Mescuta — Como pensar em um projeto de chatbot na era da atenção fragmentada

Em artigo anterior, mencionamos a era da ascensão da economia da atenção, ou seja, a disputa acirrada, milionária e pouco ética pela atenção das pessoas empreendida por mídias e marcas, principalmente pelas gigantes Google, Amazon, Facebook e Apple. Essas empresas gastam verdadeiras fortunas em algoritmos de inteligência artificial que aprendem e se auto modificam a fim de conhecer e influenciar mais e intimamente todos aqueles que usam seus serviços. Citamos também a consequência dessa disputa, a diminuição da capacidade de atenção das pessoas ou, como se convencionou chamar, atenção fragmentada. Como o Mescuta, um projeto de chatbot, se encaixa nesse contexto? Vejamos, primeiramente, alguns aspectos relacionados, direta e indiretamente, a essa competição pela atenção das pessoas.

Segundo dados do relatório 2018 Global Digital, produzido pela Hootsuite e pelo We Are Social, o Brasil é o terceiro país no mundo que passa mais tempo conectado na internet, a partir de qualquer dispositivo, com uma média de 9h14. Desse tempo, mais de três horas e meia são dedicados às redes sociais. Em se tratando de conexão a partir do celular, com base em dados levantados pela Statista (The Statistics Portal), o brasileiro passou de 2h em 2012 para quase 5h em 2016. Em outras palavras, o brasileiro é viciado na rede mundial. Deixando de lado o inegável efeito prejudicial desse comportamento, o fato é que a janela de tempo em que ele pode ser alcançado é bastante ampla. Basta apenas fisgar sua atenção. Mas não é tão simples assim.

Em seu livro “Irresistible: The Rise of Addictive Technology and the Business of Keeping Us Hooked”, Adam Alter afirma que o vício comportamental relacionado ao uso de tecnologia consiste de pelo menos um dos seguintes ingredientes: objetivos envolventes que estão quase ao alcance; feedback (reforço) positivo irresistível e imprevisível; a percepção de progresso e desenvolvimento incrementais; tarefas que vão se tornando mais desafiadoras com o tempo; tensões não resolvidas que demandam solução; e conexões sociais fortes. Ora, um chatbot, por conta de sua natureza e daquilo que se presta a fazer, não possui nenhum desses ingredientes. Sendo assim, a tarefa de conseguir uma fatia da atenção das pessoas torna-se ainda mais complexa.

Além dos vícios comportamentais, outro aspecto que deve ser notado é a diminuição do tempo médio de atenção de uma pessoa. De acordo com a Digital Information World, em artigo publicado em setembro de 2018, esse tempo caiu de 12s no ano 2000 para 8s em 2015. Segundo especialistas, menor que a de um peixe dourado. O artigo diz ainda que um usuário leva de 10 a 20 segundos para abandonar uma página na internet. Um estudo realizado em 2016 reforça essas constatações. De acordo com ele, 59% de todos os links compartilhados em redes sociais não são de fato abertos. Isso implica dizer que a maioria dos artigos compartilhados não são realmente lidos e que sua relevância é avaliada, em poucos segundos, com base apenas em seus títulos. Neste caso, fica evidente a união do útil ao agradável: compartilhamento rápido com boa possibilidade de obter reforço positivo, um dos ingredientes do vício comportamental, e sem qualquer esforço, porque, afinal de contas, não foi preciso ler texto algum.

No caso do projeto Mescuta, que envolve cidadãos, deputados e a instituição Câmara dos Deputados, há ainda um outro aspecto importante. A atenção da grande maioria das pessoas, que já é fragmentada, é dividida uma segunda vez. Conteúdos na rede mundial com diferentes vieses políticos, econômicos, sociais, culturais, raciais, religiosos e de gênero, por exemplo, atraem pessoas com interesses em comum que, por sua vez, criam bolhas ideológicas inacessíveis a quem pensa diferente. No livro “A morte da verdade”, a autora Michiko Kakutani, relembra a seguinte declaração do ex-presidente Barack Obama: “(…) um dos maiores desafios que temos em nossa democracia é o fato de não compartilharmos a mesma base de fatos”; atualmente, as pessoas estão “operando em universos de informação completamente diferentes”. Se é um desafio para a democracia, é também para um chatbot de qualquer das Casas do Legislativo Federal.

Postos os desafios, quais seriam, então, os caminhos possíveis para contorná-los? Basicamente, dois: um chatbot com funcionalidades ambiciosas, à altura desses desafios, e fazer com que a organização passe a funcionar orientada a dados. No caso do Mescuta, como já dissemos em nosso primeiro artigo, a ideia é criar um assistente virtual como o da Google, da Apple (Siri), ou da Amazon (Alexa), que permita uma melhor interação com o deputado e o acompanhamento de tudo o que acontece dentro da Câmara. Além disso, que também seja capaz de notificar seus usuários sobre conteúdos, acontecimentos e transmissões da Casa e de deputados de seu interesse, de maneira semelhante aos mecanismos de recomendações da Netflix (filmes e séries) e da Amazon (livros).

Atualmente, é comum ouvir que os dados são o novo petróleo. E são mesmo. Mas pela simples razão de não haver caminho mais eficaz para conhecer melhor e mais profundamente pessoas e fenômenos do que por meio da coleta, gestão (curadoria) e análise de dados. Dessa forma, é possível descobrir com maior grau de acerto quais são os interesses de determinado grupo de pessoas para, assim, gerar conteúdo relevante direcionado e definir estratégias para capturar sua atenção. Uma organização orientada a dados possui estrutura e processos de trabalho voltados para esse fim. No caso do Mescuta, nossas pesquisas sobre chatbots e as visitas que realizamos a outros órgãos onde projetos nessa área estavam mais adiantados reforçaram essa percepção. Acreditamos que a Câmara dos Deputados poderia até desistir de ter um canal de comunicação como esse, mas não da orientação a dados. Até mesmo porque dificilmente um chatbot despertará interesse e cativará a atenção do público sem uma gestão criteriosa e estratégica dos dados que o alimentam.

Na semana passada, o projeto Mescuta do Laboratório Hacker divulgou seu protótipo daquilo que considera um chatbot à altura dos desafios aqui citados. Acessível apenas pelos integrantes de sua equipe, está funcionando no assistente da Google e em uma página teste do Facebook. Você pode ver o robozinho sendo apresentado e em ação clicando aqui. Finalmente, se você está lendo isso, significa que o título de nosso artigo conseguiu fisgar sua atenção nos 8 segundos que você muito provavelmente gastou para julgá-lo. Nossa equipe de comunicação se sente envaidecida e agradece. E, mais importante, parabéns! Você faz parte dos 41% que leem um artigo antes de decidirem compartilhá-lo ou não. Até a próxima!

Texto da semana escrito por Luis Nobre, hacker do lab.