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‘A máxima da umbanda é acolher a tudo e a todos, não ter distinção’

Mãe de santo e psicóloga, Paula Souza desmistifica preconceitos e esclarece dúvidas sobre a religião brasileira de matriz africana

Carolina Menezes

Adentrar o rico e histórico repositório da filosofia e das práticas da umbanda, religião de matriz africana e autenticamente brasileira. Essa foi a proposta da conversa com a psicóloga e mãe de santo Paula Souza no dia 22 de setembro durante live da série Conversas LabJor FAAP.

Após trabalhar 20 anos no Programa Estadual de Prevenção a DST/AIDS de São Paulo, Paula decidiu se especializar em xamanismo e passou a atender seus pacientes com essa abordagem. Também iniciou-se no sacerdócio do Círculo de Irradiações São Lázaro, casa umbandista na zona sul paulistana.

Apesar do ingresso tardio no trabalho como mãe de santo, Paula contou que sua relação com a umbanda começou ainda criança. Aos 7 anos, seu tio a levou pela primeira vez a um terreiro para uma gira — nome do ritual semanal praticado na religião. “Naquele dia fiz muitas perguntas e passei a pedir para ir. Meu tio me levava. Fui crescendo e com 20 anos já ia sozinha, quando tinha vontade. Aos 25, resolvi desenvolver e comecei a aprender mesmo.”

Na conversa, Paula focou nas representações femininas do panteão divino da umbanda e explicou os simbolismos carregados pelas orixás que diferem das normas predominantemente cristãs de nossa sociedade. Ela também fez um panorama histórico da religião e falou das diferenças para o candomblé, que também é uma religião brasileira mas possui um culto mais voltado aos orixás, enquanto a umbanda se pauta na assistência que as entidades podem fornecer a quem procura ajuda.

E o que são as entidades? Paula explicou que são os espíritos desencarnados que vêm às sessões dos terreiros, por meio da incorporação, oferecer “a sabedoria do divino” para as pessoas.

“Temos todos os excluídos aconselhando as pessoas. São eles que vêm incorporar e dar conselhos: a criança, o idoso, o índio, o marinheiro, o nordestino (que vem na figura do baiano), o cara do interior (boiadeiro), a pomba-gira (aquela mulher livre, dona da sexualidade dela), o exu (aquela masculinidade mais agressiva)… É para essas entidades que as pessoas vêm pedir conselhos.”

Paula também levantou a discussão sobre o racismo, segundo ela parte da intolerância religiosa que a religião sofre sistematicamente desde a chegada ao Brasil pelas mãos de negros escravizados trazidos de países africanos. Ela destacou que, desde sua formação, a partir de cruzamentos de tradições de diferentes povos da África com sincretismos com elementos kardecistas e católicos, a umbanda enfrentou ataques. “Até os anos 1960, as religiões afro sofriam ataques até de policiais. A polícia entrava e recolhia os atabaques, as pessoas saíam presas.”

A psicóloga e mãe de santo Paula Souza. Foto: Arquivo pessoal

Por isso, a importância para ela de falar sobre a religião sempre que pode, esclarecer dúvidas e convidar mais pessoas a conhecer melhor as verdadeiras premissas, mitos e rituais da umbanda. A psicóloga e mãe de santo lembrou que sempre haverá pessoas trabalhando energeticamente para o mal, como em qualquer outra religião, mas isso vem do ser humano que está por trás desse trabalho, não da religião.

Ela disse que a casa onde trabalha preza pela diversidade e pelo acolhimento de todos e o pai de santo e líder da comunidade, Alexandre Meireles, sempre traz pautas que dialogam com as problemáticas sociais que enfrentamos na sociedade, como racismo, machismo e homofobia.

“O pai de santo faz exatamente isso: ajuda no desenvolvimento mediúnico das pessoas, passa o conhecimento religioso para elas conhecerem aquilo, cuida energeticamente daquelas pessoas e é responsável pela relação da comunidade. Se tem uma desavença entre os filhos de santo dele, ou se a comunidade tiver de se posicionar para alguma coisa, é ele que dá o tom.”

Tudo isso explica a essencialidade do caráter coletivo da religião. O uso dos atabaques e das cantigas durante as giras é indispensável, segundo Paula, pois é pelo som que ocorre uma pequena alteração de consciência que coloca todos os presentes na mesma vibração, oferecendo um sustento energético para o trabalho que ocorre ali.

Outra característica histórica é a oralidade na transmissão das tradições. “É uma memória oral e o que você mantém oralmente é porque fez sentido para as pessoas.” Paula destacou também a crescente produção acerca da religião, tanto de forma documental e histórica, quanto de caráter religioso e filosófico. Confira abaixo algumas dessas obras e as explicações da especialista sobre diferentes orixás femininas.

PARA ENTENDER AS ORIXÁS FEMININAS

Paula Souza explicou na entrevista ao LabJor FAAP que cada pessoa é uma centelha divina e tem um orixá de cabeça, ou seja, um orixá que rege seu caminho e se assemelha à sua essência. Cada filho de cada orixá é como se fosse o próprio orixá, em escala energética menor. Só é possível descobrir qual é o seu por meio do jogo de búzios feito por um pai de santo, liderança máxima da umbanda. Abaixo estão características das principais orixás femininas:

Escultura da orixá Iansã, do artista Tatti Moreno, no Parque Nacional da Catacumba, no Rio de Janeiro. Foto: Eurico Zimbres/ Wikimedia Commons

NANÃ: Deusa primordial, é a mais antiga — ou avó — das orixás. “O conceito de avó não é o mesmo do nosso”, disse Paula. “Antigamente, nos primórdios, as mulheres morriam muito cedo, não havia recursos. Então, quando você fala de uma mulher idosa, você fala de uma mulher sábia.” Nanã é a deusa do barro, senhora da transformação, da vida e da morte.

OXUM: Deusa das águas doces e das cachoeiras. Rege a mulher jovem, a sexualidade, o útero e os ovários. Quando dança, se olha no espelho: é a senhora da autoestima e do autocuidado.

IEMANJÁ: Deusa do mar, da criação e da criatividade. “Como no mar tem muita vida e engloba todo o planeta, ela acolhe a tudo e a todos, não rejeita absolutamente ninguém: é um amor incondicional”, contou Paula. Mais uma figura que representa uma grande mãe, Iemanjá é a senhora do equilíbrio emocional — sua representação é em torno de seios fartos cheios de leite, que nutrem a todos.

“Nanã adormece o espírito, Oxum gesta e Iemanjá cria, coloca no mundo. Isso acontece com os nossos projetos, com outras coisas da nossa vida. A gente traz, gera, põe para executar, desenvolve.”

IANSÃ: Mulher guerreira, senhora dos ventos, raios e tempestades. Anda ao lado do homem e é a mulher independente com sede de conhecimento: quer aprender, é curiosa, possui um pulso de vida muito grande. Caminha ao lado de Xangô, orixá que rege o fogo, pois o vento alimenta o fogo e o faz crescer.

PARA SABER MAIS

Mitologia dos orixás, de Reginaldo Prandi (Companhia das Letras, 2020).

O livro essencial de umbanda, de Alexandre Cumino (Universo dos Livros, 2020).

O guardião da meia-noite, de Rubens Sarraceni (Editora Madras, 2009).

Tambores de Angola, de Ângelo Inácio e Robson Pinheiro (Casa dos Espíritos, 2018).

Conhecendo os orixás: De exu a oxalá, de Waldete Tristão, com ilustrações de Caco Bressane (Editora Arole Cultural, 2018).

Deuses dos dois mundos (trilogia), de PJ Pereira (Livros de Safra, 2015).

Carolina Menezes é aluna de Jornalismo da FAAP

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Laboratório de produção de conteúdos jornalísticos do curso de Jornalismo da FAAP | Contato: labjor@faap.br

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