http://www.humorpolitico.com.br/governo-temer/nao-pense-trabalhe/ por Vitor Teixeira

Não pense em crise, trabalhe!

Pharaela
Pharaela
Sep 1, 2016 · 5 min read

É preciso acordar cedo, bastante cedo. É preciso levantar-se, lavar a cara, talvez tomar uma ducha fria e rápida, vestir-se, calçar os sapatos gastos, pentear-se, tomar um café da manhã - se ainda tiver tempo - e sair de casa. Esteja resfriado, ou não, faça chuva ou faça sol, ventania, temporal com granizo, etc, etc, é preciso sair. Então, depois que se sai de casa, é preciso andar, correr, pegar ônibus lotado, talvez correr atrás desse mesmo ônibus, ou então, ou também, pegar o metrô ou trem igualmente abarrotado de tanta gente. Se se torcesse um desses meios de transporte feito fossem toalhas, era bem capaz de escorrer suor, de tanto calor humano.

Mas voltemos ao que realmente importa. Depois que o cidadão seguiu todas as instruções dadas no parágrafo acima, ele provavelmente já deve ter chegado ao seu local de trabalho. Chegando lá então, o cidadão deve bater o ponto, arrumar-se, botar a roupa de serviço se esta for necessária (e se já não a colocou em casa), e exercer todas as suas funções. Talvez, ao longo do dia, ainda tenha que participar de alguma reunião. Sabemos que reuniões costumam ser muito chatas, mas elas são meras formalidades as quais devem ser respeitadas e, portanto, devem ser sempre convocadas, sim, senhor. Se possível, puxe o saco do seu chefe, bajule-o de todas as formas, sim, senhor!

Não reclame nunca do trabalho. Faça tudo o que lhe for mandado e imposto. Obedeça cegamente, sim. Faça cara de contente sempre. Adule mais um pouco os seus superiores. Não fale em crise, trabalhe. De vez em quando, converse sobre frivolidades com os colegas de trabalho e tome um café aguado feito pelo estagiário ou pela secretária, tanto faz. Mas não se esqueça do trabalho. Também não é pra relaxar! Não se esqueça daquele relatório que pediram há uma hora e você só tem mais quinze minutos pra entregar. E das pilhas de papéis e documentos sobre não se sabe mais o quê - a maioria inúteis, burocracia frívola, mas que a gente finge que é tudo importante - que é necessário que o colaborador da empresa dê um jeito neles, nem que seja pra botá-los no picotador de papéis.

Trabalhe, trabalhe bastante. Trabalhe, trabalhe e trabalhe. Quem sabe o cidadão não consegue uma promoção, um aumento de salário? Ou quem sabe o cidadão simplesmente não perca o emprego? Trabalhe, trabalhe muito. Mostre proatividade, chegue sempre no horário, nunca fique doente ou grávida (se se tratar de cidadã), nunca, em hipótese alguma, falte do trabalho. Não desrespeite nenhuma regra. E seja sempre eficiente: gastar recursos a mais nem pensar. Diversão e lazer? Nem pensar também. Dedique-se plenamente ao trabalho, pois o trabalho recompensa, o trabalho liberta. Talvez seja melhor parar de pensar também. Pensar muito só atrapalha, não atrapalha? Então não pense. Apenas trabalhe, pois é preciso bater metas, alcançar os objetivos da companhia.

E veja só como somos benévolos. Aos serviços prestados pelo cidadão ou cidadã, pagamos-lhe um salário justo, com ótimos benefícios - todos devidamente descontados na folha de pagamento, mas, veja bem... o cidadão deve compreender de que não é nada fácil para nós senhores empresários manter tudo isso em pé - onde é que estávamos mesmo? Ah, sim. Benefícios como vale transporte, vale refeição, seguro-saúde... opa, o seguro-saúde foi retirado da lista de benefícios no mês passado, é mesmo. Mesmo assim, os benefícios ainda estão muito bons, realmente muito bons. Tanta gente por aí desempregada e que sonha com um salário-mínimo, e o colaborador aqui, recebendo um bom salário, além de benefícios! E o trabalho também não é nada ruim, não é mesmo? Não tem nada do que reclamar, não é mesmo? É perfeito, estamos no céu.

Olha, só. Até damos uma hora de almoço. Não é maravilhoso? Agora corre, vai lá comer alguma coisa que saco vazio não para em pé, já diz o ditado. Vamos, vamos! Que o tempo não espera ninguém, e o serviço continua aumentando mais e mais, sem parar.

O cidadão então deve almoçar. Na verdade, deve engolir a comida. Quanto mais rápido melhor, pra voltar mais cedo para o escritório. Nada de ficar enrolando. Há muitos afazeres, tarefas a serem cumpridas, planilhas a serem preenchidas. É preciso estar atento sempre ao relógio. Quantas pessoas não dariam tudo para estarem no seu lugar, hein?

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Já comeu? Muito bem. Agora voltemos ao que interessa. Sente-se na sua cadeira e mãos à obra. Produtividade, produtividade. É preciso bater metas, traçar planos, realizar projetos, beijar os pés dos chefes uma hora e outra. Trabalhe bastante, trabalhe muito. Entregue-se de corpo e alma. Sirva-nos bem e o recompensaremos bem. Não se esqueça, nunca se esqueça de que muitos gostariam de estar no seu lugar, gente nova, mais educada, mais bem treinada, e cheia de energia e vontade de labutar. Inclusive já abrimos um novo processo de seleção de recursos humanos. Mas não se preocupe. Sua vaga ainda está garantida, pelo menos por enquanto. Sabe o quanto somos bondosos, não sabe?

Toma aqui mais um copinho de café. Bom, não é? Não precisa nem dizer a verdade. Apenas tome tudo e faça cara de quem gostou. Isso, assim mesmo. Viu como é fácil? Toma aqui também essa aspirina se estiver com alguma dor. Faça uns alongamentos agora, só não se demore, pois é necessário mostrar rendimento alto. Por que você está aí parado, senhor cidadão? Vamos, vamos! Ao trabalho!

É preciso trabalhar. Trabalhar sempre. Trabalhar sem parar. Mostrar serviço. O trabalho liberta o homem, meu caro. Nunca se esqueça disso. Os lucros dependem disso. O seu salário depende disso. A sua vida depende disso. Nunca se esqueça. E nada de se queixar, muito menos ouse reivindicar qualquer coisa. O cidadão tem compromissos sérios e deve cumpri-los, sim. O negócio é foco. Faça tudo o que lhe ordenamos e mais um pouco e tudo estará bem. O emprego continuará sendo seu, todo seu. Imagina só. Tanta gente por aí, tendo que viver de bicos, até passando fome, tendo que pedir dinheiro emprestado dos parentes ou do banco... e o colaborador aí, fazendo corpo mole. Vê se pode? Vamos, vamos! Ao trabalho!

30 de agosto, 2016

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