Cidadão cluster

As startups cívicas que atuam para fornecer serviços digitais e os cidadãos que acessam informações do setor público têm um desafio em comum: desenvolver um ambiente para processar e trocar informações entre si.

Frederico Campos
Sep 15 · 5 min read

Hoje em dia é difícil não associar expressões do mundo da tecnologia às nossas atividades profissionais e pessoais. O mundo conectado por meio de computadores e celulares nos obrigou a agir assim, viver assim. Não quero tratar desse assunto especificamente, que demandaria mais de um estudo catedrático. Mas, quem acompanha o LABHacker e as nossas discussões sobre startups cívicas que atuam no setor público: GovTechs, LegisTechs, JusTechs, RegTechs, sabe que a tecnologia está remodelando e ajudando as instituições públicas a se reorganizarem para oferecer melhores serviços aos cidadãos.

A provocação que pretendo fazer aqui, ou exercício, é pensar o cidadão como um cluster autônomo, gerenciador de suas informações nas plataformas, que se interliga a outros cidadãos clusters de forma aberta, controlável, a fim de interagirem e trabalharem juntos por meio de aplicativos de interesse público. Um cluster (do inglês cluster: ‘grupo, aglomerado’) consiste em computadores fracamente ou fortemente ligados que trabalham em conjunto, de modo que, em muitos aspectos, podem ser considerados como um único sistema (Wikipédia).

fonte: Alina Grubnyak — Unsplash

Clusters que se relacionam entre si, horizontalmente, em áreas de interesse comum. Um grupo de pessoas que se organiza por meio de aplicativos ou plataformas públicas e privadas para participar, fiscalizar e obter melhores serviços públicos. Imaginem um cidadão cluster que organiza suas informações privadas, coletivas e de interesse público. Por exemplo, eu gosto de política, cinema, esportes e música, entre vários outros temas, mas posso configurar o meu cluster para atuar especificamente em rede, a fim de ajudar a melhorar as políticas públicas voltadas para o esporte. Várias são as possibilidades de arranjo e rearranjo de um cluster. Ele é programável e dinâmico, como a vida de uma pessoa. Cabe ao cidadão programar o seu cluster.

As startups e os clusters

Acompanhar os gastos de cada parlamentar, um projeto de lei que esteja em discussão na Câmara, uma ação jurídica, saber exatamente seus direitos trabalhistas, vários são os exemplos de aplicativos e plataformas que oferecem serviços dedicados ao interesse do cidadão.

Boas ideias e ótimos aplicativos surgem em quantidade e qualidade todos os dias. No entanto, sabemos que muitos deles não conseguem emplacar, sobreviver por muito tempo. O sucesso de cada um deles depende do uso e do impacto que geram na vida de quem os acessa.

As startups que pretendem atuar no setor público têm um árduo desafio para atrair, engajar e, por que não, fidelizar os cidadãos clusters aos serviços que pretendem oferecer a eles. A viabilidade e sustentabilidade econômica do serviço têm que ser bem estudadas.

Em recente debate no Labtalks, Leandro Carioni, representante da Fundação Certi, que atua em programas de aceleração de startups, declarou que o engajamento e as formas de manter o cidadão conectado por meio das Govtechs é atribuição do empreendedor cívico. E como cada um deles faz ou pretende fazer vai depender do modelo de negócios.

LabTalks — Aceleração de startups Govtechs

Em qualquer modelo de negócios o que não podemos deixar de conhecer é o cidadão, o consumidor. Sem ele a conta não fecha. Mas como fazer isso no mundo digital? Somente as grandes plataformas públicas e privadas podem mapear as informações e experiências de seus usuários para oferecer serviços específicos? O cidadão poderia organizar seu cluster para atuar nas redes sociais e plataformas tecnológicas em temas de seu interesse?

fonte: pixabay.com

Gosto muito do conceito de Nicholas Negroponte em seu livro A Vida Digital, quando ele idealiza um mordomo inglês, um butlerbot, para gerenciar o PC de acordo com as ordens de seu “patrão”. A inteligência artificial é personalizada. Não é a Bia, o Bixby, é a inteligência clonada de seu dono. Os filtros e escolhas desse mordomo inglês são programados e controlados por uma pessoa, um cidadão. Caberia ao butlerbot conversar ou negociar com tantos chatbots e I.A.’s. Uma ideia bem original que nos pouparia de ter que falar com tantos robôs.

Os butlerbots, as startups, os clusters e os cidadãos

Clusterizar o cidadão já é uma tarefa bem complexa. Quantas informações estão contidas numa única pessoa. Fazer esse cidadão se articular direta ou indiretamente com outros clusters talvez seja a parte mais difícil e o principal desafio para os empreendedores cívicos e as startups. Barreiras não faltam. As pessoas querem segurança para participar de um grupo, seja ele virtual ou presencial. As informações e interlocutores devem ser confiáveis. Ninguém quer ver a sua vida exposta e usada para fins indevidos. Sem contar que nessa trajetória é preciso ficar clara a finalidade dos serviços oferecidos pelas startups, os resultados esperados e o papel do cidadão para alcançarem o objetivo pactuado entre eles.

Os butlerbots podem ser uma solução para construção dos cidadãos clusters e para intermediar tantas relações digitais provenientes dos serviços oferecidos por todo ecossistema das startups cívicas. Dezenas ou centenas de aplicativos deverão buscar o cidadão para que ele use ou compre um serviço oferecido pelas GovTechs, LegisTechs, JusTechs, RegTechs…

fonte: www.freepik.com

Se ainda não temos tecnologia para oferecer um butlerbot tão inteligente e adequado às necessidades dos cidadãos, talvez seja possível idear um robô para clusterizar, gerenciar e certificar os aplicativos e plataformas de todo ecossistema das startups cívicas. O importante é ter transparência, qualidade, segurança e fluidez em todos os serviços.

Outras questões certamente vão surgir quando as startups cívicas começarem a colher resultados dos seus empreendimentos. Haverá entre elas alguma troca ou venda de informações, associações ou fusões para ampliarem seus negócios? Afinal, um cidadão cluster tem um valor intangível e quanto mais clusters estiverem conectados ao ecossistema das startups cívicas, certamente, mais chances elas têm de viabilizar e oferecer melhores serviços. Aos cidadãos caberá escolher a melhor forma de usar esses serviços e cuidar muito bem de suas informações.

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Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados

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