Entre colchetes e folias

Culturadoria, PulaBH e o jornalismo cultural da capital mineira

Anna Alice Nogueira, Bruna Martins, Isabela Freitas, Isadora Ferreira

O jornalismo independente em Belo Horizonte disputa espaço em um cenário onde os meios tradicionais, que oferecem maior “estabilidade’’ aos profissionais, são restritos, muito concorridos e pouco inovativos em relação às tecnologias e a formatos atuais, mantendo um padrão conservador de produção e divulgação. Diante disso, muitos profissionais decidem trabalhar independentemente, pois sabem que a lógica do jornalismo industrial não atende mais a demanda contemporânea, transmidiática, e que se espera do jornalista uma série de habilidades desejáveis. Contudo, a escolha por um cenário independente pode ser mais laboriosa do que o esperado, exigindo disciplina e competência do profissional, além de um processo de atualização constante sobre mídias digitais e empreendedorismo (indispensáveis atualmente).

A partir do conhecimento — e preocupação — sobre esse contexto onde atuamos como comunicólogos, debruçamos nossos esforços sobre dois veículos independentes que atuam no cenário cultural da capital mineira: o blog Culturadoria e o PulaBH. A escolha pelos dois deu-se diante de suas diferentes abordagens, que visam diferentes públicos. Enquanto o primeiro se volta para as classes A e B, oferecendo conteúdo selecionado sobre artes e espetáculos na capital, como a própria dona do blog o descreve, o segundo, também de acordo com seus organizadores, procura ampliar seu foco para o mais popular ao divulgar, especialmente, eventos de baixo custo e/ou gratuitos.

Trabalhar os dois canais — ambos digitais e recentes — também auxilia na compreensão do jornalismo hiperlocal. A definição é difícil, já que a comunicação tem como pressuposto transgredir fronteiras, locais físicos. Segundo os professores Lemos e Pereira do Instituto de Comunicação e Artes do Centro Universitário UNA em Belo Horizonte, o jornalismo hiperlocal é uma forma em que o usuário pode ter informações mais precisas sobre seu lugar de interesse a partir de um cruzamento de informações e notícias provenientes de jornais, blogs, redes sociais, fontes oficiais como polícia, prefeitura, etc.

A precisão quanto às informações está diretamente relacionada à responsabilidade. Os produtores de conteúdo precisam ter em mente que um jornalismo hiperlocal faz parte da construção histórica, da caracterização de uma região, e atuar com compromisso e responsabilidade com os leitores e espectadores é fundamental, para que estes, da mesma forma, se vejam representados no conteúdo e atuem responsivamente em relação ao seu “lugar’’, sua “caracterização’’.

Culturadoria

Carolina Braga, idealizadora e proprietária do Culturadoria, fez questão de nos receber em sua própria casa. O ambiente aconchegante do apartamento, a composição dos móveis e a decoração deixaram certas características da jornalista evidentes.

Tudo começou durante uma aventura ao Chile, afinal Carolina nos pareceu ser uma grande fã das voltas que o mundo dá. O jornalismo sempre foi uma paixão, mas ela também queria encontrar uma maneira de alinhar sua carreira a seus objetivos pessoais.

Foi no deserto do Atacama que surgiu o primeiro insight responsável pela origem do Culturadoria, fazendo assim com que Carolina retornasse a Belo Horizonte com planos já previamente traçados. Foi quando ela decidiu pedir demissão do Estado de Minas, onde trabalhava, e se dedicar a um projeto inteiramente novo.

Acervo pessoal

O envolvimento com o jornalismo cultural é antigo. Carolina é formada pela Centro Universitário UniBH, pós-graduada pela Universitat Rámon Llull de Barcelona em Crítica de cinema e música pop e doutora pela Universidad Autónoma de Barcelona em Comunicação e Novas Linguagens.

O insight em terras sul-americanas foi a base para a construção dos três pilares que, desde o fim de 2016, sustentam o Culturadoria. A atitude de responsabilidade, busca e conquista da credibilidade, são, de acordo com a comunicóloga, a base de seu trabalho. Praticamente sozinha, elabora suas pautas e cronograma de postagens no blog, página no Facebook, Instagram e, recentemente, Twitter. Seu trabalho como curadora de informações já foi reconhecido pelo portal O Tempo, Moon Bh e pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a respeito de sua crítica sobre a peça “Nu de Botas”.

“Oferecer serviço de informação de qualidade, especializada e em diversos canais de comunicação, on-line e off-line; selecionar e difundir informações sobre artes e espetáculos que sejam relevantes para o público-alvo; dialogar com a audiência em seus diversos canais oferecendo uma orientação crítica (curadoria de informação) para consumo de entretenimento na cidade de Belo Horizonte”. Essa é a definição clara de Carolina sobre os objetivos de seu projeto.

Infelizmente, o projeto ainda não trouxe retornos financeiros e, por isso, sua dedicação ao projeto é, por enquanto, parcial. No momento em que o Culturadoria não está ocupando o tempo de Carolina, a jornalista leciona na mesma instituição em que se formou, a UniBH, e também é professora de consultoria de mídias digitais no SEBRAE. Carolina planeja firmar, na mesma instituição, uma parceria para idealizar um novo curso sobre jornalismo empreendedor. Ela almeja se profissionalizar na área, na qual julga não ter muito conhecimento até então. Seu principal objetivo é otimizar o próprio negócio e oferecer a mesma oportunidade para outras pessoas que têm esse interesse em comum, pretendem seguir o ramo, ou que querem desbravar esse novo formato de jornalismo que, até o momento, é ocupado por blogueiros que não têm formação no campo da comunicação.

Carolina comentou também sobre seus planejamentos para o futuro do site. Durante nossa conversa, ela conta de seus planos para uma possível parceria com a rádio CBN, o que se concretizou poucos dias após nossa conversa. A importância de atuar de maneira transmidiática também delineia o horizonte de expansão da jornalista. O investimento em meios transmídia é uma preocupação de Carolina; para ela, apresentar conteúdo em diferentes formatos é imprescindível atualmente. Por isso, também pretende ampliar seu alcance nas mídias sociais e investir em conteúdo audiovisual para seu canal no YouTube. Além disso, ela celebra o fato de que todas as curtidas alcançadas em sua página no Facebook até o momento da entrevista terem sido conquistadas de maneira orgânica, ou seja, sem divulgação paga na rede social.

Os eventos — peças de teatro, shows, entre outros — divulgados e resenhados no site, nem sempre são cobertos por Braga. Ela conta com o trabalho de suas colaboradoras (duas de suas alunas da UniBH e uma parceira de trabalho) para produzir o conteúdo do Culturadoria. A seleção de quais eventos serão cobertos, porém, é criteriosa e feita por ela mesma, uma vez que ela acredita que deve manter o padrão e a qualidade de sua linha editorial. A arte do site foi feita por André Senna, o responsável pela criação dos colchetes, que são a marca do Culturadoria e simboliza a tentativa de “selecionar” e ao mesmo tempo “emoldurar’’ a informação a ser transmitida.

PulaBH

Ao acessar a descrição do site PulaBH encontramos um breve parágrafo intitulado: O Portal Alternativo da Cidade, que sintetisa bem os objetivos do site:

“Somos uma mídia alternativa independente que acredita na cultura como ferramenta de transformação social. A gente ama Belo Horizonte e por isso nós criamos uma rede de compartilhamento de informações sobre as manifestações artísticas e culturais que acontecem na cidade’.

Por volta das 19 horas de uma quarta-feira, encontramos com eles em um café no centro da cidade de Belo Horizonte. O local informal e descontraído foi escolhido pelos próprios criadores da revista online e já nos deu um gostinho de algumas das características dos entrevistados e do projeto iniciado por eles. O papo fluiu de maneira leve, estava claro que os próprios jovens recém-formados em Jornalismo e Publicidade, respectivamente, também não estavam preparados para o sucesso que a revista iria fazer no cenário cultural de Belo Horizonte.

Na verdade, tudo começou acidentalmente dentro de uma renomada universidade particular da cidade, a UNA, onde os dois, ainda estudantes na época, começaram um projeto em caráter experimental, baseado em um trabalho que Paloma havia feito para a faculdade no ano anterior, em 2014. A proposta do trabalho era realizar cobertura em tempo real de algum evento e grande parte de seus colegas se voltaram para o que estava acontecendo dentro da faculdade ou em seus arredores. Ela, por outro lado, decidiu ir além do universo acadêmico.

O período em que o trabalho foi proposto coincidiu com o carnaval e Paloma escolheu falar dos eventos de rua de BH. Ela conta que a princípio teve que convencer seus colegas de grupo sobre o tema escolhido, principalmente por causa da dificuldade de cobrir vários dias de um evento de grande porte, e que fez grande parte do trabalho sozinha. Com o trabalho e semestre concluídos, chegou ao fim também o projeto.

Paloma e Philipp se conheceram na faculdade, e em 2014 começaram a namorar. No ano seguinte, durante uma conversa entre amigos em que discutiam planos para o carnaval, notaram que apenas os blocos cadastrados pela prefeitura eram divulgados na cidade. O casal percebeu então a chance de retomar o projeto do ano anterior, mas desta vez com o objetivo de divulgar em tempo real para seus amigos os blocos por onde passavam. A conta criada no Instagram em duas semanas atingiu mais de quatro mil interações e esse engajamento foi o primeiro impulso que originou o atual PulaBH. Foi então que perceberam a demanda do público por um modelo de cobertura de eventos acessível e informal era muito grande e muito real, o que os motivou a dar continuidade ao projeto.

O sucesso do PulaBH, que acabou de completar pouco mais de dois anos, está na linha editorial. Eles comentam que, embora a ideia do projeto não seja exatamente original, o principal motivo pelo qual continua atraindo milhares de seguidores nas redes sociais é o fato de que o objetivo inicial — de ser um guia da cena alternativa da cidade a preços acessíveis — não foi perdido com o passar do tempo, e eles exemplificam a situação usando o Catraca Livre, uma página com ideia semelhante de divulgação popular de eventos. Durante a entrevista, ambos reforçaram a preocupação de selecionar eventos que sejam gratuitos ou a preços populares, que é e sempre foi o motivo pelo qual o público procura e confia na “marca” do Pula.

Apesar de hoje serem conhecidos como um guia do que acontece no cenário alternativo de BH, o caminho até aqui não foi tão simples. “Nós quebramos a cara com muita coisa antes de chegar nesse modelo”, conta Philipp.

Sempre houve grande interesse de patrocinadores, mas que quase sempre vinham com segundas intenções, pessoas que pediam que divulgassem eventos que nem sempre estavam de acordo com a proposta de mídia independente do site e nem era condizente com o público do Pula. Além disso, tentaram financiamento coletivo em um site de crowdfunding, mas não conseguiram a quantia mínima necessária, o que foi um tanto desanimador.

A solução veio através de um produtor de eventos de BH, que sugeriu que Paloma e Philipp fizessem uma festa para arrecadar o dinheiro. Foi um desafio para ambos, que não tinham experiência em organizar eventos, mas acabou se tornando o caminho mais viável para retenção de fundos para a manutenção da página, uma vez que a adesão do público foi enorme e, segundo eles, grande parte do público do Pula já acreditava que a maioria dos eventos divulgados eram também produzidas por eles. ou seja, eles já tinham credibilidade no ramo.

A credibilidade que conquistaram por se manterem alinhados ao foco inicial do projeto fez com que recrutassem um público fiel, o que é muito importante para o modelo de jornalismo colaborativo do site. Presentes nas principais mídias digitais, o PulaBH hoje soma cerca de 10 mil curtidas no Facebook e pouco mais de 27 mil seguidores no Instagram, além do Twitter, canal no YouTube e site próprio. Desde o princípio, a interação do público através da hashtag #PulaBH e todas suas variações foram essenciais para a consolidação do site, e ainda hoje, a cobertura das centenas de eventos que são divulgados só é possível através dos seguidores e do acompanhamento de posts que utilizam as hashtags. Atualmente o projeto sustenta a si próprio com a renda de publicidade e eventos que ocasionalmente são organizadas por eles. Além disso, os dois também já falam sobre planos em curto prazo — ainda não divulgados — de expansão no cenário nacional.

Repensando o jornalismo: a independência é, de fato, uma boa solução?

A escolha de cursar e trabalhar com Comunicação sempre veio atrelada à necessidade de ser um profissional multitarefas, atualizado e atento não só ao mercado, mas também a tendências e notícias. A internet chega para o comunicólogo como uma facilitadora, capaz de poupar muito tempo em pesquisa e aumentar expressivamente o alcance de público, dentre outras inúmeras vantagens, mas também torna outras exigências cada vez mais urgentes.

O que percebemos é que, muitas vezes, o meio acadêmico ainda não consegue acompanhar as alterações que e era tecnológica provoca no modo como o jornalismo precisa funcionar, e as grades curriculares se mostram ainda obsoletas frente às competências que são exigidas pelo mercado de trabalho. Soma-se a isso um período de recessão, onde o jornalismo tradicional se encontra ainda conservador e tímido em suas tentativas de adequar antigos métodos de trabalho às mídias digitais, ao invés de simplesmente repensá-las.

Ambos os projetos se firmam como uma alternativa a esse cenário, que por vezes acaba sendo muito desencorajador. O jornalismo independente, aqui bem representado pela Culturadoria e PulaBH, ganha fôlego justamente pelo caráter experimental e adaptável, disposto a absorver as mudanças no setor da Comunicação como um todo. Apesar de se destinarem a públicos diferentes, ambos têm em sua base um pouco do jornalismo cultural tradicional, o hiperlocal e tendência empreendedora.

A forma com que se envolveram na área busca a interação orgânico do público, que se mostra crescente e é muito valioso, pois é uma interação voluntária e bem engajada sobre o assunto. Os dois canais investem muito na pessoalidade, em lidar com o público de maneira próxima, e também insistem em manter a credibilidade ao seguir fielmente à pauta e as propostas estabelecidas, sem se deixar ser levado por investimentos e patrocinadores que ofereçam propostas tentadoras que fujam aos ideais.

Tanto o PulaBH quanto o Culturadoria são exemplos das mudanças que estão ocorrendo na Comunicação e das formas com que os profissionais estão lidando com elas. Todas essas transformações, no entanto, são contemporâneas e ainda há muito o que descobrir e explorar com as novas possibilidades que estão surgindo, mas como é dito por Aranha e Miranda, no texto Hiperlocal como um elemento de convergência entre a digitalização e o reforço de identidades: “O jornalista não vai ser substituído, mas terá seu trabalho modificado. Em meio ao turbilhão de informação trafegando na rede, o jornalista pós-industrial teria a obrigação de dar ordem a essa enxurrada de informações, verificando, interpretando e dando sentido ao que é recebido, muitas vezes de pessoas que não são jornalistas. Dessa forma, em alguns casos, as multidões e os amadores podem exercer o papel de um jornalista de maneira satisfatória, em determinados casos, mas, em outros, o jornalista sempre será melhor.”

Esta reportagem foi produzida na disciplina Projetos B1 do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFMG (prof. Carlos d’Andréa). Para ver outras reportagens sobre projetos jornalísticos sediados em Belo Horizonte, visite a publicação LabCon/UFMG (https://medium.com/labcon-ufmg)