Empreendedorismo de cidadania: nossa experiência com aceleração de startups

fonte: pixabay.com

As sociedades e suas instituições buscam, com o passar do tempo, uma adaptação às novas reconfigurações sociais e culturais para os desafios que se apresentam. Com a atual valorização da tecnologia e da informação as transformações ocorrem em um ritmo ainda mais acelerado. Isso aumenta a cobrança da sociedade sobre essas instituições, que muitas vezes têm dificuldade de acompanhar o ritmo da modernização.

Com essa realidade de cidadãos acelerados e insatisfeitos, as iniciativas institucionais de transparência e participação parecem insuficientes e não conseguem, muitas vezes, atender as demandas postas à mesa. É nesse momento que emerge uma proposta diferente e muito interessante: trabalhar colaborativamente no desenvolvimento de iniciativas e ideias que surgem da própria sociedade. Algo como uma continuidade ou evolução, no sentido de mão na massa mesmo, dos processos participativos do início dos anos 2000. Exemplo desse trabalho colaborativo foi o surgimento da febre dos hackathons. Nós na Câmara chegamos a fazer dois seguidos: em 2013 e 2014, todos animados em contribuir para melhorar a instituição, o processo legislativo e as políticas públicas. E o LABHacker é resultado prático disso, pois o primeiro laboratório de inovação de um legislativo no mundo surgiu a partir da ideia de um dos participantes do nosso primeiro hackathon.

Primeiro hackathon de uma casa legislativa foi realizado em 2013 no Salão Branco da Câmara. Fonte: Agência Câmara de Notícias.

A animação ainda nem havia passado e um novo impasse já nos atropelava: a continuidade dos projetos que nascem nesse modelo. Tocadas majoritariamente de modo amador, essas iniciativas, algumas sofisticadas usando recursos de inteligência artificial, usualmente acabam fragilizadas por dependerem apenas de voluntários e campanhas ocasionais de financiamento coletivo. Resultado: apesar de interessantes, pouco tempo depois de lançadas a maioria já não recebe atualização ou foi abandonada de vez, por não serem financeiramente sustentáveis. Poucos (e heróicos) permanecem. Afinal de contas, desenvolver projetos como a Rosie, da Operação Serenata de Amor (https://serenata.ai/), e o Elas no Congresso (https://www.elasnocongresso.com.br), que usam dados abertos e inteligência artificial para fiscalizar despesas parlamentares e direitos das mulheres, respectivamente, pode ser incrível e trazer visibilidade ou sensação de “dever cívico cumprido”, mas não põe comida na mesa.

fonte: serenta.ai e elasnocongresso.com.br

Aí compreendemos que era preciso fazer algo para não perder essas oportunidades de gente de fora das instituições pensando em aprimorar iniciativas com foco em transparência institucional e participação da sociedade. Numa tentativa de selecionar e formalizar essas iniciativas, a Câmara lançou um programa de empreendedorismo de cidadania em 2018.

Em parceria com o Ministério da Economia, o LABHacker sugeriu e coordenou o braço cívico do programa Inovativa Brasil de empreendedorismo, do Poder Executivo. O objetivo era aproveitar o programa nacional de sucesso criado em 2013 para, em um projeto-piloto, acelerar, conectar, dar visibilidade e mentoria, além de possibilitar oportunidades para que os projetos se tornassem financeiramente sustentáveis. Estávamos focados em startups e ongs cujas ideias fossem ligadas à cidadania, promovendo controle social, participação política e transparência. O Inovativa Cívico foi mais uma “trilha” de impacto (ESG) no contexto do Inovativa.

Como a ideia foi utilizar a plataforma do Inovativa, que inclui de mentorias a cursos on-line, o Inovativa Cívico já nasceu quase pronto para ser anunciado. Ajudou bastante que a Secretaria de Inovação do Ministério da Economia (atual Secretaria de Desenvolvimento da Indústria, Comércio, Serviços e Inovação) concordou em homologar a iniciativa de maneira ágil, via e-mail e sem burocracias.

O projeto foi apresentado pelo diretor do LAB, na época, ao chefe de gabinete da Diretoria-Geral da Câmara. A nova ideia não gerou polêmica, pois também não envolvia despesas. A assessoria jurídica avaliou que, caso o caminho escolhido fosse de convênio formal da Câmara com o Ministério, muito provavelmente o projeto não seria executado. Desse modo, o acordo acabou sendo informal, pois queríamos experimentar esse novo modelo de parcerias, entre instituições e com a sociedade. O Sindilegis, sindicato do legislativo, entrou para ajudar com as passagens e estadas dos finalistas.

Como o programa foi criado com o Inovativa Brasil já em andamento, não tivemos os benefícios do marketing institucional. Fomos obrigados a buscar ativamente por interessados. O gestor responsável pelo Inovativa Cívico no LABHacker saiu à procura de potenciais interessados. Foram visitados co-workings de iniciativas de impacto (como o Cívico, em Pinheiros) e provocadas as redes de contatos de alunos e ex-alunos da USP envolvidos com projetos desse tipo, como o FEA Social, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade.

fonte: pixabay.com

De 30 inscritos foram selecionados 12 projetos para seguirem as várias etapas do processo, incluindo mentorias, treinamentos e, inclusive, avaliação de investidores para os que evoluíssem até o final. Esse processo durou de setembro a dezembro de 2018. Dos doze selecionados, seis chegaram à última etapa e seguiram para o momento de apresentação do pitch de cada projeto. Os selecionados foram:

e-Ranking Cidadão (https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiYTM5MjAwNzQtNjU1Zi00NmI5LWI4YzItN2Q3MDUwMmFmNjM4IiwidCI6Ijc5ODQ2NzIwLWY0NDEtNDljOS1hNTZlLTg5OTA5ODIxOGQ2MiJ9 )

Avaliação de parlamentares com base em seu engajamento em projetos de interesse da sociedade

Legisla Brasil (www.legislabrasil.org)

Plataforma para recrutamento e capacitação de jovens talentos para atuação em gabinetes parlamentares e outros setores do legislativo

Mobis (https://www.mobis.org.br)

Plataforma on-line de distribuição de conteúdo educacional nas áreas de cidadania e participação na vida pública

Monitora, Brasil! (https://monitorabrasil.org)

Conjunto de ferramentas (app e site) que permitem ao cidadão brasileiro entender o que os políticos estão fazendo e fizeram

UnB Sense

App usando técnicas de inteligência artificial para prevenção de suicídio. Desenvolvido no Departamento de Ciência da Computação da UnB

Vade Mecum Cidadão

App usando técnicas de inteligência artificial para facilitar acesso à legislação

Em São Paulo, as equipes do Inovativa Brasil 2018 treinaram para arrasar nos pitches.

Das empresas selecionadas na linha cívica, uma das que mais se destacou foi a Mobis, um negócio de impacto social criado em 2017 que pesquisa, desenvolve e distribui gratuitamente programas e metodologias para que as escolas ensinem cidadania. Com o objetivo de formar cidadãs e cidadãos que compreendam melhor seus direitos e deveres, e participem mais ativamente da vida pública, a Mobis apresentou seu pitch de educação cidadã para uma banca qualificada de investidores e/ou potenciais patrocinadores. Esse projeto do inovativa Cívico ficou entre os mais assistidos na fase final do programa Inovativa Brasil, que contou com mais 100 projetos.

Outra empresa que se destacou foi a Legisla Brasil, uma organização suprapartidária, sem fins lucrativos, que busca ser a ponte entre jovens que querem atuar politicamente e legisladores que desejam renovar suas equipes. Ao longo do tempo, a organização conseguiu alocar universitários, como estagiários, em gabinetes de vereadores da Câmara Municipal de São Paulo, assim como gabinetes do Senado e da Câmara. Para os fundadores da empresa, uma das principais questões no país é a qualidade, muitas vezes ruim, da equipe por trás de um legislador. Eles ressaltam que boa parte das equipes costuma ser formada por cargos comissionados, preenchidos por pessoas de confiança dos políticos, mas que não necessariamente possuem a formação técnica necessária.

A experiência do InovAtiva Cívico, que destacou a importância da sustentabilidade financeira, dentre outros, para muitas startups e empreendedores do país, foi mais um passo da Câmara para abrir-se e fortalecer o ecossistema de iniciativas ao redor do Poder Legislativo. Mas foi só o início…

Alerta de spoiler: o LABHacker já está em negociação com uma grande rede social para implementação de programa similar ao Cívico, com foco em “govtechs”. Preparem-se para as novidades…

LABHacker

Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados

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