
O Ano em Que Morri em Nova York é um romance sobre amar a si próprio
Imagine-se em um relacionamento perfeito. Você mora em Nova York com a pessoa que mais ama no mundo, aquela que faz com que você se sinta completa e infinitamente feliz. Todos invejam a perfeição do seu relacionamento — e até você mesma acredita piamente que não exista nenhum outro melhor.
Tudo parece ótimo até que a sombra de uma traição abala essa relação, te forçando a achar a felicidade onde nunca antes tinha procurado: dentro de si mesma. É esse o cenário encarado pela protagonista de O Ano em Que Morri Em Nova York, escrito por Milly Lacombe e publicado pela Editora Planeta.
Um romance lésbico em Nova York
Um dos pontos que torna O Ano em Que Morri Em Nova York tão interessante é o fato da protagonista ser lésbica. Apaixonada por Tereza, com quem mora em Nova York, ela se orgulha em dizer que se tem algo em que é boa é fazer com que todas se apaixonem por ela.
Isso se mostra uma verdade quando conhecemos a trajetória da protagonista ao se descobrir como lésbica. A grande maioria de seus relacionamento homoafetivos acabaram por sua causa. Ela era a pivô de traições: sempre se apaixonava por outra mulher, traía a namorada e emendava outro relacionamento.
Um ponto interessante é que mesmo com as puladas de cerca, a amizade entre as ex-namoradas se mantinha. Esse é o caso de sua relação com Simone, ex-namorada com quem ainda mantêm forte contato e amizade.
A protagonista nos conta como conheceu Tereza e como a ligação entre elas era forte e intensa. Tereza, antes de conhecer a protagonista de O Ano em Que Morri Em Nova York, não sabia que se atraía por mulheres. Após uma noite de amor, elas começam a namorar e a protagonista se vê no relacionamento mais lindo do mundo, cheio de carícias e risadas.
A traição
O conto de fadas se transforma em um suspense quando Tereza precisa embarcar para Berlim a trabalho. A protagonista já não gosta de ficar longe de sua amada e tudo piora quando recebe uma mensagem de Simone dizendo que está câncer. Nesse momento, seu mundo desaba e ela se vê completamente sozinha.
O medo de perder mais uma amiga assola a protagonista. Ela já tinha perdido Manuela, sua primeira namorada, em um acidente de carro. E para piorar, ela começa a ver comportamentos estranhos em Tereza, que ainda estava viajando. Por que não respondia quando ela mandava mensagem? Por que não a procurava? Estaria Tereza com outra pessoa?
Quando Tereza enfim volta, a protagonista já vive com a certeza de uma possível traição, mesmo sem provas concretas. Nesse momento, é impossível não lembrar de Bentinho e Capitu em Dom Casmurro. Teria Capitu traído Bentinho? Teria Tereza se perdido em amores por outra pessoa?
A aventura do descobrimento
Toda a situação faz com que a protagonista embarque em um voo para São Paulo. Ela, que sempre foi a pivô das traições, agora se encontra na situação de traída. Enquanto pensava no que havia dado de errado em seu relacionamento, ela é convidada por Paola, uma antiga amiga, a embarcar em uma viagem para a Amazônia para alguns dias sabáticos. A protagonista topa, mesmo receosa, e vai para o norte do país.
É nesse momento em que O Ano em Que Morri Em Nova York afirma ainda mais para o que veio.
Na Amazônia, a protagonista se encontra em um cenário desconfortável para uma pessoa urbana. Ela dorme em redes e convive com pessoas que considerava fúteis, ricas e mimadas. É impossível não se identificar com os problemas e dilemas que a assolam. A protagonista vivia em uma bolha intelectual e não tinha paciência para quem era diferente.
Nessa aventura, vemos a linda caminhada da protagonista descobrindo quem ela realmente é, sem máscaras. Durante as meditações, rituais e atividades em grupo, ela começa a aceitar e entender seus companheiros de viagem e a mudar seu modo de pensar. Enquanto ela vê as outras pessoas se revelarem como realmente são, ela também retira suas máscara.
A descoberta e a protagonista sem nome
O Ano em Que Morri Em Nova York é muito mais do que um romance sobre uma traição. É um livro sobre se conhecer, seja seus pontos fortes como os fracos — principalmente os fracos.
É impossível não se reconhecer nas palavras da protagonista. Narrado em primeira pessoa, Milly Lacombe não fala por em nenhum momento qual o nome da sua protagonista, o que dá a ideia de que essa é uma história biográfica — ou que a protagonista é você mesma, leitora.
Por isso, recomendo fortemente que O Ano em Que Morri Em Nova York seja a sua próxima leitura. Vai ser impossível não se identificar com a protagonista em sua trajetória rumo ao autoconhecimento e em como ela se desconstrói durante o livro.
Originally published at www.siteladom.com.br on July 26, 2017.
