Som e representatividade

Banda potiguar inova o cenário cultural da cidade e mostra a força da mulher na música.

Por Danielle Lima e Virgínia Fróes

Da esquerda para a direita: Paula, Yasmin, Mariana, Priscila, Amanda, Maria e Lorena com seus respectivos instrumentos (Foto: Danielle Lima)

Era uma noite de quarta-feira quando a vocalista Paula Laurentino nos recebeu para acompanhar o ensaio da banda SPGD em seu apartamento. 
Sob um clima muito descontraído com direito a rede, riso e improviso, a banda potiguar de pagode conversou sobre a sua trajetória, visibilidade feminina, cena local e seus planos futuros.

A banda é composta oficialmente por sete mulheres: Paula Laurentino, 26 (vocal), Yasmin Pires, 21 (pandeiro), Mariana Praxedes, 26 (percussão), Priscilla Azevedo, 27 (percussão), Amanda Medeiros, 32 (percussão), Pipa Dantas, 27 (violão) e Lorena Azevedo, 30 (cavaquinho). 
Atualmente, com o breve afastamento da musicista Pipa Dantas por problemas de saúde, Maria Fontes, 27, vêm se responsabilizado pelo violão da banda e é ela quem nos acompanha nessa entrevista.

“A ideia da banda começou com um tweet meu” conta a atual percussionista Mariana.

A jovem brincou no Twitter dizendo que gostaria de ter uma banda de pagode composta apenas por mulheres e que se chamaria “Sapagode”. A partir disso, algumas meninas se interessaram pela ideia e após algumas semanas iniciaram os ensaios. Sobre a origem do nome da banda, Paula responde: “Pensamos inicialmente em algo como ‘Só Pagode’ ou ‘Samba e Pagode’, mas concordamos que esse título talvez ficasse muito restrito. Oficialmente somos a SPGD, esse nome engloba todas as características que queríamos, além das brincadeiras que fazemos como ‘Só Garotas Doidas’, afirma.

Com a convivência nos ensaios e shows, a amizade se fortaleceu e é possível ver esse sentimento nas brincadeiras e risadas durante a entrevista. 
A afinidade e o companheirismo que unem a banda são elementos essenciais para fazer dela um sucesso. Às vezes conflitos acontecem “É natural porque somos sete, as opiniões vão divergir em um momento ou outro, mas sempre foi muito tranquilo conversar e chegar à um consenso. Apesar de que às vezes acaba todo mundo de TPM no mesmo ensaio.”, acrescenta Paula de forma divertida.

Sentindo essa sintonia, começamos a conversar sobre sororidade e a integrante Mariana dá inicio contando a história de sua breve passagem por outra banda onde ela era a única participante do sexo feminino. “Eu noto muito a diferença em ter uma banda só de mulheres. Antes era muito difícil lidar com os meninos porque eles eram totalmente displicentes. Acontecia muito de eu falar alguma coisa e eles não levarem à sério. Agora é diferente, existe a hora de brincar e a hora de fazer a coisa certa.”

É visível que na SPGD, existe muita empatia entre as integrantes e de acordo com as elas, assim fica mais fácil se sentir à vontade, além de menos pressionada. Paula que também já vivenciou situações parecidas em projetos anteriores comenta que sentia que sua opinião nunca era ouvida: “Na banda atual, mesmo sem ter muita intimidade com as meninas nos primeiros ensaios, foi muito mais fácil se sentir acolhida”, diz.

Com o desenrolar da conversa, Priscilla comenta sobre a diferença no convívio entre homens e mulheres: “Eu acho que entre os homens, existe a necessidade de uma hierarquia, a existência do macho-alfa, enquanto na SPGD existe uma ‘horizontalidade’. Ninguém tem mais voz ou mais razão. Somos todas iguais, independentemente de qualquer coisa.” Esse tipo de relacionamento beneficia a banda como um todo, a maior prova disso é a rápida evolução do grupo que em menos de um ano de existência já tem a agenda lotada e com frequência realiza shows nas principais festas da cidade.

PODER FEMININO

Caderno com letras de músicas que acompanha a vocalista durante os seus ensaios (Foto: Virgínia Froés)

Com a maioria das bandas de pagode sendo compostas por homens, a existência da SPGD representa uma resistência. Os desafios são constantes, assim como os preconceitos. “Acontece muito com pessoal do som que nos olha de maneira estranha quando veem tantas mulheres tocando juntas. Quando começamos o show, eles sempre fazem uma cara de ‘caramba!’, aí tiram o celular e começam a filmar. A apresentação acaba e eles vêm falar conosco coisas do tipo ‘massa o som de vocês’ mas é quase sempre com um tom de surpresa que incomoda.” Esse tipo de reação não é exclusiva de quem cuida da parte técnica do show. Amigos e conhecidos das integrantes também fazem elogios à banda com o mesmo tom de assombro, como se fosse praticamente impossível que um grupo de mulheres pudesse fazer música de qualidade. E é nesse espaço tão difícil de entrar e se destacar que a SPGD faz questão de valorizar a mulher.

A banda tem uma maioria lésbica entre as suas integrantes porém nenhuma delas quer que as pessoas foquem apenas na questão da sexualidade.
 “Pra mim é mais importante que o público nos veja como uma banda de mulheres do que uma banda de mulheres lésbicas, até mesmo para evitar a fetichização.” reforça Priscilla. Mesmo assim, elas sabem como a questão da representatividade é relevante. Yasmin, pandeirista e caçula da banda, compartilha: “Nós levantamos a bandeira feminista assim como a bandeira lésbica, temos consciência do quanto essa representatividade é essencial.”

Na hora de falar sobre a mulher no meio artístico, as opiniões das integrantes são semelhantes: as mulheres precisam e merecem ocupar o espaço que é delas por direito. Infelizmente, muitas ainda acreditam que são incapazes de realizarem os seus objetivos, o que é resultado de uma socialização machista que martela incessantemente durante toda a nossa vida.
“Existe um patriarcado que nos força a acreditar que somos incapazes, que a gente nasce e cresce somente para ser bonita e pra mostrar os nossos atributos físicos, temos sempre que reafirmar a nossa capacidade.” comenta Yasmin

O que a SPGD busca é por meio da música, inspirar e incentivar as mulheres a se mostrarem para o mundo, sem ter medo de ser quem realmente são.
É importante que elas se sintam representadas, principalmente no meio musical onde os homens ainda são a maioria esmagadora.

CENA LOCAL

Mariana e sua Rebolo Contemporânea (Foto: Virgínia Froés)

Quando questionada sobre a cena musical da cidade, Paula afirma que é muito importante valorizar os artistas potiguares. “Temos muita coisa boa na música, no audiovisual, no teatro e nas artes. É importante que esses artistas tenham mais visibilidade.” Segundo ela, há uma certa síndrome de ‘vira-lata’ que consiste em valorizar apenas a cultura vinda de fora, enfraquecendo os produtores locais.

“Temos ótimos artistas e é triste que muitos tenham que se deslocar para outros estados para conseguir mais visibilidade” completa Priscilla.

A falta de apoio do governo e o insuficiente reconhecimento público, desestimula os artistas que por vezes optam por migrar para centros urbanos maiores com o objetivo de ganhar mais notoriedade com o que fazem. 
“Seria maravilhoso para todos os potiguares se passássemos a valorizar mais e cobrar de nossos governantes incentivos básicos à cultura. Permitir que a Ribeira, berço de grande parte das bandas natalenses, seja um local mais habitável, por exemplo, com segurança e estrutura adequada para eventos”.

O FUTURO DA SPGD

A SPGD faz covers de pagode e samba, além de uma ocasional “grea”, como elas mesmo gostam de chamar, tocando as músicas que estão bombando no momento. Uma das coisas mais interessantes nos shows é ver que a banda consegue reunir pessoas dos mais variados estilos e sexualidades.
É possível ver héteros, gays, lésbicas, drags, roqueiros, funkeiros, se divertindo juntos ao som do pagode. Elas vêem isso como algo muito positivo, uma forma de quebrar vários tipos de preconceitos, sejam eles musicais, sexuais ou de gênero.

Agora elas querem ir mais além, já possuem três músicas autorais e pretendem continuar nesse ritmo de composição. As duas primeiras, “Samba de Mergulho” e “Sereia” contam históricas românticas, enquanto a mais nova música “Só Se Ela Quiser”, fala sobre respeitar a mulher e o seu espaço. 
Paula é quem participa mais ativamente nesse processo: “Eu sempre escrevi e pra mim é uma coisa muito de ‘feeling’. Eu pego o violão e geralmente componho a letra e a música ao mesmo tempo.”

Porém, como tudo na SPGD, a união faz a força e as outras integrantes também dão o seu toque na criação das autorais. É uma nova experiência mas todas fazem o possível para contribuir, seja com opiniões técnicas sobre sons e instrumentos ou sobre a letra das composições.
Amanda adquiriu experiências de composição com a sua banda anterior, Lorena cria os solos e cada uma faz a sua parte. Através desse trabalho de equipe, a banda tem planos de lançar um EP em 2018 com músicas autorais voltadas a temática feminista, além de contar com a participação de outras artistas da cena musical potiguar.

A existência da SPGD na música simboliza resistência. Em um mundo dominado por homens, as integrantes deixam um recado para as mulheres que pensam em se aventurar nesse mundo: “Acreditem no seu potencial e se joguem! Não existem nada que as mulheres não possam fazer. E procurem apoio nas suas amigas porque juntas somos mais fortes.”

Trecho de uma das apresentações da banda (Imagens: Denilson Tavares, Judson Costa e Diego Santos. Edição: Luciano Azevedo.)