Metaverso e os desafios para integrar os mundos real e virtual

A imaginação é o limite para a quantidade e variedade de aplicações dessa tecnologia cibernética em nosso dia-a-dia

Frederico Campos
Nov 19 · 7 min read

Quando a vida imita a arte. 2001 uma Odisseia no espaço, Blade Runner, Avatar, Matrix, Jogador Nº 1, clássicos e sucessos de bilheteria nos cinemas que prenunciaram algumas possibilidades dos metaversos que estão chegando. Uma nova era, que mescla sonhos, realidade, diversão, conhecimento, desejos de um mundo melhor, mas que inspira cuidados. E como…

Arte inspirada pela ciência. No filme 2001 uma Odisseia no espaço, somos apresentados ao HAL, uma Inteligência Artificial (IA) que se torna muito poderosa (perigosa). Em Blade Runner, assistimos a criação e extinção dos “robôs” replicantes. Em Matrix, corpos e mentes dos seres humanos são aprisionados para saciar a IA. Em Avatar, a realidade virtual se mistura com o real. Tecnologia e meio-ambiente se enfrentam. E por fim, em Jogador Nº 1, os desafios dos jogadores que competem num campo virtual para conquistarem o prêmio dos prêmios.

Histórias que marcaram gerações e que parecem sair das telas de cinema para se tornarem realidade, mundo virtual e real integrados em diversos metaversos.

Montagem feita com imagens do Unsplash

A origem do metaverso

A palavra metaverso foi usada pela primeira vez pelo escritor Neal Stephenson no romance cyberpunk Snow Crash, publicado em 1992. Na narrativa, o protagonista Hiro Protagonist, um hacker e entregador de pizza, se vale do metaverso para experimentar a vida de um príncipe samurai.

Metaverso tem origem na junção do prefixo meta, que em grego significa além, com universo. O que resulta em “além do universo”. Um ambiente virtual conectado à internet, coletivo e compartilhado, onde experiências físicas são recriadas com o uso da realidade aumentada, da realidade virtual, da inteligência artificial, do blockchain, da internet das coisas e de outras tecnologias exponenciais. (Verbete Draft)

Em outras palavras, metaverso pode ser compreendido como ambiente virtual capaz de reunir pessoas a propósitos específicos: para jogar, trabalhar, estudar, fazer compras, se divertir… Metaversos virtuais num infinito universo real. Onde isso vai dar, talvez tenhamos que esperar outros sucessos da “ficção” para enxergarmos o futuro possível. Mas, será que já estamos preparados para usufruir dessa tecnologia?

Pandemia, Isolamento social e relações virtuais

A Pandemia da Covid-19 vai completar 2 anos e mudanças de comportamento em nível global foram e ainda estão sendo vivenciadas pela humanidade. Nunca fomos tão conectados em nossas relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Quarentena, isolamento social, lockdown, home-office, ensino remoto, atendimentos virtuais na saúde, cuidados sanitários e busca pela imunização completa das pessoas. Tudo isso ao mesmo tempo e numa escala planetária e impensável a poucos anos atrás.

O mundo quase parou, mas a tecnologia permitiu que uma significativa parcela da sociedade conectada continuasse a viver, mesmo com as restrições impostas pela pandemia. Videoconferências nas escolas, no trabalho, entre amigos e familiares; aplicativos para fazer compras em supermercados, drogarias, restaurantes; diversos serviços online foram criados e aprimorados para atender aos cidadãos que estavam em isolamento social. Soluções tecnológicas que vieram para ficar, com ou sem pandemia. E por que não dizer protótipos de metaversos.

Recentemente, o Facebook mudou de nome para Meta e anunciou que irá investir em um novo negócio: o metaverso, realidade virtual criada para que o ser humano, por meio de avatares, óculos VR, realidade aumentada, dispositivos conectados, sensores de movimento, possa vivenciar experiências com dezenas, milhares ou até milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Não é difícil imaginar os metaversos Disney, Marvel, FIFA, FIA, e que serão bem divertidos. A indústria de jogos já oferece espaços virtuais interativos, com avatares personalizados. Mas, nem tudo é diversão. Para a Microsoft, o metaverso vai permitir simular lojas com prateleiras, fábricas com problemas nas linhas de produção sendo resolvidos automaticamente, escolas e ambientes de trabalho. A empresa anunciou que a plataforma colaborativa Teams vai possibilitar o uso de bonecos digitais interativos em 3D, conhecidos como avatares, em reuniões e videoconferências já em 2022.

Imagem: Microsoft Teams

Câmara 360 graus

O LABHacker experimentou um pouquinho da tecnologia imersiva do metaverso no Câmara 360 graus. Desenvolvido pelo laboratório, no primeiro semestre de 2018, esse projeto foi idealizado para dar aos cidadãos uma experiência mais real e inclusiva durante as votações das leis no plenário da Câmara e facilitar a compreensão do processo legislativo.

A experiência imersiva foi feita com o uso de uma câmera 360 e da realidade aumentada. A câmera representa uma pessoa dentro plenário durante uma votação. Enquanto caminha entre os deputados, assessores, jornalistas, essa pessoa explica o projeto que vai ser votado e descreve o que vê no plenário. Durante a narração, informações sobre os deputados, quorum, entre outras, são aplicadas às imagens por meio de recursos gráficos da realidade aumentada. O protótipo do projeto foi autorizado pela Secretaria Geral da Mesa da Câmara dos Deputados e contou com a participação de uma equipe multidisciplinar.

Outras aplicações possíveis para os metaversos da Câmara dos Deputados: possibilitar aos cidadãos acompanhar as votações nas comissões, entrar em galerias virtuais com avatares, participar de audiências públicas, realizar encontros virtuais com parlamentares, propor petições públicas e certificadas. Oferecer atendimento mais eficiente aos cidadãos por meio de realidade aumentada, chatbots, avatares de servidores públicos, IAs personalizadas (em forma de humanos ou personagens da ficção).

A tecnologia usada pelo Google Earth, por exemplo, poderia ser um bom modelo para a criação de espaços públicos virtuais. Para as instituições se tornarem virtuais (e por que não as cidades?), bastaria mapear e modelar os espaços externos e internos de cada uma delas.

Imaginem os laboratórios de inovação quando forem idear soluções ou protótipos com a sociedade ou com os servidores. Oficinas de design sprint , design thinking, o Nós do LAB dentro do metaverso, seria bem legal não é mesmo?

Imaginem como seria o home office no metaverso durante a pandemia. As reuniões seriam feitas em salas virtuais, possivelmente baseadas e modeladas de acordo com as que frequentamos em nosso dia a dia real. (Seria necessário essas últimas?). Cada um de nós, onde estivesse, poderia acionar um colega de trabalho para conversar ou interagir virtualmente. Todos estariam em suas salas sentados, lendo, escrevendo. Bastaria um de nós falar ou chamar cada colega para nos reunir, idear soluções, resolver questões do dia a dia, trocar ideias, planejar…

Imaginem agora todos os prédios e cidades modeladas. As pessoas poderiam trabalhar e transitar em um espaço virtual parecido com o real, frequentado por pessoas virtuais, e, ao mesmo tempo, trabalhar e transitar em espaços reais. Parece física quântica, não é mesmo? O nosso eu pode ocupar dois ou mais espaços ao mesmo tempo? Sim, com os metaversos será possível.

Diante de tantas possibilidades, os metaversos, para se tornarem realidade, ainda que virtuais, deverão enfrentar diversos desafios. O primeiro deles diz respeito à segurança e à privacidade dos cidadãos.

Desafios trazem responsabilidade

O aprendizado das máquinas passará por uma das etapas mais singelas e ricas para alcançar o realismo virtual: perceber, processar e armazenar as reações e fisionomias das pessoas durante as relações virtuais entre elas em diversos ambientes e situações: lazer, trabalho, consumo, entre outros.

Em resumo, nós seremos convidados a entrar em metaversos, pagar por eles, e nossos gestos, expressões faciais, comportamentos, conhecimentos, culturas, hábitos, poderão ser armazenados e usados para a construção de avatares, chatbots e robôs (os replicantes de Blade Runner). Realmente, parece um ótimo negócio para o dono do negócio. Mas, antes de assinarmos os termos de compromisso para entrar em um metaverso, nós podemos e devemos, sim, fazer algumas perguntas e exigências.

As plataformas que irão desenvolver os metaversos vão fazer acordos de confidencialidade com as pessoas, empresas e instituições? As informações tão preciosas de cada um de nós serão usadas e servir a quais propósitos? Se deixarmos, as Big Data e IAs controladas pelas Big Techs vão tentar se apropriar desse universo, com certeza.

Privacidade e autenticidade

O ser humano virtual e o ser humano real. Esse é mais um desafio para os metaversos. Como garantir a identidade verdadeira dos cidadãos nas diversas implementações dos metaversos. As NFTs (Tokens não fungíveis) poderão ser utilizadas para atestar as identidades de cada cidadão dentro de tantos metaversos? Teremos garantia de que nossos avatares estarão protegidos de falsificações?

Imersão profunda

Outro cenário possível para alguns metaversos. A realidade virtual poderá ser mais prazerosa que a real, com menos riscos, mais segurança e conforto. O mundo sensorial e promessas de satisfação e controle sobre si mesmo poderão atrair e milhões de pessoas para um metaverso bolha. Por que viver um mundo real tão incerto, hostil e desagradável se podemos viver o mundo que sonhamos e desejamos?

Interoperabilidade e conexão

Em recente Labtalks realizado pelo LABHacker sobre Metaverso e suas implicações no Legislativo, Pedro Markun, ativista do software livre, alertou que a conexão (5G ou satélites)será decisiva para o sucesso dos metaversos e que eles deverão conversar entre si por meio de tecnologias como blockchain e NFT, a fim de garantir a segurança e privacidade das pessoas. Markun diz que devemos nos perguntar o que o metaverso pode fazer pela política, pelo que é público, e o que a política precisa fazer pelo metaverso.

Outro convidado do LabTalks, Christian Perrone, pesquisador do ITS Rio e especialista em metaverso, acredita que as regras dos metaversos devem ser discutidas e regulamentadas sob o ponto de vista internacional ou, quem sabe, “intermetaversal”. O direito à privacidade das pessoas, por exemplo, deverá passar por negociações sociais. O vice-presidente da recém criada Meta, Nick Clegg, declarou recentemente que a tecnologia do metaverso vai demorar de 10 a 15 anos para ser desenvolvida e que nesse período é possível reunir indústria tecnológica, acadêmicos e autoridades de diversos países para regulamentar as relações entre os metaversos e seus “habitantes”.

Quantos metaversos existirão? Haverá limites para esses metaversos? Perguntas e perguntas. Muitas dúvidas. Entre os convidados do LabTalks, uma certeza: se houver apenas um metaverso, controlado por uma única empresa, uma Big Tech, aí sim poderíamos ficar muito preocupados. Quanto mais metaversos, melhor. E as Startups podem surpreender nesse novo negócio. Elas são inovadoras, disruptivas. E por que não provocarmos as GovTechs, LegisTechs, JusTechs a entrarem nesse novo negócio? Está aí um desafio lançado pelo LABHacker.

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Laboratório Hacker da Câmara dos Deputados

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