Educação hacker para a cidadania efetiva

Tive a bela oportunidade de participar do Bett Brasil — Educar pela primeira vez, evento clássico sobre educação que ocorre há muitos anos no Brasil e também em outros países. Fui convidado para um painel para lá de sugestivo denominado de “Promovendo uma Estratégia de Inclusão e Emancipação Digital a Nível Nacional para Melhorar a Qualidade do Ensino”, serena e sabiamente conduzido pelo Antonio Simão Neto.

Na minha participação, discorri sobre as ações de parlamento aberto que desenvolvemos na Câmara dos Deputados, em especial como estamos tentando implementar a ideia de parlamento como plataforma, adaptada da concepção de governo como plataforma, defendida pelo visionário Tim O’Rilley, entre muitos outros. É claro que abordei o lado educacional dessa questão no painel. Foi mais ou menos assim: no Labhacker da Câmara trabalhamos com atividades de colaboração, isto é, entendemos que o cidadão pode contribuir com o parlamento de diversas maneiras. Pode ajudar a construir uma determinada lei, pode auxiliar as comissões a fiscalizarem o Executivo, pode desenvolver aplicativos de transparência do Legislativo, pode apresentar ideias de como modernizar a Câmara, pode sugerir maneiras amigáveis de compreender as informações legislativas e poderá outras coisas que nem imaginamos ainda.

Um dos desafios sobre como botar pra frente a ideia de parlamento como plataforma, e que enfatizamos no Bett Brasil, é a “falta de educação” crônica no sistema de ensino do país em relação a atividades hackers. Explico melhor: O espírito hacker consiste em descobrir formas criativas (e geralmente lúdicas) de solucionar problemas que parecem insolúveis pelos métodos tradicionais. Busca-se assim conhecer um certo mecanismo ou sistema, desconstrui-lo, mesclar com uma outra coisa, experimentar e construir algo novo. Lições de política, cidadania e de como funciona o Estado é outra coisa também que falta muito nas escolas. Permanece a velha tradição dos colégios no seguinte enfoque: a participação do cidadão no Estado é mínima, resumindo-se basicamente a votar em eleições e pagar impostos. Poderia ser diferente. Por que não temos atividades nas escolas onde a garotada poderia ir já vivenciando situações de cidadão? Poderíamos, por exemplo, ter simulações onde os meninos vivenciariam atividades da vida real, inclusive brincando de ser político e servidor público. Poderíamos ter debates mirins sobre problemas públicos para que a molecada fosse já ponderando questões como falta de água e crise econômica. E por aí vai.

Um exemplo interessante nessa linha foi apresentado pela Profa. Luciana Zaina, colega de painel. A Universidade Federal de São Carlos, onde ela leciona e pesquisa, desenvolveu um aplicativo para navegar em obras de um determinado museu. E selecionaram uma amostra de alunos para desenvolver e testar o aplicativo. As crianças opinaram sobre o design do programa e influenciaram decisivamente no formato do aplicativo. Um dos resultados da pesquisa mostrou que os estudantes preferem acessar o aplicativo via tablete e não pelo computador de mesa e smartphone. A Diretora do Instituto Paramitas, Claudia Stippe, abordou o tema do painel sob a ótica do professor. O maior problema da escola hoje, segundo ela, é a falta de infraestrutura de tecnologia: “A internet nas escolas é muito precária, acarretando uma conectividade baixa. O professor não é mais um analfabeto digital. O principal problema é a falta de recursos tecnológicos para auxiliar o professor no seu trabalho”. Na sessão de perguntas do público presente, fui brindado com um questionamento intrigante da Sra Alana: “Cristiano, o que uma escola deve fazer quando um aluno raqueia (ou hackeia?) a rede da Escola?” Não quis entrar na questão se o menino agiu certo ou errado nesse caso, pois tem aí algo mais profundo que precisamos explorar. Se o garoto fez isso, mostrou certas capacidades que poderiam ser canalizadas para ações mais construtivas para a escola e para sua própria formação do que sair “quebrando regras” por aí. Acho que cabe à escola do futuro atual criar oportunidades para os alunos expressarem seus talentos de maneira agregadora e colaborativa. Artigos relacionados: Por que um Laboratório Hacker?