O doce peso do não dito
Acordo meio grogue, com resquícios da dor de cabeça do dia anterior. Sinto os dois edredons pesados em cima de mim. O corpo, também pesado, tem dificuldade pra se mexer e se descobrir. Quem diabos resolveu mudar a lei da gravidade justo hoje?
A vontade é de ficar ali, quietinho, no meu casulo protetor. Viro pra um lado, viro pro outro, me perco na brincadeira de tentar lembrar do meus sonhos. A batata doce gigante colhida do asfalto vai virando a batata doce do almoço de ontem que vai virando a preocupação com o tempo do almoço que vai virando lembrança das obrigações do dia por vir. De alguma forma a sopinha de significados na minha cabeça me mobiliza a levantar e enfrentar a vida. Realmente, tem dias que chamar a vida de luta faz sentido. Coloco o relógio no pulso, já é quase meio dia.
Chego na cozinha e decido já pular pra preparação do almoço, mesmo com a fome imediata que seria sanada rapidamente com um pão com manteiga. Lembro da escarola quase estragando. Pedida perfeita pra juntar com os maravilhosos restos de ontem e fazer o almoço perfeito pro ritmo preguiçoso. Pra ir tapeando a fome, recorro a uma caixa de Bis que tá ali perto; como três pra começar. Male-male separo as folhas da escarola, tirando os pedaços já meio mofados. Coloco numa bacia cheia de água e me convenço: isso será o suficiente pra limpar. Afinal, quem é que tem saco pra lavar folha por folha? A natureza é linda, comer uma terrinha não pega nada. Como mais quatro Bis. Corto uma cebolinha que já tava quase nas últimas e fico esperançoso com a qualidade do rango que está por vir. Dou uma balançadinha nas folhas semi-lavadas e jogo na panela. Como mais três Bis. Tudo certo. Abro o pote de temperos e quando volto, percebo algo se mexendo na panela. É claro que bem hoje, que acordo um lixo, e resolvo não olhar a escarola com rigor de vigilância sanitária, tem que ter um bichano na comida. Sem pensar, vou e meto a mão na folha larventa dentro da panela. Consigo tira-la, mas com o custo de queimar a mão de leve. Cadê o bendito ser viscoso-mas-gostoso? Não consigo achar em lugar nenhum. Será que caiu dentro da panela mesmo? No chão? Dá-lhe procurar. Resignado, decido jogar tudo fora com dor no coração. Acabo comendo o que tinha mesmo. De sobremesa, mais Bis e um tanto de doce de leite.
Ainda sentindo um peso, saindo de um olhar perdido, coloco a mão meio que automaticamente para o lado, e procuro com os dedos o celular. Eles já sabem exatamente onde ir na telinha: dois toques e estou no Youtube. Não tenho nem ideia de quanto tempo fiquei ali, mas pode ter sido coisa de uma hora entre Porta dos Fundos, os dez maiores dribles do Ronaldinho Gaúcho e grandes lances do campeonato europeu de Team Fortress 2. Sou interrompido por uma visita inesperada; escuto a campainha e a voz do meu sogro “Tá aí, Pedrão?” A minha dignidade, que provavelmente estava junto com a larva da escarola sabe-se lá onde, volta de sopetão e atendo a porta. Talvez não tenha voltado tanto, porque ele logo disse, depois de perguntar da saúde do meu pai e eu abaixar a cabeça e dar de ombros: “Tem que ser forte, Pedrão.” Trocamos algumas amenidades, ele deixou a chave do carro que tinha levado pra consertar.
Precisou disso pra me dar conta que eu tava precisando de ajuda pra lidar com a tristeza e o medo de perder o pai pro time do outro lado da existência. Decido meditar. Pego uma meditação guiada de auto-compaixão num aplicativo e deito pra fazê-la. Muitas palavras sobre auto-cuidado, “esse é um tempo pra você” e coisas do tipo. Cochilo, talvez por cinco minutos. Me sinto melhor. Ligo pro meu irmão e digo que vou me atrasar pra visita no hospital “Vai entrando que eu chego depois” “Beleza, até já.”
Vou conversando comigo mesmo enquanto me preparo pra sair: por que está assim? O que tá pegando? Me permito reconhecer a tristeza e a ansiedade. A história da minha relação com o meu pai vai rebobinando, desde criança até os tempos recentes. Sofri bastante com o ressentimento que tinha dele “nunca ter se importado comigo”. Agora que estamos nos entendendo e aproveitando a companhia um do outro ele vai morrer? Puta merda.
Finalmente saio. Uma tarde fria, mas ensolarada. O ventinho gelado na cara começa a reverter o trabalho do sem noção que mudou a lei da gravidade mais cedo. No ônibus, grudo a cara na janela e vou alternando o meu entretenimento entre me perder nas minhas próprias fantasias e observar o caminho.
Chego na porta do hospital e uma fila gigantesca me espera. Ligo pro meu irmão e ele me diz que está na fila também, lá na frente. “Levanta a mão aí!” De repente, naquele mar de gente, aparece um rosto conhecido e com ele, uma sensação gostosa de companhia. Adoro a experiência de ver alguém longe e falar com ela por telefone; dá a impressão que tudo pára e só existem os dois que falam e conseguem se ver também. Decido entrar no final da fila mesmo; compro a minha própria historinha de que é melhor ser um bom cidadão e se adequar aos processos, do que pedir pras pessoas da fila pra entrar com o meu irmão e correr o risco de me indispor naquele estado letárgico em que eu estava. Confesso que vem até aquela coisa “Nossa, como você é um ser moralmente excelente, Pedro”. Enfim, fico lá na fila até meu irmão ser atendido e, na volta, me dizer que só tem uma visita por dia. Decido continuar lá e tentar falar com o atendente que tinha conhecido no dia anterior pra ver se tem algum outro jeito de tentar visitar o meu pai. Não tem.
Fico um pouco frustrado, mas penso que pelo menos tinha dado pro meu irmão o livro que tinha trazido pro meu pai. Não foi tudo em vão. Da recepção do hospital ligo pro meu irmão e peço pra falar com o meu pai.
“E aí, como cê tá?”
“Marromeno, meio fraco, ainda sangrando, mas tranquilo. Ninguém achou nada ainda, mas vou fazer mais alguns exames amanhã. E você, como tá?”
Naquele microssegundo toda a história do dia foi passando na minha cabeça — “Tô triste, pai”
“O que foi?”
“Ah, com isso tudo, com você aí. Sem saber o que tá rolando. Tô preocupado.”
“Fica assim não, filhão. Tava conversando aqui com meu vizinho de cama e ele falou que provavelmente não é nada, que ele já tinha passado por isso…”
“Puxa, que bom. Vamos esperar e ver o que rola né…” Dou uma respirada funda que enche o peito e desliga o cérebro um pouquinho e digo “Pai, te amo.” Sinto umas lágrimas vindo e já interrompo “Fica vivo, porra”
“Eu também te amo, filho, vou ficar bem”

Ao mesmo tempo em que eu ainda me sentia uma gosma, conseguir declarar aquilo me deu um certo alívio e alegria. Uma pequena vitória contra todas as armaduras ressentidas que o Pedrinho foi colocando pra não se machucar de amor.
Pra não perder a viagem, ainda sem pensar sobre o ocorrido, vou doar sangue. Brinco com as enfermeiras que vão medir a minha anemia: “Comi muita beterraba hoje, devo estar bem! Minha avó não mente!” Elas dão risada. No fim, não pude doar. Estive em Belo Horizonte e lá teve febre amarela. Contei pro meu irmão que não tinha dado porque fiz várias tatuagens na última viagem; não podia perder a piada. Saio tranquilo e me estranho com a contradição desse bom humor aparente com o cenário meio macabro do hospital.
Volto pra casa e encontro a Rita, minha companheira. Agora dizer que declarei amor ao meu pai já não é tão difícil, já não tem mais tanta vergonha nem tanto medo, apesar de sentir uma mini-hesitação antes de contar a ela. A apreensão de não saber como ela receberia se dissipa nos trinta segundos de abraço apertado, em silêncio. Ela me faz um cafuné e diz “Tô aqui”.
O que você escuta da sua vontade incontrolável de comer doces? Ou da dificuldade de levantar da cama?
Me deparo com perguntas como essas com certa frequência e elas fazem parte da eterna pesquisa do que é que eu tô tentando esconder de mim mesmo e porquê. A experiência tem me mostrado que compartilhar histórias como essa tem efeitos de mão-dupla: ao processar o que vivi, entendo um pouco mais e me alivio por tirar aquilo de dentro de mim; quem me escuta às vezes se identifica e aprende um pouco sobre si também.
Tive sorte de encontrar outras pessoas que compartilham dessa pesquisa, cada um do seu jeito, lá no Laboratório de Escuta e Convivência. Como parte da nossa investigação, decidimos compartilhar isso com você também e ter mais companhia nas descobertas sobre o que, afinal, é escutar?

