Conhece-te e inova-te!

Se por um fenômeno sobrenatural o filósofo grego Sócrates voltasse à vida hoje, com certeza ficaria surpreso e orgulhoso com a dimensão da profundidade e da relevância que seu ensinamento mais famoso — “Conhece-te a ti mesmo” — tomou no século 21. Mesmo que sua lição não esteja sendo aplicada, digamos, exatamente da forma como ele pensou, ainda assim faria o famoso pensador entregar-se à ordinária vaidade humana. As empresas mais ricas e poderosas do mundo, Google, Amazon, Apple e Facebook, gastam verdadeiras fortunas em algoritmos que aprendem e se auto modificam a fim de conhecer e influenciar mais e intimamente as pessoas que usam seus serviços.

"Vivemos na era da ascensão da economia da atenção"

Além disso, essas e outras empresas e organizações estão em uma competição acirrada pela atenção das pessoas. Vivemos na era da ascensão da economia da atenção. Segundo Herbert Simon, “A riqueza de informação cria pobreza de atenção, e com ela a necessidade de alocar a atenção de maneira eficiente em meio à abundância de fontes de informação disponíveis”. Ou seja, essa atenção é cada vez mais disputada por mídias e marcas. E uma das consequências dessa disputa é a atenção fragmentada ou a diminuição da capacidade de atenção das pessoas, algo tão grave que é um dos alvos prediletos de crítica do fundador do movimento Time Well Spent, Tristan Harris, ex especialista em design da Google, onde estudou ética da persuasão humana.

Ora, se grandes empresas investem milhões para ter um conhecimento melhor de você e de outras pessoas em todo mundo, certamente é porque enxergam nisso “algum” valor. E se é assim, não deveria você também enxergar valor em si mesmo? Não seria interessante ou prudente investir pelo menos alguns trocados e um tempinho consigo mesmo para se conhecer melhor? Para buscar ou aprofundar o autoconhecimento e dessa forma intensificar seus pontos fortes, identificar, aceitar e trabalhar seus pontos fracos? É claro que sim. E esse deverá ser um processo contínuo ao longo da vida.

Em seu livro mais recente, 21 lições para o século 21, o historiador israelense Yuval Harari destaca que muitos especialistas em pedagogia alegam que as escolas deveriam passar a ensinar “os quatro Cs”: pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. Ainda segundo ele, “O mais importante de tudo será a habilidade para lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar seu equilíbrio mental em situações que não lhe são familiares. (…) você vai precisar não só inventar novas ideias e produtos — acima de tudo, vai precisar reinventar você mesmo várias e várias vezes”.

Alvin Toffler, escritor americano que na década de 80 cunhou o termo “a terceira onda”, definindo assim a era pós industrial como a da informação, compartilhava da mesma visão que Harari. De maneira bem mais sucinta que o israelense, mas não menos eloquente, declarou que o analfabeto do século 21 não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.

Uma das palavrinhas que definem nosso século é inovação, a tal ponto de novos milionários surgirem da noite para o dia graças a ela. Inovar é mudar, reinventar, renovar, tornar novo. Como sugerido por Harari e Toffler (e outros, acredite), o caminho obrigatório para entender e assimilar bem as frequentes mudanças impostas pelo século 21 começa com o autoconhecimento e, a partir daí, com inovar a si mesmo, ou seja, reinventar-se ou tornar-se novo. E esse ciclo deverá ser repetido algumas vezes ao longo de toda vida. Então, conhece-te e inova-te!

Texto escrito por Luis Nobre, hacker do lab.