O Mínimo Para Viver retrata anorexia com fidelidade, mas peca na romantização

Nathalia Marques
Jul 25, 2017 · 3 min read

Esta resenha foi criada a partir da minha experiência com a anorexia e inclui opiniões realistas e com uma certa dose de spoillers (frase parafraseada da abertura do filme O Mínimo Para Viver)

O Mínimo Para Viver é um filme independente lançado neste mês na Netflix. Ele retrata a história de Ellen, uma jovem de 20 anos e de classe alta, que sofre com anorexia. O longa apresenta momentos de fidelidade com os quais muitas mulheres que sofrem com o transtorno vão se identificar.

Em sua abertura, há uma aviso dizendo que o filme foi criado em parceria com pessoas que sofreram transtornos alimentares. Acredito que seja por isso que O Mínimo Para Viver consegue entrar em detalhes que, normalmente, são comuns as pessoas que passam por esse transtorno. O vício em calcular cada caloria consumida, os exercícios realizados em qualquer hora do dia, o uso de cigarro como inibidor de apetite e o medo constante de engordar.

Durante a jornada de Ellen, consegui me identificar em diversos momentos. O sentimento de culpa que a rodeia por ter anorexia e ter que fazer com que sua família também sofra com isso. A busca por motivos para que o transtorno tenha surgido. A depressão constante. A apatia de sentir que não conseguirá vencer a doença.

Porém, apesar de identificar que O Mínimo Para Viver acertou em diversos pontos, senti que houve uma certa dose de romantização.

Pontos delicados em O Mínimo Para Viver

Ellen, por ser uma jovem de classe alta, consegue atendimento em um dos melhores especialistas. Ela começa um tratamento em uma casa de recuperação junto com outros jovens que também possuem transtornos alimentares.

Eu não sei como é ser uma jovem de classe alta americana com anorexia, mas sei como é ser uma jovem de classe baixa brasileira com anorexia. E o que posso dizer é que o tratamento para esse transtorno não é nada do que se passa no filme.

É um tratamento extremamente desgastante, no qual temos que nos submeter quase todo dia às consultas médicas. Aqui, quando é necessária a internação, não há uma casa maravilhosa com jovens legais. Quando se é internada, as anoréxicas ficam, normalmente, na mesma ala psiquiátrica com pessoas que sofrem com diferentes problemas.

O romance

Outra questão que me incomodou muito no filme [alerta de spoiller] foi a criação de um romance durante tratamento da Ellen. Ela conhece um rapaz, ele também possui anorexia, mas seu estado clínico é estável. Em determinado momento, ele vira um dos motivos para que ela comece a pensar em aceitar realmente o tratamento.

Mesmo que às vezes fique claro que ela precisa se recuperar por ela mesma e não esperar que alguém a salve, a mensagem final do filme indica outra coisa. Me parece algo irreal e até como um conto de fadas, onde o príncipe ajuda a salvar a princesa.

Longe da fantasia, a verdade é que o processo para aceitar o tratamento é longo. Cada uma encontra em si o motivo para aceitar ajuda e se estabilizar. Não há problema algum que seja um amor. Porém, esperar para que isso aconteça já é algo um complicado.

É justamente essa mensagem que me preocupa em relação ao filme. Eu esperava, por exemplo, que Ellen se recuperasse por ela mesma e que sua coragem para seguir fosse somente por sua própria vida. Seria uma mensagem importante para as meninas que passam pela doença. Afinal, seria uma inspiração.

No entanto, ainda acho válido que o filme tenha exposto muitas questões importantes sobre a anorexia. Muitas pessoas que não sofrem com isso vão compreender mais sobre o tema.


Originally published at www.siteladom.com.br on July 25, 2017.

Lado M

Portal sobre empoderamento e protagonismo feminino. Através de reportagens e conteúdos autorais, nós criamos um ambiente de aprendizado, reflexão e debate sobre tabus e questões femininas da atualidade.

Nathalia Marques

Written by

Jornalista que viaja, literalmente e metaforicamente, e escreve sobre as coisas

Lado M

Lado M

Portal sobre empoderamento e protagonismo feminino. Através de reportagens e conteúdos autorais, nós criamos um ambiente de aprendizado, reflexão e debate sobre tabus e questões femininas da atualidade.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade