Crise para quem?

A tese do “sistema quebrado”, imposta pela classe política, impede renovações institucionais e perpetua a crise política em que vivemos. Com isso, gostaria de superar o cenário em que nos encontramos, o qual pode ser ilustrado pela figura de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Logo, cabe uma análise crítica da crise que questione os interesses do grupo político (e dominante) por trás de um diagnóstico falso e perigoso.

A retórica que utilizamos para tratar da crise política em que vivemos se resume a atacar o sistema político brasileiro em sua essência. Nesse discurso, argumenta-se que mudanças não surtiriam efeito, pois o necessário seria revolucionar o regime como um todo ou a moral do país, visto que a corrupção contaminara tudo. Isso pode ser facilmente percebido nas discussões populares: “Só tacando uma bomba em Brasília!”, “Tem que fazer nova Constituição!”, “Tem que tirar todo mundo!”, entre muitos outros. Como é frustrante não conseguir superar o “sistema quebrado”. Digo isso, pois qualquer possível solução racional seria parte do próprio problema ou então diz respeito ao próprio brasileiro, estando ele imerso em uma cultura de corrupção, da qual ele não só faz parte, como contribui. Sendo assim, resolver o problema seria impossível.

Para provar que esse discurso se baseia em um mito e consiste em mera manipulação, o economista Dani Rodrik questiona a existência de um “sistema quebrado” com a sua antítese, ou seja, haveria um sistema “não-quebrado” e, portanto, livre de interesses? Ao considerar essa indagação, percebemos que todo sistema é fruto da materialização de interesses. Isso fica claro, por exemplo, na elaboração de uma Constituição. Trata-se de uma briga entre os constituintes para ver qual interesse prevalecerá na Carta Magna do país, sendo irreal a promulgação de um texto apolítico, que seja livre de preferências, pois sempre algum grupo ou ideologia será beneficiado (e outro prejudicado). Invariavelmente isso ocorre em qualquer democracia.

Ainda segundo o acadêmico, além de falso, o “mito do sistema quebrado” é perigoso. Através desse falso diagnóstico, petrifica-se o status quo, pois a sociedade é desarmada, isto é, impedida de pensar sobre seu próprio sistema. Isso ocorre, porque a sociedade não busca entender as verdadeiras relações de poder (realidade) ou discutir inovações no sistema. Ela fica limitada por uma barreira imposta pela classe política, em que só seria possível solucionar o problema do país se ocorresse uma revolução política e/ou moral. Contudo, ambas não solucionariam o problema. Visto que, no plano político, a população está amarrada a uma realidade em que seu poder está suprimido, e, no plano moral, a mudança proposta faz parte da própria identidade dos brasileiros.

Portanto, quem ganha com essa manipulação? Evidente que todos que estão no poder são beneficiados, pois são eleitos por esse mesmo sistema. Entretanto, cabe dar enfoque a um ator que vem aumentando sua atuação e, proporcionalmente, seu poder: o Judiciário. Nesse cenário em que vivemos, os magistrados alimentam o mito do sistema quebrado ao tomar frente do que seria uma de nossas únicas saídas, uma revolução moral. Isso se deve, pois, esse Poder vem ganhando protagonismo e popularidade com a imagem de “limpar o país”, propondo-a como esperança para solucionar o irresolvível. É como se tentassem curar nosso sistema que já nasceu com uma doença terminal, que seria sua “falha”. Portanto, o Judiciário surge como herói na luta contra um fantasma que eles mesmos criaram.

Não se trata de argumentar que o combate à corrupção não é necessário, mas sim que ele não é a solução única de nossos problemas, pois não é o cerne da questão. A corrupção corre paralela ao sistema político, com isso, não é exclusividade do Brasil. Assim, a superação da crise política e dessa inércia da sociedade depende de a população aprender como funciona nosso regime de fato, ou seja, como se dão as relações de poder na política e o que se reflete na realidade (poucos canais de diálogo entre população e Governo, desigualdade de voz, pouca transparência…). Somente desse modo poderemos discutir inovações e possíveis reformas em nosso sistema ao invés de ficar rodeando os vícios fundamentais de nosso regime, os quais são "irresolvíveis" como qualquer outro, sem chegar a lugar nenhum. Caso continuemos assim, cairemos no risco de viver uma crise sem fim, estando sempre à mercê do discurso que a classe política nos impuser.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.