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Eu não quero mais ouvir sobre "síndrome de impostora"

​Resolvi escrever inspirada pelo artigo “Pare de dizer às mulheres que elas têm a síndrome da Impostora (que eu não consigo parar de compartilhar quando vejo por aí), e também porque não aguento mais ver as constantes palestras ou rodas de conversa com o tema “síndrome de impostora” em todo grupo de mulheres que acompanho.

É muito triste que mulheres brilhantes se sentem impostoras enquanto homens medíocres ocupam os cargos mais importantes mundo afora.

Ganhe o dia com a confiança desmerecida de um homem branco medíocre — Camiseta: Seize the day

A Michelle Obama disse que esteve em todas as mesas com poderosos que podemos imaginar, que trabalhou em ONGs, esteve em fundações, trabalhou corporações, ocupou diretorias, esteve em reuniões de cúpula mundiais, e ocupou um lugar nas Nações Unidas, e afirmou que esses homens não são tão inteligentes. Mas mesmo assim ela também diz que sofreu com a “Síndrome de Impostora”

Os sinônimos da palavra impostor de acordo com os dicionários é mentiroso, falso ou falsário. Essa síndrome então faria com que nos sentíssemos uma farsa, não pertencentes ao grupo ao nosso redor.

Mas como não se sentir uma impostora em ambiente em que não nos vemos representadas, não temos uma identificação com o entorno, não vemos pessoas como nós em cargos de liderança, e às vezes somos a única representante de toda uma classe (mulheres, negras, indígenas, imigrantes, LGBTQ, …) mesmo entre colegas em cargos do mesmo nível?

Como não se sentir uma impostora, se parece que há um degrau quebrado (broken hung) na escada da nossa carreira? Se parece haver uma barreira invisível que impede indivíduos de certos grupos de serem promovidos, independentemente de méritos e qualificações, geralmente mencionado em casos de sexismo, conhecido como teto de vidro (glass ceiling).

Como não se sentir uma impostora se mulheres são colocadas em cargos altos propositalmente em momentos que empresas percebem que o “barco está afundando” e todos poderão vê-la cair desse “penhasco de vidro” (glass cliff)?

Representação por papel na corporação, dividido por sexo e raça, 2021, % dos empregados (na ordem de cima para baixo: mulheres branca, mulheres racializadas, homens racializados, homens brancos — cargos, da esquerda para a direita: cago inicial, gerente, gerente sênior/diretor, vice-presidente, vice presidente sênior, cargo nível C) — Fonte: https://www.mckinsey.com/featured-insights/diversity-and-inclusion/women-in-the-workplace

Como não se sentir uma impostora quando parece que fomos contratadas para preencher a cota de representatividade (ou token hire), sendo o novo “token” ou bibelô que será usado de argumento que a empresa é sim inclusiva?

Como não se sentir uma impostora quando temos que mudar de área ou abrir a própria empresa para progredir na carreira ou ter algum tipo de oportunidade?

1 a cada 3 pessoas negras, indígenas ou racializadas mudou de setor devido a falta de mobilidade ou crescimento na carreira. Probabilidade de ter mudado de setor ou direção na carreira comparado à colegas brancos: Indígenas: 2x, Afro-/Hispano-/Latino-Americanos: 1,5x, Sul-asiáticos: 3x, Multi-raciais: 2,5%. — Fonte: https://www.stateofinequity.wearehue.org/

Como não se sentir uma impostora quando não nos sentimos confortáveis ou seguras no ambiente de trabalho e somos vítimas constantes de assédio, micro e macro-agressões?

Como não se sentir uma impostora quando não compartilhamos os ânimos dos colegas, que se sentem representados e confortáveis no ambiente de trabalho, de voltar ao trabalho no escritório?

Como não se sentir uma impostora quando tantas mulheres iniciantes na carreira quanto em posições sênior tem suas decisões questionadas em suas áreas de expertise?

Deixe-me interromper sua expertise com minha confiança — Ilustração: J.A.K. para o New Yorker

Falando agora de tecnologia, como não se sentir uma impostora nesse “Clube do Bolinha”?

Como não se sentir uma impostora se na sua área mulheres são sub-representadas, e se levarmos em conta a etnia podemos ser a minoria da minoria no mercado mundial?

Como não se sentir uma impostora em uma área tão não-inclusiva em que metade das mulheres até os 35 anos a abandonam?

Como não se sentir uma impostora se nesse ritmo só conseguiríamos ser igualmente representadas daqui a mais de uma década?

Volto agora com um trecho traduzido do artigo que mencionei:

O impacto do racismo sistêmico, classismo, xenofobia e outros preconceitos estava categoricamente ausente quando o conceito de síndrome da Impostora foi desenvolvida. Muitos grupos foram excluídos do estudo, a saber, mulheres de cor e pessoas de vários níveis de renda, gêneros e experiências profissionais. Mesmo como a conhecemos hoje, a síndrome da impostora coloca a culpa nos indivíduos, sem levar em conta os contextos históricos e culturais que são fundamentais para como ela se manifesta em mulheres de cor e mulheres brancas. A síndrome da Impostora direciona nossa visão para consertar as mulheres no trabalho, em vez de consertar os lugares onde as mulheres trabalham.

(Aqui tem uma versão traduzida do artigo completo)

Talvez não tenha nada de errado com você- Talvez seja realmente difícil existir em um sistema que não foi projetado para apoiar um espírito como o seu. — Imagem: instagram.com/consciousconversations__

Quando vamos parar de colocar a culpa nas mulheres pelas questões estruturais que estamos lutando contra a tanto tempo?

O problema não está em nós, está nesses ambientes, nessa estrutura. E é isso que precisa mudar, não a gente!

Eu não quero mais uma roda de conversa sobre síndrome de impostora, eu quero saber o que as empresas estão fazendo sobre inclusão, sobre diversidade, sobre maternidade, sobre igualdade salarial, sobre ações afirmativas, sobre a conscientização dos seus preconceitos, sobre como combatem a discriminação, sobre como lidam com casos de assédio, …

É sobre isso que eu quero ouvir. Eu quero ouvir sobre mudança.

Artigos referenciados no texto (em inglês):

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Conteúdo em português da Comunidade Ladies That UX

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Lia Rodrigues

Lia Rodrigues

UX/UI Designer | Freelance Translator | Bot and VUI enthusiast | Interested in design and technology | Talk nerdy to me

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