Photo by Tra Nguyen on Unsplash

Quem nunca ouviu piadas machistas no cursinho?

Acho que jamais me esquecerei da sensação de ter visto meu nome na lista de aprovados do vestibular. Era o curso dos meus sonhos, na faculdade dos meus sonhos, era a realização de planos que há muito habitavam meu imaginário — em suma, era tudo aquilo que parecia tão distante ganhando formas bastante reais e um gostinho delicioso de vitória. Sem querer mitigar a importância de todas as coisas boas que já me aconteceram, mas quiçá esse foi o dia mais feliz da minha vida.

Acontece que, antes de todo o confete e desse momento florido-cintilante-me-belisca-porque-não-pode-ser-real, existe uma fase bastante inconveniente chamada “cursinho”. Como se num clipe do Pink Floyd, de repente você se vê submerso em uma lógica massacrante que diz “você tem que passar no vestibular, você tem que passar no vestibular, você tem que passar no vestibular”, independentemente de como você fará isso ou do que absorverá ao seguir a lógica de aprender em meses o conteúdo de uma vida escolar inteira. Você é instruído, então, a se render à competitividade injusta dos processos seletivos que, sob o pretexto de “selecionar os melhores”, deixa muita gente de fora das universidades e nutre ainda mais as desigualdades sociais já existentes.

E não para por aí.

Nesse inferno astral que é dar adeus à sua adolescência e ter que decidir seu futuro enquanto começa a virar gente grande, há quem entenda o cursinho pré-vestibular como um processo que te ajuda a amadurecer, já que, longe de cobranças ou da necessidade de tirar boas notas (como acontece na escola), ali é cada um por si. Mas, se por um lado você não precisa mais pedir para o professor deixar você ir ao banheiro no meio da aula: agora você passa a lidar com alguns professores que sequer pedem permissão para invadir sua privacidade e começar a assediar quem eles bem quiserem.

Lembro-me bem de um professor de Química que, ao invés de ensinar estequiometria e reações orgânicas, preferia passar boa parte do tempo alisando o cabelo das meninas durante as aulas. Ele também gostava de lançar aquele olhar de quem te come com os olhos para as alunas que passavam em frente à lousa, além, é claro, de fazer piadas sobre “como as mulheres são burras” e de contar, com orgulho, algumas histórias pervertidas de sua vida para quem quisesse ou não ouvir. Diante de tamanho desaforo, era praticamente impossível não sentir nojo e revolta por estar pagando mensalidade para ouvir tanta basteira.

Como a minha turma era majoritariamente ocupada por alunos de ensino médio, as investidas desse professor paravam por aí. Isso não significa, no entanto, que sempre seja assim. Maria Ziglio, vestibulanda em Ciências Biológicas, compartilhou com o Lado M uma história bastante semelhante. “O professor de História, vulgo esquerdo-macho, em toda santa aula fazia comentários sexistas e homofóbicos (usava palavras do tipo “bichinha”, “viadinho”, etc). Além disso, nas pausas das explicações, ficava de gracinha com algumas meninas — sempre as mais “bonitas” — passando a mão no cabelo delas, elogiando e mantendo uma distância duvidosa. Esse professor já pediu nudes para uma aluna da sala via WhatsApp”. Ironia ou não, Maria também conta que já ficou a cargo desse mesmo professor uma aula sobre a luta das mulheres na História.

Já Fernanda, que tem 19 anos e está prestando Medicina, tem outros tipos histórias para contar. Ao todo, quatro professores já deram em cima dela ou tentaram alguma coisa, sendo um deles o dono do cursinho. Com 28 anos de idade, o tal moço não hesitou em fazer um comentário sobre a calça que ela usava logo no primeiro dia de aula. “Eu sou mais tranquila e relevei, mas e outra menina mais tímida?”. É claro que sua recusa não o conteria a ponto de fazê-lo parar de assediar outras garotas ao longo do ano.

Em outra ocasião, um professor mais incisivo chegou a convidá-la para ir ao cinema. Ao ser rejeitado, o professor, casado e pai de três filhos, começou a pegar no pé de Fernanda pelo simples fato dela ter usado o celular em aula, coisa que nunca o tinha incomodado anteriormente.

“Mas o pior foi um de Literatura. Começamos a conversar, bem tranquilo. No início era normal, porque ele parecia ser muito gente boa […] Com o tempo, percebi que ele tentava ficar comigo: me convidava para ir no apartamento quando ele vinha para minha cidade, coisas assim, e eu fui deixando”.

Fernanda mora em Ponta Grossa, no Paraná, uma cidade onde os cursinhos costumam receber professores de regiões vizinhas. De um modo geral, isso facilita para que muitos docentes tenham uma vida dupla, como é o caso desse professor: um gentleman com sua namorada em sua cidade natal e nas redes sociais, um tarado no cursinho e em conversas reservadas. “Eu falei para ele que nunca teríamos nada, que não ia deixar ele trair a namorada. Ele ficou extremamente bravo. Falou que ninguém dizia o que ele devia fazer ou não, que tinha sã consciência que ia trair a namorada e não se importava”. Mais uma vez, a rejeição por parte dela gerou alguns episódios de perseguição dentro da sala de aula.

Como as meninas do seu cursinho são mais velhas, Fernanda diz se incomodar com esse tipo de situação, mas não vê nada de errado se os professores não são comprometidos. O que a amedronta é a entrada de alunos secundaristas no próximo ano que também terão aulas com os mesmos professores.

A grande questão nisso tudo vem a ser o tal do consentimento — “se a menina deixa, é porque ela quer, então tá tudo bem”. Mas não é bem assim.

O relacionamento entre professores e alunas evoca uma desproporcionalidade preocupante, a começar pelas idades. Se a tendência patriarcal dos relacionamentos já é propícia a relacionamentos abusivos, um homem de vida profissional e acadêmica concretizada possui um potencial assustador de coagir alunas que nem entraram na faculdade a realizar suas vontades — seja por pressão, fetiche ou qualquer outro fator que venha a calhar.

Fora que, convenhamos, o quão covarde não é tentar tirar proveito da sensibilidade de uma vestibulanda que, no frenesi de suas apostilas e simulados, encontra-se mais vulnerável do que nunca a situações que podem fugir de seu controle?

Em casos onde o assédio se limita ao verbal, os danos costumam passar despercebidos, mas isso não diminui a intensidade do constrangimento sobre uma garota que é vítima dele. Não é raro, inclusive, que ela chegue a se questionar se a culpa por aquilo não é dela que deu brecha para piadas machistas e cantada de professor.

A verdade é que se insurgir contra o machismo é uma tarefa bastante árdua, ainda mais quando uma sala inteira é conivente com esse comportamento invasivo (vale lembrar que o cursinho também é um antro de garotos babacas). Ter que lidar com isso dia após dia só torna ainda mais doída essa labuta que é atravessar um ano como pré-vestibulanda.


Originally published at www.siteladom.com.br on December 4, 2015.