Guardiões Invisíveis

Por.: André Quintão, Elissa Gabriela, Isabela Santiago e Júlia Savassi

São eles que fiscalizam e guardam o patrimônio ao recepcionar a entrada e a saída de pessoas e veículos. Além de promoverem estabilidade aos moradores e frequentadores do espaço onde trabalham, eles são também a “cara” do lugar, ou pelo menos, quem oferece a primeira impressão do ambiente. Esses profissionais que zelam pela segurança são os porteiros.

Cada um tem sua forma de lidar com os transeuntes: Enquanto alguns se esforçam para serem vistos através de um curto relacionamento pautado na boa educação, outros nem mesmo tentam inverter um quadro que aparenta ser constante nesse trabalho — a invisibilidade com a qual, muitas vezes, são tratados.

Deixando de lado estereótipos e pré-concepções, buscamos mostrar o que o profissional tem a dizer sobre si, sobre o seu trabalho, suas aspirações, a maneira como ele trata as pessoas e como ele é tratado. Para além de idéias formadas, queremos mostrar o lado de um personagem que é relativamente presente no nosso dia a dia, mas que nem sempre é percebido. As histórias são diversas e cada porteiro tem a sua, para tanto entrevistamos quatro porteiros de diferentes ambientes da região que engloba a capital mineira. É isso que faz com que cada um seja singular em sua profissão.

Walney — Gentileza gera gentileza

“Eu procuro fazer o melhor, que é boa educação, atender bem tanto os moradores, os prestadores de serviço, os funcionários, visitantes… Porque eu tenho que plantar pra colher”. Essa foi a resposta que Walney Ribeiro Quintal deu ao ser questionado sobre a sua relação com seu trabalho de porteiro. Dos seus 49 anos de idade, treze foram dedicados ao trabalho de portaria, seja em prédios residenciais, comércio e até mesmo casas noturnas. Atualmente, trabalha no Condomínio Residencial Chácara da Serra, na região Centro Sul de Belo Horizonte.

Na guarita onde permanece a maior parte da sua jornada de trabalho, há uma cadeira acolchoada preta aparentemente confortável, uma pequena televisão por onde pode visualizar as câmeras que circundam o condomínio, uma bancada de mármore e, debaixo dela, um ventilador. Há ainda um pequeno banheiro separado por uma porta.

Moreno de estatura mediana, Walney se destaca pela extrema gentileza com que trata todos aqueles que passam por ele diariamente. Segundo ele, é preciso ser educado, mas saber seus limites. “Eu não toco em assunto de família, de clube, se você tá bem, se você não tá bem, o que quê aconteceu, como é que está seu namorado, se você é casada, não faço essas perguntas” explica. Morador do bairro Santa Monica, localizado na região da Pampulha, o carioca naturalizado mineiro é casado e tem três rapazes “crescidos” (um filho de 26, um de 22 e outro de 14 anos). Sua atual jornada de trabalho é de doze horas, das 07h às 19h, seguida por uma folga de trinta e seis horas.

Walney conta algumas situações constrangedoras que já passou durante o trabalho. “Às vezes a gente vê coisas que deveria comentar, mas não pode. No último condomínio que trabalhei, tinha uma sauna. Só que a sauna era mista e quem ligava ela, era a gente na portaria. O problema é que as filhas usavam a sauna com os namorados. E eu já vi os dois pelados lá. Então no caso eu não vi nada. E eu não posso falar nada, porque eu não sei aonde vai parar. Se a conversa chega no pai, qual palavra vale mais? A do porteiro ou a da filha?” comenta.

A relação entre as pessoas que transitam ali parece independer do poder aquisitivo: há quem, mesmo tendo muito, se mostra educada, enquanto há outros que se acham superiores. “A situação não muda. Os problemas existem em todos os condomínios. Tem gente que tem demais e parece que não tem nada. É tão simples, passa aqui, dá bom dia, pergunta como a gente está. E tem também quem tem pouco, mas se acha superior.”

Eder da Silva — De porteiro a empresário

Morador da cidade de Contagem, Eder Firmino da Silva tem quarenta e seis anos. Casado e pai de três filhos, ele é proprietário da empresa de lingeries Nativa. Foi entre retalhos e peças delicadas de lingerie que aconteceu nossa conversa. Há sete anos ele decidiu sair do seu antigo trabalho, na Fiat Automóveis, para investir no seu próprio negócio. Como sua esposa já tinha interesse no ramo, eles decidiram juntos criar e gerenciar a confecção.

No ano de 2013, porém, o Brasil passou por uma crise financeira que começou na Europa e Estados Unidos, e se alastrou para o resto do mundo, o que impossibilitou que Eder se mantivesse no ramo das confecções. Então, de abril de 2013 a abril de 2014, ele trabalhou como porteiro no colégio Chromos, também em Contagem. Depois disso, ele retomou o trabalho na sua própria empresa.

Na época em que Eder trabalhava como porteiro, seu horário era de 10h às 18h, de segunda a sexta. Segundo ele, apesar de serem treinados, os profissionais sempre correm riscos durante o trabalho. É preciso, por exemplo, lidar com pessoas que não acatam instruções e tentam forçar a sua entrada naquele espaço.

Eder conta que já recebeu pessoas de destaque em sua portaria, enquanto iam ao colégio tratar de assuntos dos filhos que estudavam lá. “Já recebi na portaria o delegado geral da Polícia Civil; a ex-prefeita da cidade de Contagem, Marília Campos, que ainda ocupava o cargo na época.” E completa: “Não é comum ver a prefeita da cidade andando pela rua.” Por esse tipo de situação, ele não achava o trabalho cansativo. Cada dia era um acontecimento diferente.

Regulamentação da Profissão

Com o passar dos anos, a profissão tem exigido certa especialização, principalmente através de cursos profissionalizantes. À exemplo dos cursos de CFTV [Circuito Fechado de TV], que prepara o trabalhador para lidar com as câmeras de segurança do ambiente; de Gestão de Pessoas, que ensina como se relacionar com as pessoas; e, em alguns lugares, é exigido também o curso de segurança, que torna o porteiro apto a atuar também como vigilante. Tais cursos são de curta duração, mas importantes para a formação do profissional, que pode acompanhar melhor as inovações tecnológicas na área da segurança e melhorar o próprio convívio dentro do ambiente de trabalho.

Ainda segundo Éder, o maior problema da profissão é superar o preconceito. “As pessoas acham que se trata de um trabalho inferior, sem saber que hoje são exigidos cursos e aperfeiçoamentos para quem quer trabalhar na área. Sem contar que o porteiro é uma parte essencial da empresa, pois é na portaria que o cliente tem o primeiro contato com o estabelecimento.”

Jonas Gregório: Pequenos gestos mudam tudo

Jonas é quase um sinônimo de paz. No London Office, prédio comercial da avenida Getúlio Vargas, em Belo Horizonte, ele trabalha há pouco menos de dois meses. Desde então, sempre figura na portaria um semblante tranquilo, as vezes até meio tímido, mas, sempre disposto a bater um papo sobre a vida ou apenas perguntar se está tudo bem quando os trabalhadores chegam ou saem no ritmo mais que dinâmico que a vida cotidiana se impõe.

Antes de se tornar porteiro, Jonas era eletricista e o London Office, é o seu prédio de estreia. O motivo da mudança profissional tem a ver com o fato de que, aos 53 anos, a rotina de um eletricista começou a se tornar mais exigente e portanto, a alteração foi necessária. Apesar do pouco tempo exercendo a profissão, ele já diz estar adaptado às suas funções e também conta que a família compreendeu bem que seu novo horário de trabalho, de 15h às 22h, trouxe mudanças ao seu ritmo de vida, por exemplo, na mudança do hábito de ir à igreja com os mesmos. Este inclusive foi seu maior desafio até então.

Do pouco tempo que tem em tal ofício, Jonas já se diz surpreso com o fato de que muitas pessoas passam pela portaria sem ao menos dizer um “Olá”. Segundo ele, esse pequeno gesto de educação é uma atitude que ajuda muito seu trabalho e tem total relação com a erradicação do preconceito existente diante da profissão. Pequenas atitudes são, no mínimo, um primeiro passo para grandes mudanças. Mudanças que são aguardadas por Jonas. Por exemplo, quanto à sua expectativa de ser efetivado em sua nova profissão, já que isso acarretaria no privilégio de poder trabalhar ao lado de seu filho, que está, atualmente, empregado no estacionamento terceirizado do London Office. A expectativa é sempre de paz e de que tudo vai dar certo.

Edson Inácio: Porteiro feat. Cartunista

“Tem gente que só lembra do porteiro e da empregada doméstica na hora do problema. Aí chega naquela arrogância , te pedindo as coisas como se você tivesse a obrigação de saber tudo”, disse Edson Inácio, porteiro da Universidade Federal de Minas Gerais há 10 anos. O seu primeiro e ainda atual trabalho na função foi na Conservo, empresa terceirizada da Universidade. Antes de trabalhar na segunda portaria da Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas, Edson também passou pela Escola de Engenharia e pela Inova. “Os dois prédios são bons de se trabalhar, são lugares tranquilos. Mas aqui tem essa coisa de humanas. As pessoas se importam mais”, explica.

Trabalhando de segunda à sexta, das 14h às 22h, Edson se apresenta de forma cordial com os passantes, enquanto para outros, basta um cumprimento com os olhos. Mas nem sempre a portaria é movimentada e é nessas horas que ele aproveita para adiantar os seus desenhos. Afinal, muito antes de ser porteiro, ele é cartunista. “Acho que desenhar é questão de dom. Eu sempre gostei muito de desenhar, isso me satisfaz”, afirma. Atualmente ele alimenta sua página no Facebook e participa de encontros, como o Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ).

A segurança não é o problema para o trabalho de Edson, que afirma saber claramente a linha que divide o seu trabalho e o do vigilante. “Eu sei a minha função. Se tiver uma briga, não posso tentar resolver, só relatar. Não tenho esse treinamento e nem é minha função”. Até mesmo por isso, diz ele, a função de porteiro é vista com preconceito. “Às vezes o pessoal fala que a gente fica à-toa. Mas eu tenho que olhar quem entra e quem sai, meu trabalho é atender, tirar alguma dúvida”, explica.


Playlist MixTape Porteiros: canções que trazem esse profissional para a cena musical

Assim como em outras profissões, a de porteiro também é rodeada por estereótipos. O porteiro folgado, aquele dorme no horário de trabalho, o que “fica de conversa fiada” e deixa de cumprir com suas obrigações são alguns exemplos de modelos que, não necessariamente se aplicam a todos esses profissionais, mas que acabam por acentuar preconceitos.

É preciso enxergar que, por trás do trabalhador, existe um ser humano, com seus próprios anseios, medos, valores e problemas. Pensando em nossos personagens, é quase impossível encaixá-los em um único padrão, afinal, cada profissional tem sua maneira de lidar com o trabalho e com os desafios que ele oferece.

A existência do preconceito quanto à profissão é notória nas próprias falas dos entrevistados, principalmente em relação à forma como o trabalhador é visto pelas pessoas — muitas vezes, como alguém inferior, que não merece sequer espeito. Enfrentar o preconceito é, portanto, o principal desafio do porteiro, mas não só dele: o respeito mútuo deveria ser intrínseco na vivência coletiva entre as pessoas de uma forma geral. Para muitos, o porteiro está ali, para a segurança, assim como as câmeras e o alarme. Um objeto robótico, inanimado, algo que não é nem de longe verdade.