A história de Tina e Ike Turner: o que o amor tem a ver com violência?

Por cerca de dezesseis anos, Tina Turner esteve confusa e possuía um olhar atordoado. Muitos destes anos coincidiram com momentos em que esteve no auge de sua carreira, estampando revistas e sorrindo em entrevistas. Por mais que nós, os fãs, não percebêssemos nitidamente sua aflição, depois de dezesseis anos de cárcere, Tina Turner trouxe com “What’s Love Got to Do With It?”, ou “O que o amor tem a ver com isso?” uma novidade que não era segredo pra quase ninguém: Tina, cujo verdadeiro nome é Anna Mae, foi uma daquelas mulheres que neutralizou a dor da violência doméstica, maquiando-se com disfarces e perucas para esconder da família, dos filhos e dos fãs as marcas de agressão e estupro que Ike Turner, seu marido, a submeteu.

A história de Ike e Tina está longe de ser um exemplo excepcional. É a tão característica história de milhares de mulheres aparentemente bem sucedidas, comunicativas, vaidosas e perspicazes que parecem deter o mundo na palma das mãos — enquanto elas próprias vivem esmagadas pelos punhos de seus companheiros.

Ike Turner foi um grande algoz na vida pessoal e na carreira de Tina, e usou do “incentivo artístico” como justificativa para muitos dos excessos e agressões que cometia contra a esposa, “em nome da arte”. Quando se conheceram, Anna Mae era uma tímida jovem de dezenove anos que sequer considerava um dia ostentar um legado ou um nome como o de “Tina Turner”. Ike já era casado e pai de dois garotos. Tinha vinte e sete anos e tocava numa banda que Tina admirava às escondidas, num bar que frequentava clandestinamente. Não pegava bem, para garotas como ela, ir a lugares assim.

É verdade que Ike Turner foi um componente musical na vida de Tina, já que até então ela era uma enfermeira jovem que era encantada por música, mas não conhecia absolutamente nada sobre instrumentos, vocalização ou produção. Ike Turner foi uma referência técnica na criação de uma cantora sublime e nata — e somente isso.

A primeira gravação de Tina foi um acidente: um vocalista da banda de Ike havia faltado ao ensaio e ela insistiu ardentemente para cantar. O demo era tão poderoso que os produtores insistiram para que Ike enviasse o material para o presidente da Sue Records. Apenas uma gravação. Apenas uma música na voz de uma enfermeira jovem e ansiosa foi comprada por vinte e cinco mil dólares e ali foi o início do que viria a ser Tina Turner. Ike continuava tentando, mas Tina já era uma estrela.

E este fato — este considerável, grande e ao mesmo tempo insignificante fato — transformou-se no início de uma prisão psicológica versus exploração física, artística e sexual que permeou pelo menos dezesseis anos da vida de Tina Turner: enquanto seu esposo ansiava por ser uma estrela, ela simplesmente já era.

Num mundo artístico predominantemente machista, num ambiente de R&B sem espaço para solidariedades, Ike Turner acompanhou a carreira estelar de Tina Turner como seu “proprietário”. Até o nome “Tina” ele lhe dera, em conjunto com seu sobrenome, Turner. Em seguida, lhe dera uma aliança e, na mente da jovem adolescente, o sonho americano de viver da música ao lado de seu grande amor não soou como uma sentença prisional. Todos os acordos comerciais passavam pelo crivo de Ike — mesmo aqueles que buscavam exclusivamente a cantora. Era ele quem determinava o que ela cantava e para quem cantava. Mas toda a mão de ferro de Ike não conseguiu impedir que o talento e a originalidade de Tina sobressaíssem.

Ele tentou, mas não pôde apagá-la.

É notório o fenômeno recente da competição profissional entre casais. Recente porque só há pouquíssimo tempo as mulheres passaram a ocupar cargos semelhantes aos dos homens (e em homens, leia-se “esposos”). E notório porque os homens ainda não estão sabendo lidar com isso. O fato da mulher dialogar com ele com argumento de igual para igual em termos profissionais, muitas vezes o faz sentir como se tivesse perdido parte de seu domínio sobre um território antes só dele. E neste caso, era como se Ike tivesse perdido parte de sua virtude musical com a ascensão espacial da esposa.

E o grande problema é que isso não está sendo tratado nos consultórios psiquiátricos ou terapêuticos, mas está sendo tratado à maneira antiga, dentro de casa, na ponta da faca ou no estalo da cinta. A dificuldade do homem em conviver com o sucesso da esposa, que pode ser maior, mais amplo e mais popular do que o dele, recai cada vez mais sobre a violência doméstica. E é por isso que existem aquelas belas e incríveis mulheres, donas de si, que encabeçam grandes responsabilidades, abraçam projetos e se dedicam fielmente aos cargos, mantendo uma larga imagem de “mulheres bem sucedidas”.

Quantas delas, no entanto, chegam em casa e rebaixam o olhar às aprovações do marido, sendo que muitos desses preferem ver a morte a terem que ver suas esposas em escala maior. Com salário maior. Com alcance maior.

“What’s Love Got to Do With It?” é um hino da superação da violência doméstica e do cárcere psicológico imposto à cantora Tina Turner durante seu casamento com Ike. Este foi o primeiro grande single emplacado pela cantora após a separação definitiva do ex- marido e se tornou a número 1. “O que o amor tem a ver com isso?” é um grande questionamento sobre tudo aquilo que confundiu Tina por anos.

O que teria a ver o amor com a agressão? Com a competitividade aniquiladora, com a dor? A música marcou o fim da era “Ike & Tina Turner” e consagrou o início revigorante da então bem sucedida Tina Turner. Tina mostrou a todas nós que ser bem sucedida não é fazer caminhões de dinheiro e padecer entre hematomas, sangue e xingamentos. O bom sucesso vem de nós, e daquilo que não permitimos mais que nos façam.

“Eu li em algum lugar que tenho motivos pra isso”.


Originally published at www.siteladom.com.br on May 23, 2016.