veículo tradicional de informação. Ao longo do tempo, outras mídias informativas foram surgindo e, de acordo com a desenvolvimento da internet, o rádio alterou sua lógica de produção de conteúdo para acompanhar essas mudanças.
Ainda assim, existem várias rádios locais em Belo Horizonte e a Inconfidência, tanto AM quanto a FM, vem adotando algumas estratégias para conquistar novas audiências e fidelizar ainda mais as que já a acompanham. Percebemos essas estratégias durante a transmissão dos programas, uma vez que algumas das ferramentas presentes para a produção eram o computador com acesso à internet e o aplicativo WhatsApp.

Apresentador Pedro Henrique ao vivo no programa “Em Boa Companhia” (Foto: Rebeca Braga)

No programa “Em Boa Companhia”, Pedro Henrique utiliza a todo momento a pesquisa do Google e sites mais específicos para a coleta de informações que vão agregar ao programa e garantir sua credibilidade. Além de também manter o contato com a audiência, recebendo suas sugestões, agradecimentos e recados em geral por meio de mensagens.

Já no “Casa Aberta”, o Whatsapp é ainda mais presente. O apresentador Elias Santos quis nos mostrar a interação dos ouvintes e sugeriu que eles enviassem para o WhatsApp da rádio fotos do céu incrível que estava em BH naquele dia. Velise Maciel, jornalista e produtora do programa, foi responsável por realizar esse contato e por coletar as fotos e, em questão de minutos, o resultado foi imediato, várias pessoas participaram ativamente daquele momento.

Além das ferramentas que auxiliam na produção, outras mídias são alimentadas. As redes sociais, como o Facebook e o próprio site http://inconfidencia.mg.gov.br/ são atualizados e funcionam como fonte de informação assim como rádio.

“O rádio é um dispositivo de textualidades diversas, o rádio não é um veículo somente de áudio, se ele continuar pensando assim, está fadado ao fim. O rádio é um dispositivo, com textos diferenciados. A imagem é um texto, o vídeo é um texto, a foto é um texto”, destacou Elias sobre a importância do material transmidiático.
Velise Maciel, produtora da Rádio, mostrando as respostas quase imediatas dos ouvintes pelo WhatsApp.
(Foto: Marina Magalhães)

O Gigante no Ar e Brasileiríssima: dois lados da mesma rádio

A Rádio FM, intitulada como Brasileiríssima, tem uma programação predominantemente musical, sendo só canções nacionais de MPB. No caso da AM, O Gigante no Ar, a programação não é focada em música, mas sim na comunicação do locutor com o público e no entretenimento baseado nos assuntos tratados pelo próprio locutor, sendo bem mais abrangente e diversa que a FM, dando ênfase aos temas de cultura, educação, cidadania e prestação de serviços, além de uma grande cobertura esportiva.

Elias Santos, diretor artístico e apresentador do programa “Casa Aberta”, na FM, acompanhando a transmissão por meio de seu próprio aparelho radiofônico (Foto: Rebeca Braga)

A diferença entre as rádios AM e FM vai além da programação. Elas acontecem em estúdios separados, apesar de serem no mesmo andar e possuem produtores e apresentadores diferentes. Além disso, o público não é o mesmo e é cativado de acordo com os programas de cada rádio. A AM 880 possui um público mais interiorano, com diversidade de idades e poder social. A participação dos ouvintes é muito mais presente, uma vez que eles consideram o rádio como uma companhia do seu dia-a-dia. “Por manter contato diariamente com muitos dos meus ouvintes, eu ganho presentes e sou considerado até como um filho ou um outro membro da família deles”, disse Pedro Henrique, apresentador do Em boa companhia na AM, devido à tanta consideração que os ouvintes têm com os apresentadores, já que fazem parte do cotidiano de seu público. Na FM 100,9, por sua vez, os ouvintes são ativos por meio de respostas constantes pelo WhatsApp, contudo, não tem a mesma frequência de ligações quanto na AM. O público é, majoritariamente, pessoas de classe média e classe média alta que gostam de apreciar música de MPB enquanto estão se locomovendo para o trabalho ou para a faculdade, gostando, também, de ouvir boletins de trânsito.

Apesar de não ser a categoria principal de nenhuma das rádios, o jornalismo aparece em um bate papo simultâneo nas rádios AM/FM, quando os jornalistas participam da conversa no estúdios e as pautas são definidas de acordo com os assuntos mais importantes e atuais. Na AM, os programas exclusivamente jornalísticos somam, hoje, seis horas diárias da programação, enquanto os demais apresentam evidenciadas características culturais.

É importante ressaltar a diferença das rádios públicas e comerciais. De acordo com o artigo “O Rádio Público no Brasil: construindo um modelo nacional pela programação” da professora Valci Regina Mousquer Zuculoto, “as programações das emissoras públicas precisam realmente traduzir as necessidades da população e estimular o exercício cidadão do seu público, realizando uma integração entre os conteúdos e suas audiências”. Já as rádios comerciais são baseadas na prática de exibir publicidade e obter lucro, uma vez que pertencem à empresas de capital privado. A Inconfidência é uma rádio pública, que integra a ARPUB — Associação das Rádios Públicas do Brasil, e nasceu da necessidade de uma rádio mineira que fosse referência, focada em jornalismo, educação e cultura.

As rádios públicas são chamadas de “rádio chapa branca”, ou seja, não questionam pontos de interesse de alguém, neste caso, do governo. No entanto, essa falta de posicionamento nos faz pensar se é possível essa imparcialidade, que ainda é muito defendida pelo meio jornalístico. Na entrevista realizada, o jornalista Elias nos explica que a rádio sofre mudanças a cada novo governo, mas que, na atual gestão, eles não têm restrições para falar de política.

O que faz da Inconfidência única?

A Rádio Inconfidência, assim como a maioria das rádios e veículos de comunicação, tem seus concorrentes. A emissora foca no público das classes A e B, que têm idades acima dos 40 anos. Atualmente, os principais concorrentes da Inconfidência, em uma comparação que abarca jornalismo e programação musical, são a rádio Alvorada, que opera na frequência 94,9 FM, e a rádio CDL FM, que possui a frequência 102,9 FM. Na comparação jornalística, segundo Elias Santos, as principais concorrentes da FM são a rádio CBN, que está na frequência 106,1, e a rádio BandNews, operando na frequência 89,5.

De acordo com Elias Santos, o principal diferencial da Rádio Inconfidência em relação às outras rádios é a música. “A grande vantagem que temos é essa: conseguir diversificar o público. Manter o público tradicional, que gosta de MPB, e ir inserindo essas pinceladas de informação”, afirma o coordenador artístico, enquanto se prepara para entrar no ar, comandando o programa Casa Aberta. Como a Inconfidência FM é chamada de Brasileiríssima, a fidelidade com as composições e interpretações da música nacional realmente é um filtro natural de público. Na Alvorada FM e na CDL FM, por exemplo, são reproduzidas músicas de diversos estilos e nacionalidades.

Console de Áudio da Rádio O Gigante No Ar (Foto: Rebeca Braga)

Deixando a parte musical à margem, essas três rádios que concorrem entre si apresentam formas similares de jornalismo, principalmente a Alvorada e a Inconfidência, segundo Elias. A concorrência das duas é praticamente direta, na visão do diretor artístico da rádio. Nesse embate, é difícil apontar uma emissora que vença na quantidade de jornalismo presente na programação. Se considerarmos que o jornalismo é aquele molde tradicional, praticado ativamente por outras rádios, como CBN e Itatiaia, a Alvorada tem uma leve vantagem sobre a Brasileiríssima, mas fica praticamente “empatada” com O Gigante No Ar (AM 880), já que as duas praticam esse jornalismo moldado tradicionalmente. Quando falamos em um outro tipo de jornalismo, as duas emissoras, com o objetivo de atingir um número maior de ouvintes, têm programas bastante similares. Eles informam sobre trânsito, dicas de atividades e atrações culturais, entrevistas dos mais variados temas, colunistas, etc.

Contrapondo a rádio AM — que faz cobertura esportiva há bastante tempo e de forma intensa — a Rádio Inconfidência FM realizou, neste ano, uma transmissão experimental ao vivo de um jogo de futebol, entre os eternos rivais Cruzeiro e Atlético-MG, que também pôde ser ouvida pelo site, em modo online.

Mesmo com novas experimentações e a inserção da internet como modo de interação entre a rádio e o público, o que ainda configura a identidade da Brasileiríssima, em comparação a outras emissoras, como bem disse Elias Santos, “é a música”.

Esta reportagem foi produzida na disciplina Projetos B1 do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFMG (prof. Carlos d’Andréa). Para ver outras reportagens sobre projetos jornalísticos sediados em Belo Horizonte, visite a publicação LabCon/UFMG.