Lobo por Lobo traz a luta de uma judia em um mundo onde Hitler venceu

Gabrielle M.
Aug 22, 2017 · 4 min read

Imagine-se em um futuro onde Hitler ganhou a Segunda Guerra Mundial. Um mundo onde os Estados Unidos nunca bombardearam o Japão. O que teria acontecido com os judeus? E com os russos, se a Alemanha conseguisse conquistar o país continental?

É isso que Lobo por Lobo, de Ryan Gaudin, usa como premissa para chamar a atenção do leitor. Publicada no Brasil pela Editora Seguinte, a obra mistura elementos de fantasia e ação à la Mad Max, com corridas de motocicletas, um líder tirânico e uma protagonista mutante.

Uma judia fugitiva

Começamos com a história de Yael, uma das poucas judias — se não a única — que escapou dos campos de concentração. Em uma tentativa de desconstruir as características físicas dos judeus, Dr. Geyer consegue seu intento, mas também dá a chance de fuga: por conta de suas agulhas, Yael é capaz de adquirir o rosto de qualquer pessoa e se mesclar na multidão.

Em Lobo por Lobo, Hitler ganhou a guerra com o auxílio do Imperador Hirohito. Para celebrar essa vitória, todos os anos é realizado uma corrida, o Tour do Eixo. Ela sai de Berlin, a capital da “Germânia” (o conjunto de territórios conquistados pelo Führer, o que inclui Londres, o norte da África, Índia, até metade da Rússia), até Tóquio, do Território de Coprosperidade Asiática (pertencente ao imperador japonês, composto pela outra metade russa, China e Japão).

Desde que fugiu do campo, Yael vem treinando com a resistência até o dia que seria útil. Sua vez finalmente chega na figura de Adele Wolfe. A corredora, vencedora do último Tour do Eixo, é a primeira mulher a competir usando a identidade do irmão gêmeo. Ela foi a única a chegar perto o suficiente de Hitler no Famoso Baile da Vitória ao vencer da corrida de quilômetros. Por essa razão, a rebelde decide roubar a identidade da moça, numa tentativa de matar o Führer e por um fim ao sofrimento de muitos.

As máscaras que usamos

A obra é bastante dinâmica, e temos vislumbre aqui e ali do passado de Yael, mesclados com seu presente, numa leitura envolvente. No entanto, ela envolve bem mais que isso. Vemos o dilema interno da protagonista na tentativa de não se esquecer de quem à medida que muda de pele. Podemos até mesmo ver as mudanças como camadas que ela cria para se proteger, e a ideia está presente em vários momentos da leitura.

É interessante como isso é tão aplicável à situação humana: vestimos tantas máscaras, que corremos o risco de esquecer nossa própria essência. Isso é bem explorado na leitura, já que para se preparar para a corrida, Yael memorizou cada detalhe de cada corredor, seu comportamento em frente às câmeras, suas manias, medos e aliados. Mas nada a preparou para as pessoas que encontraria.

Acima de tudo, o livro mostra a relação humana. Por mais que Yael tenha treinado arduamente para guardar informações dos competidores, nem sempre isso é totalidade da verdade. E aquilo que não se sabe? Como lidar com seus sentimentos, suas decisões e as consequências das mesmas? Ela estava preparar para correr ou morrer, mas e as consequências sob aqueles a sua volta?

Representatividade

Adele, a identidade roubada da rebelde, foi a primeira a competir. Ela quebrou estereótipos, saiu dos padrões arianos e é congratulada por sua coragem pelo próprio Hitler. Isso inspira outras a competir.

Quando o destino das mulheres do Reich é ser mandada para o território extensão da Alemanha para procriar e expandir a raça ariana para os cantos do mundo, Adele ousa. Isso a faz uma personagem tão forte quanto Yael.

A força feminina é lindamente mostrada: a menina ariana é apaixonada pela corrida, entende de motos e mecânica. Já a judia é versada em várias línguas, entre elas o árabe e o japonês, sabe manejar pistolas, facas, entende de venenos e combate corporal. Porém isso não a impede de ter traumas próprios, afinal ninguém escapa ilesa de um campo de concentração e de ser uma cobaia.

Por fim, a questão da identidade também é bem explorada. Em determinado momento, nem mesmo a protagonista sabe mais quem ela é. Uma aberração? Uma vítima? Uma ariana? Uma judia? Lobo por Lobo traz em nota que a mutação de Yael é proposital justamente para estimular essa discussão.

O que define uma pessoa? A cor de sua pele? Seu credo? Se somos todos iguais, por que nos tratamos de forma diferente? A pauta é bem atual, se olharmos o aumento do antissemitismo e xenofobia, especialmente em alguns países. A personagem vem para isso: se pudéssemos alterar nossa aparência para encaixarmos em qualquer cenário, seríamos realmente diferentes? Ou seríamos todos iguais?

Leia também: As ciganas: vidas marcadas pela xenofobia e também pelo machismo


Originally published at www.siteladom.com.br on August 22, 2017.

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