LabJorFAAP
Published in

LabJorFAAP

Vida — e inspiração — de um poeta vanguardista em tempos de quarentena

Dono da independente Editora de Los Bugres, Douglas Diegues compartilha com o LabJor FAAP sua experiência de isolamento no Mato Grosso do Sul

Carolina Menezes

“Encontro inspiração em tudo que puser atenção. Encontro inspiração na situação atual de vírus e confinamento. Me encanta ficar matutando enquanto el viejo mundo, krak krek krik krok kruk, se cae en pedazos.”

Acordar cedo, molhar as plantas, fazer exercícios, ler um pouco, fazer receitas naturais, se alimentar, depois ler mais um pouco e, quem sabe, escrever; não há hora certa para escrever. Essa é a nova rotina do poeta Douglas Diegues, nascido no Rio de Janeiro em 1965 e autor de obras escritas numa mistura de português, espanhol e guarani. “Escrevo um poema al menos por dia. Mas às vezes saem três poemas, um de dentro del outro. (…) Estou sempre à espreita. Quando pinta o poema, anoto ele. Pode ser de dia. Pode ser de noite.”

Mapa da região. Ilustração: Carolina Menezes

Importante pesquisador da etnopoesia — um tipo de poesia característica de um povo ou etnia — , Douglas se divide entre a fronteira de Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, no Paraguai, com Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Na primeira semana de quarentena obrigatória por causa de pandemia de coronavírus, conta que ficou isolado em Ponta Porã. Pela primeira vez em 50 anos, viu a fronteira fechada por “milicos paraguayos”. Estava num apartamento e começou a se sentir sufocado. Não tomava sol, se sentia cada vez mais pálido. Decidiu então fugir para Campo Grande antes que fechassem as estradas e ali continua, em uma casa com sua “biblioteca selvagem”.

Tive a sorte de organizar uma bela biblioteca selvagem para esperar o fim do mundo em Campo Grande. Divido a biblioteca por nacionalidades e temas. Numa parte estão os russos. Na outra parte, os livros de antropologia e literaturas indígenas que consegui no Paraguay. Em outra está la literatura brasileira. Ao lado, estão os mexicanos. Noutra parte, antropologia europeia e norte americana com tudo que encontrei de Lévi-Strauss e outros. Tenho uma parte com pensadores contemporâneos. Num canto estão os argentinos, Borges, Píglia, Aira, Gombrowicz e muitos outros. Noutra parte está la poesia, que ocupa espaço significativo. Depois está la parte dedicada às literaturas latino-americanas. Tem uma parte dedicada às histórias em quadrinhos. Tem uma parte dedicada a cinema. Tem uma parte dedicada a literatura infantil. Está a parte dedicada às literaturas chinesa e japonesa. Tem uma pequena parte dedicada à arte de escrever. Me encanta trabalhar nessa trincheira selvagem de livros."

Douglas com seu gato e plantas de sua casa em Campo Grande. Fotos: Acervo pessoal

Douglas conta que sua biblioteca com literatura do mundo inteiro lhe faz companhia enquanto o mundo fora continua interditado para o convívio social. Apesar de o isolamento significar tensão para muita gente, ele diz que enxerga a experiência como um período de descanso e autocuidado. E ainda encontra inspiração para produzir.

O escritor lembra que viajou muito em 2018 por causa do projeto Arte da Palavra, do Sesc, que promove oficinas pelo Brasil de estímulo à formação de leitores e divulgação de novos autores, e em 2019 compareceu a eventos literários no México e na Rússia. Em suas palavras, “já não parava mais em casa”. A quarentena pôs um freio nisso.

O isolamento também obrigou Douglas a ajustar os planos da Editora de Los Bugres, seu selo de publicações independentes que, a exemplo de todo o mercado editorial, já vinha sofrendo mudanças com o advento das plataformas de leitura digital. A necessária reorganização levou o escritor a adiar para o ano que vem o lançamento de publicações anteriormente previstas para este ano, mas ele não descarta liberar alguns livros digitalmente na quarentena. Questionado sobre que como pretende manter o funcionamento da editora, dá uma resposta clara e cheia de esperança:

Flores da casa do escritor no Mato Grosso do Sul. Fotos: Acervo pessoal

“Continuar trabalhando em casa. Não deixar que a chama se apague. Não podemos esquecer que tudo vai passar, nem que demore três anos. Mudou o mundo dentro de mim também. Agora sobreviver exige mais atenção. Todos levamos nossa morte dentro. Mas podemos matar os outros com mais facilidade. Agora necessito estar com os olhos mais abertos ainda. Tenho que cuidar da minha sobrevivência e não posso matar os outros. Quando saio de casa, uso luvas e máscara. O mundo está infectado. Qualquer descuido pode ser fatal. Lavo as mãos muito mais vezes do que lavava. Estou mais ligado. Evito ver TV. Ouço mais rádio para saber como está a situação do Brasil e de Campo Grande. Aceito o vírus. Respeito ele. Fico em casa.

Manter o fluxo de criatividade ativo e a normalidade da produção na quarentena virou privilégio no universo artístico. Nas declarações de Douglas e no poema inédito que ele mandou com exclusividade para o LabJor FAAP, nota-se o tom introspectivo e de reflexão sobre a existência trazido à tona pelo isolamento. A divisão do mundo ficou mais embaçada, a lupa sobre os seres humanos enquanto coletivo tomou distância, nos sentimos menores e, sob certa perspectiva, presos dentro de nós mesmos. Mas a vivência específica de paciência e reflexão do poeta não deixa de ser um respiro nesse contexto tão sufocante para tantos.

EXCLUSIVO: Confira o poema inédito enviado pelo escritor Douglas Diegues ao LabJor FAAP:

LOS DIOSES JUEGAN GOLFE NUM BURACO DENTRO DEL KORAZÓN DE LOS HUMANOS

La locura

de los deuses

tem mais sabiduría

que la inteligência humana

La locura

de los deuses

te protege mais

que la polícia militar y el Imperium Romano

La locura

de los deuses

te protege de la própria hybris

que significa la personificación de la estupidez infinita

La locura

de los deuses

es el LSD

que los espertos venden a los otários

La locura

de los deuses

non existe

pero arde como uma hoguera en los korazones humanos

•••••••

Los dioses

Son los dioses felizes

Porque non existem

Los dioses que non necessitam ser felizes

Felizes

Los que son felizes

Como los dioses que non existem

Los dioses que non necessitam ser felizes

•••••••

Los dioses

juegan golfe nel vazio

Pouco importa quem va a ganar

Pouco importa quem va a perder

Los planetas son las pelotas

Los humanos que dizem

que los dioses murieron de tédio

Todavia non sabem lo que dizem

Lo que importa obviamente

es que jugar

el golfe nel vazio

seja dibertido

Lo que importa obviamente

es que los planetas

sejam

las pelotas

Lo que importa obviamente

es que las pelotas

y los planetas

sejam redondos

porque

nim los humanos nim los dioses

podem jogar golfe

com pelotas quadradas

Carolina Menezes é aluna de Jornalismo da FAAP

--

--

Laboratório de produção de conteúdos jornalísticos do curso de Jornalismo da FAAP | Contato: labjor@faap.br

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store
LabJor FAAP

LabJor FAAP

276 Followers

Um laboratório de informação: Descobrimos e contamos histórias que dão sentido ao presente.