Anitta está dominando o mundo e ela merece, querida!

Quem vê Anitta hoje lançando vários sucessos, expandindo a carreira e sendo a protagonista de brincadeiras como “Anitta está dominando o mundo” ou “Todo dia uma notícia nova da Anitta lacrando” pode deixar passar batido o fato de que ela enfrentou e enfrenta muito preconceito e de que, cada dia mais, toma para si a posição de alguém que busca empoderamento e a quebra de padrões, tabus e preconceitos.
A carreira artística da cantora de 24 anos começou no funk, um cenário musical que já carrega consigo muitos preconceitos, inclusive de cor e de classe, além de ser associado quase que exclusivamente as letras machistas ou de ostentação. Não podemos negar as inúmeras problemáticas do funk, como a sexualização da mulher- que, verdade seja dita, não acontece apenas com esse gênero musical. No entanto, também não devemos ignorar a desconstrução que vem acontecendo no meio. Há algum tempo temos visto mulheres como Valesca Popozuda cantarem que “tá pra nascer homem que vai mandar em mim”.
Anitta, assim como o funk no geral, tem passado por um processo de desconstrução. No final de 2014, quando Pitty rebateu seu posicionamento conservador sobre liberdade sexual da mulher no programa Altas Horas a internet não a perdoou. Muita gente fala besteira na TV, mas Anitta aparentemente não tinha esse direito. Esse é um episódio que serve para demonstrar que quanto mais fama ela alcançava, mais era preciso se empoderar e transmitir essa mensagem. As pessoas não estavam abertas a uma jovem mulher que cantava funk, que tinha origem humilde e que estava aprendendo a lidar com a fama, com a carreira e consigo mesma. Ali no Altas Horas Pitty quis argumentar, ela já tinha uma bagagem feminista de desconstrução, e, quem sabe, abrir os horizontes de Anitta, enquanto o mundo queria humilhá-la transformando aquilo em rivalidade, um duelo com vencedora e perdedora.
Outro episódio importante de ser mencionado, foi a presença da cantora na cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016, onde dividiu o palco com Gil e Caetano. Aqui as pessoas encheram a boca para dizer que ela não era digna de cantar com esses dois grandes nomes da música brasileira. Ora, o funk não faz parte da cultura brasileira assim como a MPB? Não é muito válido, então, que uma mulher ocupe esse espaço e represente essa vertente da música?
O que acontece é que, apesar de todas as tentativas de boicote da indústria musical, da segregação pelo estilo, da desaprovação da imagem da Anitta funkeira que teve que se reinventar para ser aceita, dos não convites para festivais de música e de todas as críticas, Anitta é forte, versátil, destemida, sabe o que quer e não dá moleza para a oposição. Agora, além de cantora é também empresária, conduz a própria carreira e articula sua comunicação. Mede os próprios passos, avança no que deseja e age como quer. Anitta foi obrigada a se empoderar para sobreviver e seguir seu sonho.
Em entrevista a Pedro Bial ela falou sobre preconceito e carreira internacional:
“Aqui no Brasil ainda existe muito preconceito comigo por conta do ritmo de onde eu vim, por ser jovem, por já ter feito plástica e assumir, por eu dançar, rebolar e ser sensual e por fazer sucesso com um ritmo popular que, infelizmente no Brasil, ainda é ligado a falta de instrução, de educação, inteligência, respeito. E também (existe preconceito) com o fato de eu vender autoconfiança. Eu vendo autoconfiança e autoestima para as mulheres e as pessoas confundem muito autoconfiança com você se achar, com prepotência e não tem nada a ver uma coisa com a outra. Você pode ser humilde e autoconfiante. Você pode saber das suas qualidades e ser humilde ao mesmo tempo. E aí primeiro eu precisava quebrar um pouco esse preconceito no Brasil porque pra conseguir lá fora é um mercado muito competitivo, muito caro. Eu vim do nada, da favela, eu não tenho ninguém injetando milhões de dólares em mim, quem faz o dinheiro pra investir na minha carreira sou eu. Então eu preciso da força do meu país, só que para isso eu precisava provar para o meu país que eu consigo fazer as coisas sozinha. É lutar contra o preconceito, basicamente”
Foi com todo esse cuidado e boa administração que Anitta começou a caminhar rumo à carreira internacional. Um de seus grandes feitos sem dúvida foi ter percebido o quanto o Brasil se exclui do resto da América Latina e o quanto isso é uma bobagem. Começou então sua saga de empreendedorismo cuidadoso. Gravou um remix para uma música já conhecida de J Balvin, compositor colombiano de reggaeton. Depois fez uma música com o também cantor colombiano de reggaeton Maluma, a Sim ou Não, e recentemente lançou Paradinha, cantada em espanhol.
A percepção de Anitta é impressionante, bem como sua ousadia também. Ela demonstra ter plena noção do quanto é arriscado trazer o espanhol e ritmos latinos para o Brasil. Ela fala inclusive que as rádios brasileiras queriam cortar as partes de Maluma para tocar Sim ou Não achando que o público não fosse aderir. Felizmente, o reggaeton caiu nas graças do mundo e Anitta conseguiu ajudar a abrir essas portas por aqui.
Não fosse o suficiente, Anitta ainda se propôs a lidar com o reggaeton, que como ela mesma diz, é o funk da América Latina. Ou seja, o reggaeton carrega todos os problemas que já conhecemos do funk assim como carrega também preconceitos que fizeram com que por muito tempo fosse um ritmo musical marginalizado e de menor valor. Cantamos Despacito, mas ainda não ouvimos falar de mulheres que cantam o ritmo. Mesmo assim lá foi a Anitta na cara, na coragem e no planejamento.
Depois da América Latina, ela chegou aos EUA por meio de sua participação na música Switch, da cantora Iggy Azalea, o que lhe rendeu também uma apresentação no programa “The Tonight Show” com Jimmy Fallon. Em junho seu nome foi parar na lista Social 50 da Billboard. Foi quando “Anira” ficou entre os 15 artistas mais influentes nas redes sociais e com maior número de vezes que suas músicas tocam semanalmente. Não é curioso que mesmo com tantas conquistas e com tanta fama Anitta ainda encontre resistência para os seus projetos nas rádios e na indústria como um todo?
Não satisfeita com todos esses méritos, a cantora também decidiu quebrar padrões estéticos nos palcos e nos shows e ter bailarinas plus size na sua equipe. Se Anitta vai dominar o mundo nós não temos como saber, mas que ela é um grande exemplo de mulher, ela é. E está jogando na cara de todo mundo, como já diria sua música com Pabllo Vittar.
Originally published at www.siteladom.com.br on July 10, 2017.

