Desarquitetura Urbana

Projeto Piseagrama propõe reflexão acerca do uso do espaço urbano

Por Ana Luisa Macedo, Isabella Lanna, Júlia Savassi e Victor Cordeiro

Fernanda Regaldo, editora e uma das fundadoras da revista Piseagrama. Foto: Pablo Caldeira

Sexta-feira, fim de tarde com céu fechado. As nuvens cinzas no céu anunciavam a chuva que iria cair a qualquer momento, e o trânsito caótico já dava sinais de que a volta pra casa não seria fácil. Foram nessas circunstâncias, em frente à Escola de Arquitetura da UFMG, que nos encontramos com a equipe da Revista Piseagrama para entendermos melhor essa “plataforma editorial dedicada aos espaços públicos — existentes, urgentes e imaginários “, segundo a definição deles.

História

Tudo começou em 2010, a partir do programa Cultura e Pensamento do Ministério da Cultura, cujo edital selecionou o projeto da revista, escrito pelos amigos Fernanda Regaldo, Renata Marquez, Roberto Andrés e Wellington Cançado. Nessa primeira fase, que durou até 2013, foram produzidas seis edições. Em 2011 foi lançado o primeiro exemplar da publicação, que abordou questões sobre Acesso. Com tiragem de 10 mil exemplares cada e distribuição em todo o Brasil, ao longo de três anos, a revista abordou os temas Progresso, Recreio, Vizinhança, Descarte e Cultivo, em edições semestrais.

Capas da primeira fase da revista

O projeto, que também realiza outras ações além da revista, surgiu em um cenário onde os espaços públicos de Belo Horizonte estavam maltratados e excessivamente vigiados, e a população tinha acesso restrito a eles. Era comum ver nas praças placas como “Não pise na grama” (segundo os membros do grupo ressaltaram, o uso correto seria “não pise a grama”). Esse contraste entre o descaso com esses espaços e a monumentalização e cerceamento do seu uso, motivou o grupo a batizar o projeto com o nome Piseagrama, como uma proposta de retomar esses locais, ocupando-os. Ao olhar para trás, no entanto, eles afirmam que essa questão já foi superada, uma vez que hoje o uso desses espaços na cidade é bem menos restrito, sendo comuns piqueniques na grama da Praça da Liberdade, por exemplo. Dessa forma, ressaltam que “se a revista tivesse surgindo atualmente, provavelmente teria outro nome, até porque o debate que ela traz extrapola essa questão inicial de pequenas intervenções artísticas e de desobediência civil. Se tornou mais global, abrangendo questões sobre a esfera pública”.

Vídeo feito pela equipe Piseagrama para a campanha no Catarse

Com o fim do edital, em 2014, foi realizada uma campanha de financiamento coletivo pela plataforma Catarse, a fim de financiar a continuidade do projeto. Meta atingida, era o momento de dar uma repaginada na revista. Na nova etapa, o projeto gráfico do periódico mudou consideravelmente, assim como o projeto editorial. A equipe passou a ter maior liberdade produtiva e criativa, passando a cuidar de toda a diagramação das matérias, o que impactou diretamente no seu conteúdo, que passou a ter uma relação mais íntima com o formato da revista. Os textos ficaram maiores e novas possibilidades foram sendo inseridas ao longo das edições subsequentes, como a produção de ensaios estritamente gráficos.

A sétima edição marca essa transposição

Atualmente, além dos quatro idealizadores, a revista conta com outros quatro colaboradores. Todos se revezam nas diversas funções, desde pesquisa e levantamento de conteúdo à diagramação e funções administrativas. O grupo funciona de forma bastante horizontal, com a divisão das tarefas desempenhando um papel de organização da rotina de trabalho, e não de hierarquização. Como a revista não tem fins lucrativos, todo o dinheiro arrecadado é reinvestido no projeto.

Desde que a primeira revista foi lançada, em 2011, a equipe vem participando de diversas exposições e bienais no Brasil e em diversos países, como Itália, Suécia, Portugal e Estados Unidos.

Há mais ou menos um ano, o Piseagrama se transformou em um projeto de pesquisa vinculado à Escola de Arquitetura da UFMG. Alguns dos membros são professores na faculdade e, com exceção da Fernanda, graduada em ciências sociais, todos são formados ou estão se formando no curso de Arquitetura. Apesar disso, eles se consideram “desarquitetos”, se definindo como “arquitetos que se recusam a construir, preferindo desconstruir”.

Apesar do Piseagrama ser reconhecido pelo público como um coletivo, seus fundadores não se identificam tanto com essa descrição. Consideram-na um pouco vaga e insuficiente para abranger a totalidade do projeto.

Processo de Criação da Revista

Os membros do Piseagrama se reúnem pelo menos duas vezes por semana, todas as quartas e sextas-feiras, mesmo com a publicação sendo semestral. A sede das reuniões é uma sala na própria Escola de Arquitetura, que é compartilhada entre os membros do projeto e outros professores do grupo de pesquisa Cosmópolis. Essas reuniões definem as diretrizes que serão seguidas na produção das revistas.

Espaço onde a equipe se reúne

A escolha do tema da edição seguinte é sempre feita levando-se em conta as questões que eles consideram mais urgentes para serem discutidas. Na primeira fase, os seis temas foram pensados previamente, no entanto, agora na segunda, ainda não foi possível fazer um levantamento dos temas com antecedência. Eles acabam aparecendo naturalmente nas reuniões de pautas, a partir de sugestões dos membros e de discussões propostas.

O projeto gráfico da revista é pensado de forma a construir um sentido próprio, que também complemente o sentido do texto. A produção de conteúdo é aberta a qualquer pessoa, mas antes de serem publicados os textos devem passar pelo crivo da equipe, que realiza um processo de curadoria para selecionar o que está alinhado à proposta daquela edição da revista. Diferentemente de revistas acadêmicas, na qual os textos raramente sofrem alterações, no processo da Piseagrama é bem comum os editores adaptarem as matérias que recebem. A equipe também é produtora de conteúdo, entretanto muitos dos artigos são encomendados a pessoas cujo trabalho eles admiram. Alguns textos, de pesquisadores estrangeiros, são traduzidos por eles mesmos antes de serem publicados.

Ao longo de todas as edições já publicadas, o trabalho do grupo foi sendo aprimorado e passando por mudanças. Além de algumas já citadas, como o formato das matérias, eles também passaram a se atentar mais aos temas abordados, buscando tratar de questões mais atemporais para não perder o timing de publicação da revista. Assim, mesmo com ela sendo lida meses ou até anos após seu lançamento, os assuntos debatidos em suas páginas ainda seriam relevantes e os leitores conseguiriam entender os textos com o mesmo sentido em que eles foram idealizados.

Outras ações

Além dos exemplares físicos da revista, o Piseagrama também se tornou amplamente conhecido por meio de ações que extrapolam a publicação de textos e artigos, como a intervenção realizada durante a campanha eleitoral de 2012, quando colaram lambe-lambes em vários muros de Belo Horizonte por cima de cartazes de candidatos, chamando a atenção para temas como mobilidade, moradia e meio ambiente.

Imagem retirada do site http://piseagrama.org/campanha/

Juntamente com os cartazes, o Piseagrama lançou cavaletes e o seu produto de maior expressão: as bolsas com palavras de ordem que nos convidam a refletir e defender o uso do espaço urbano de forma consciente, beneficiando aspectos como a mobilidade, qualidade de vida e preservação do meio ambiente. O sucesso das bolsas os surpreendeu, uma vez que as 500 unidades produzidas inicialmente foram vendidas em pouco mais de 2 horas. De lá pra cá já foram produzidas mais de 10 mil.

Imagem retirada do site http://piseagrama.org/campanha/

É importante destacarmos também a questão da forte representação imagética que passou a ser alcançada por meio de tais ações. Com o sucesso e grande circulação das bolsas, o Piseagrama passou a transmitir mensagens de fácil leitura e de forte convite à reflexão de temáticas de interesse urbano e coletivo, tornando-se assim uma referência quando o assunto é mobilidade urbana e novas formas de ocupação do espaço público.

Comunicação com o público e distribuição das revistas

Desde que o Piseagrama se desligou do programa do Ministério da Cultura que lançou as primeiras edições da revista, o próprio grupo ficou responsável por distribuí-las. Como é difícil disponibilizá-las em livrarias, que são focadas quase que exclusivamente em livros, eles costumam comercializar os exemplares em bancas, além de disponibilizar a assinatura anual no site. Em parceria com a banca localizada em frente à Escola de Arquitetura, são vendidos além de edições antigas e atuais, outros produtos do projeto, como as bolsas e camisetas.

No segundo semestre do ano passado, a articulação do Piseagrama com os seus públicos ficou prejudicada após a página deles no Facebook, que chegou a contar com mais de 13 mil seguidores, ter sido bloqueada, devido à capa da oitava edição da revista, cujo tema era Extinção, retratar uma índia com os seios à mostra, o que foi classificado como nudez pelo algoritmo do site e fez com que a página fosse excluída. Agora eles possuem pouco mais de 1700 seguidores na nova página nessa rede social, o que acarretou um prejuízo significativo, não somente no número de pessoas que acompanham esse canal, mas também no engajamento delas.

À esquerda, a capa original. À direita, a imagem modificada após a censura do Facebook. Imagens retiradas do site e da página do Facebook do Piseagrama.

A revista chegou a ter mais de 1000 assinantes, mas como eles não realizam a renovação automática da assinatura, esse número atualmente está na faixa dos 400. A sobrecarga de tarefas por parte da equipe, faz com que eles não tenham muito tempo para desenvolver campanhas com o objetivo de atrair mais públicos. Pensando nisso, trabalham com a ideia de buscar colaboradores que tenham mais afinidade com o processo comunicativo e possam agregar esse know-how ao grupo.

Última edição lançada no primeiro semestre de 2017

Para aqueles que possuem interesse em acompanhar os conteúdos do projeto, é possível assinar a revista por meio do site. Lá também estão disponíveis os demais produtos do projeto, bem como as matérias das revistas, incluindo o último lançamento. No portal é possível encontrar também uma lista com os locais onde são comercializada as bolsas, livros e as publicações impressas.

Esta reportagem foi produzida na disciplina Projetos B1 do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFMG (prof. Carlos d’Andréa). Para ver outras reportagens sobre projetos jornalísticos sediados em Belo Horizonte, visite a publicação LabCon/UFMG (https://medium.com/labcon-ufmg)

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