
Compaixão: uma delicada pintura sobre a força das mulheres na América
Compaixão, de Toni Morrison, é uma verdadeira pintura bem ornamentada das mulheres da América no século 17. Escravas da situação, de homens, do sistema ou de seus próprios sentimentos, as figuras centrais do livro são mulheres cujas vidas se abraçaram pelo acaso e pela necessidade de sobreviver. Em um continente ainda em formação, elas encontram refúgio e solidariedade em si mesmas. Suas existências formam os pilares em que se constitui a sociedade norte americana como a conhecemos. Ou seja, sob a força e condescendência da mulher branca, negra e indígena.
O enredo
Ambientado nos Estados Unidos em 1690, Compaixão vai tecendo histórias de quatro mulheres que vivem numa fazenda escravocrata do norte. Rebekka é a senhora Vaark, a independente e roliça esposa da Jacob, dona da fazenda e das demais mulheres. Já Lina é a primeira empregada do casal. Ela uma espécie de governanta não remunerada, que serve com obediência irrestrita aos senhores após a aniquilação total de sua tribo nativa. Sorrow, por sua vez, é a figura estranha e deselegante do espaço. Ela parece viver em dois mundos distintos, sem aparentemente saber seu lugar na fazenda e ainda menos no mundo. Nascida e criada num navio, seus pés não são acostumados à terra firme, e seus devaneios sobre os tempos de mar perturbam sua nova condição de escrava da fazenda.
Por último, temos Florens, a personagem central da história. Ela é uma dúbia figura da escrava criada sem percepção alguma de liberdade. Diferentemente de todas as outras, Florens é a jovem que nunca conheceu a vida fora da servidão. Assim, não almeja sair ou escapar daquele lugar. Só com a vinda do Ferreiro, um africano alforriado que exerce trabalho remunerado, é que Flores desperta para a paixão e para sua própria condição de escravizada.
A estrutura
De compreensão labiríntica e abstrata, o livro é divido em capítulos que descrevem profundamente o interior da alma e do sentimento de cada personagem. A autora explora a escravidão sob o prisma das relações de poder e não apenas de raça, ilustrando que o domínio sobre o outro se constituiu na América com raízes muito mais profundas do que a escravidão negra mais tarde revelaria.
Rebekka, mesmo sendo branca e dona da fazenda, é domínio irrestrito do esposo, e intercala a vida entre alegrias e depressões por não ter tido filhos que resistissem aos primeiros anos de vida. Sua posição soberana frente às criadas escravas desaparece todas as vezes em que é preciso enterrar mais um bebê. Nestes momentos todas elas estão mais próximas do que podem perceber: antes de dona e propriedades, são mulheres.
Entre as escravizadas da propriedade, Florens é o meio termo entre Lina e Sorrow. Sintetiza a graça de viver que a seca e rígida Lina já perdeu, e é capaz de organizar os pensamentos e sentir, ao contrário da aérea e estranha Sorrow. As três vivem numa dinâmica de trabalho e disputa por atenção, onde por vezes confunde-se se são colegas, irmãs ou inimigas. A dinâmica só é quebrada com a morte do Sr. Vaark, onde o futuro certo na fazenda passa agora a ser duvidoso. Lina vê a patroa entrar em declínio, Sorrow descobre a maternidade após um estupro, e Florens insurge numa paixão pelo Ferreiro. O desenlace desta história é a vinda de uma realidade distinta para cada uma, onde a consciência sobre si mesma não mais depende dos chicotes e castigos de seus patrões.
Sobre a autora
Toni Morrison é uma das mais respeitadas romancistas americanas. Ela é genial no manejo de palavras doces que expressam realidades duras. Em seu livro, a escravidão física e psicológica ganha dimensões mais ambivalentes e indiretas do que a tão conhecida história do “patrão e empregado”. Morrison explora os conflitos internos de uma jovem escravizada cuja limitação de vocabulário e de conhecimento afligem por não lhe permitirem nomear sentimentos como o amor, a coragem, a revolta e a compaixão. A autora consegue colocar seu leitor dentro da mente de uma mulher escravizada, levando-o a pensar, a se adaptar e a compreender o ser humano que nasceu sob o domínio de outro ser.
A belíssima inspiração visual e as explosões de sentimentos que afloram ao longo do livro fazem valer cada página da leitura. A obra não entrega as situações, falas e pensamentos de graça, mas vai revelando-os sob rendas e mais rendas de mistério, deleite e satisfação.
Originally published at www.siteladom.com.br on August 28, 2017.

