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Para apreciar e se inspirar durante a quarentena

Veja dez produções notáveis que germinaram em momentos difíceis

1. 'The Freewheelin’ Bob Dylan'

Capa do álbum 'The Freewheelin’ Bob Dylan' fotografada por Don Hustein. Foto: Divulgação

A música folk foi uma das responsáveis por fomentar a ideologia americana predominante na transição dos anos 1950 e 1960. The Freewheelin Bob Dylan é o segundo registro de estúdio do artista, que compôs quase todo o álbum e marcou uma geração com canções de caráter político — como Masters of War e A Hard A-Rain’s Gonna Fall — e protestos contra ideologias de guerra.

2. 'Matadouro 5'

Retrato de Kurt Vonnegut e contracapa de 'Matadouro 5'. Foto: Divulgação

Kurt Vonnegut só ficou satisfeito com o registro de sua experiência como prisioneiro na 2ª Guerra Mundial após invocar o estranho artifício da ficção científica para deixar seu protagonista Billy Pilgrim “solto no tempo” — indo e voltando simultaneamente por passado, presente e futuro e viajando para o espaço em busca de perspectiva. Assim, chegou a um manuscrito inacreditavelmente magro para Matadouro 5, que une ficção, história e humor para lidar com traumas da guerra.

3. 'Máfia'

Fotos: Letizia Battaglia/ Acervo Instituto Moreira Salles

Fotógrafa internacionalmente reconhecida por seus registros documentais e históricos do período mais sangrento da atuação da Máfia na Itália, Letizia Battaglia já sonhou várias vezes que estava queimando seus negativos desse período. Pacifista, a jornalista que começou a fotografar pela necessidade de ilustrar seus artigos não gosta quando dizem que usava sua câmera como arma. E coloca como seus três mandamentos: respeito, compreensão e envolvimento.

4. 'Calabar'

Foto: Divulgação

Lançado com uma capa dupla com o nome Calabar pichado num muro, o LP do musical escrito por Chico Buarque e Ruy Guerra foi proibido durante a ditadura militar no Brasil e relançado, ainda em 1973, com outra capa — branca — com o título Chico canta. Sete anos depois de censurado, o texto foi, em 24 de janeiro de 1980, liberado para uma montagem no Theatro São Pedro, em São Paulo. A peça estreou quatro meses depois. E outras montagens se seguiram.

5. 'Defacement: The Death of Michael Stewart'

Retrato de Basquiat feiro por Lee Jaffe em 1983 e reprodução da obra 'Defacement: The Death of Michael Stewart', da coleção de Nina Clemente, Nova York

“Poderia ter sido eu”, dizia o artista Jean-Michel Basquiat, um dos nomes mais importantes da cena artística urbana de Nova York dos anos 1980, quando mencionavam o truculento assassinato de Michael Stewart, um jovem negro agredido por policiais após ser abordado grafitando um muro no Brooklyn, Nova York, e que faleceu 13 dias depois. O olhar e a sensibilidade de Basquiat sobre o ocorrido, então com 25 anos de idade, geraram sua produção mais pessoal: uma obra que retrata uma cena de violência policial e representa o abuso de poder e o racismo institucionalizado.

6. Ignorance = Fear

Foto: Keith Haring Foundation

Quando em 1889 Keith Haring criou a obra Ignorance = Fear (do inglês, Ignorância = Medo), um americano era testado positivo para HIV a cada minuto e quatro pessoas morriam de Aids a cada hora. Até 1991, a epidemia tiraria a vida de 100 mil americanos. Haring (também diagnosticado como soropositivo) e seus amigos ativistas sabiam: ninguém estava de fato falando de forma significativa a respeito da doença e o que mais se via era ignorância, medo e vergonha. Mas, mantendo seus traços simples e suas cores primárias características, o artista levantou com sua obra a discussão para questões que realmente importavam e deveriam ser discutidas com seriedade.

7. 'As Boas Mulheres da China'

Mulher chinesa do grupo étnico manchu, fotografada por John Thomson. Fotos: Divulgação

As Boas Mulheres da China é uma obra de não-ficção escrita pela jornalista chinesa Xinran. Ao longo de quase uma década, ela reuniu casos reais e relatos pessoais de mulheres chinesas que aceitaram quebrar a tradição e o silêncio de suas vidas privadas e compartilharam suas experiências e percepções, formando um retrato tocante da figura feminina na turbulenta China do século 20.

8. 'New Amerykah: Part Two'

Foto: Divulgação

Este álbum, além de trazer o característico caráter pessoal e ambicioso das produções de R&B e Soul, tem o toque especial e único de Erykah Badu: uma conexão e uma sensibilidade profundas com o coletivo e suas convicções. A produção traz à tona muitas reivindicações da luta da população negra americana por seus direitos civis, que ocorreu no período de 1955 a 1968. Lançado em 2008, teve grande relevância no cenário político dos Estados Unidos, movimentado pela campanha de um candidato que viria a ser o primeiro presidente negro do país: Barack Obama. Os sons trazem o íntimo da cantora com um misto de liberdade e pulsação de coragem, que expressava sua identidade enquanto mulher negra perante os turbulentos processos de luta por equidade nos Estados Unidos.

9. 'Nubes / Disappearing Jaguar'

A obra 'Nubes/Disappearing Jaguar'. Foto: Reprodução

A chilena Cecília Vicuña decidiu abandonar a prática pictórica nos anos 1970. “Minha pintura foi muito perseguida e odiada. A maior parte das telas foi destruída. Os militares destruíram minhas pinturas, meus parentes e amigos destruíram minhas pinturas. (…)”, contou em entrevista ao site Select Art. Em 2014, sob olhar de dois curadores brasileiros, as pinturas de Vicuña que sobraram foram sendo absorvidas pela cena artística internacional. Por coincidência, poucos anos antes dessa legitimação, Vicuña voltava a pintar silenciosamente: “A primeira pintura nova que fiz nesse novo ciclo de renascimento do óleo foi sobre o desaparecimento da Floresta Amazônica pelos incêndios provocados [em 2018, quando a Amazônia foi foco de 41% das queimadas no País], que me parecem o crime máximo contra o futuro do planeta.”

10. 'Sistema Nervoso'

Retrato de Lina Meruane feito por Rodrigo Fernández em 2016

Nesse engenhoso romance da chilena Lina Meruane, o enredo olha para o macro sem se esquecer do micro. Recheado de metáforas sobre a sociedade adoecida — e essa doença, no caso, sendo a ditadura chilena — Meruane traz luz à instabilidade humana enquanto organismo e ao vasto e desconhecido universo que nos rodeia. “O país tinha ficado às escuras. Era um imenso buraco negro, sem velas. Em outro tempo, em outro lugar, sua casa estava cheia de velas magras longas nebulosas, embrulhadas em papel azul ou amarradas com barbante, para as emergências. Não havia velas no país do presente onde a luz nunca sumia. Nunca, até que sumiu.” (trecho do livro).

Carolina Menezes é aluna de Jornalismo da FAAP

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Laboratório de produção de conteúdos jornalísticos do curso de Jornalismo da FAAP | Contato: labjor@faap.br

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Um laboratório de informação: Descobrimos e contamos histórias que dão sentido ao presente.