Strippers, o strip-tease e o prazer feminino

Luiza Missi
Oct 14, 2015 · 6 min read

Despedidas de solteiro como uma última noite de “liberdade” para o noivo “extravasar suas necessidades masculinas” e testar o seu comprometimento com o casamento num clube de strip: esse é o enredo de um vários filmes em Hollywood, e talvez o responsável pela associação do estabelecimento com a ocasião festiva no imaginário do público. Outra versão comum dos clubes de strip na mídia é a representada no seriado How I Met Your Mother, frequentados pelo personagem Barney e um dos componentes do seu perfil de mulherengo e descomprometido. Mas será que os clubes de strip são o que vemos na mídia?

Como mulher, é muito difícil responder a essa pergunta. Há vários véus que encobrem qualquer estabelecimento relacionado à indústria do sexo, já que esses são, em geral, voltados ao público masculino. A primeira barreira é justamente essa: a do gênero. Culturalmente, homens entram em contato com a indústria do sexo mais cedo que mulheres. Uma pesquisa conduzida pelo projeto InternetSafety101 mostrou que, no sudeste dos Estados Unidos, 53% dos meninos entre as idades de 12 e 15 anos informaram fazer uso de mídias sexualmente explícitas — em especial, da pornografia online. Para as meninas, o número cai para 28%. A sexóloga Desiree Cordeiro atribui essa diferença, inclusive, à educação recebida em casa: “A família empurra. Menino pode, olha que legal, o meu filho tá vendo filme pornô. Menina nem pensar; se a menina tá vendo filme pornô, o que tem de errado com ela?”.

A relação com estabelecimentos da indústria do sexo também segue a mesma lógica. No passado, era comum que pais levassem seus filhos a bordéis para que eles perdessem a virgindade sem interferir na das moças “da sociedade” — afinal, era comum a crença de que homens desenvolviam desejos sexuais muito mais cedo e mais intensamente que mulheres. Mas se engana quem acredita que essa prática ficou no passado. A crença, inclusive, ainda se faz muito presente. Por isso, mulheres tendem a ser julgadas quando buscam esse tipo de serviço.

Outro véu que dificulta a compreensão desse universo é a fusão entre os trabalhos relacionados ao sexo. Afinal, o que difere uma stripper de uma prostituta? Em teoria, são duas profissões bem distintas. A stripper trabalha apenas com a exibição de seu corpo, enquanto a prostituta trabalha com o sexo de fato. Contudo, por diversas razões, muitas mulheres fazem os dois trabalhos. A camgirl Bruninha Fitness, que trabalha com strip-tease virtual, justifica essa condição: “Posso dizer que 90% das mulheres vivem essas duas realidades porque o financeiro é muito compensador. Porém, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é fácil. Eu sempre digo, quando converso com as meninas desse meio, que nós somos responsáveis por nossos ganhos.”

Para Desiree, essa é uma diferença marcante entre os clubes de strip no Brasil e fora daqui: “Lá fora, tem muita stripper que não faz programa, que gosta dessa coisa de dançar, de seduzir. O barato é o jogo que vem antes do sexo e não o sexo em si. Aqui, tem muita menina que só faz strip porque quer fazer o programa, o show é para divulgar o serviço”.

Ela conta que, ainda que a mulher opte por ser apenas stripper, ela é encarada como garota de programa por conta do moralismo enraizado em nossa cultura. Ela relembra a personagem Alzira, interpretada por Flávia Alessandra na novela Duas Caras, de 2007. Alzira fazia pole dance num clube de strip para juntar dinheiro e pagar uma cirurgia para seu marido. Contudo, até hoje é conhecida como a personagem que fingia ser enfermeira de dia e se prostituía à noite. “A galera caiu matando, porque a gente é muito moralista.”, afirma a sexóloga. “Muito machista mesmo. O homem tem o direito de se divertir, a mulher não.”

Mas afinal, qual é o atrativo do strip, do ponto de vista de quem o pratica? Para a psicóloga Mirian Lopes, há muitas motivações por trás da prática: “Para a mulher, este papel parece ser mais intrigante, algo de sua feminilidade que não consegue desnudar”. Justamente por ser uma válvula de escape para uma sexualidade tão reprimida — sem necessariamente envolver sexo -, trata-se de uma atividade atraente para muitas mulheres.

Desiree afirma, inclusive, que a prática do strip é recomendada para mulheres que não conseguem atingir o orgasmo em suas relações. “É muito mais por um prazer pessoal, de satisfação egóica. Até pode ser um poder na relação se você fizer para um namorado, mas para si mesma [também] é bacana. É um processo que normalmente a gente indica para mulheres que têm dificuldade para ter orgasmo. Começar a se descobrir, dançar, fingir, experimentar, sozinha mesmo. Se não conseguir o olhar do outro, é um jeito de se conhecer e de soltar um pouco a sensualidade.“

Do ponto de vista de quem o consome, o strip é ainda mais complexo. Para Mirian Lopes, a questão deve ser contextualizada para ser entendida. “Uma explicação por este fascínio talvez esteja relacionada com a forma de relação homem/mulher na contemporaneidade. As relações humanas e a intimidade ficam encolhidas, então surge a perspectiva de uma relação não-comprometida com outro como forma de eliminação de problemas”. Nesse contexto, uma interação rápida e eficiente se torna altamente atrativa.

Mesmo tendo a sexualidade intensamente reprimida, mulheres também representam uma parte significativa do público que consome o strip-tease. O filme Magic Mike é uma prova cabal disso. Ainda que fortemente criticado por seu enredo considerado fraco, o longa arrecadou o suficiente em bilheterias para, ainda este ano, ganhar uma sequência. Diversas performances sensuais por parte do elenco — que conta com Channing Tatum e Joe Manganiello — fazem a plateia predominantemente feminina gritar, dentro e fora da tela.

Essa é, inclusive, uma diferença marcante entre os públicos masculino e feminino. A tendência é que, para mulheres, a experiência de ir a um clube de strip seja excepcional — desde um aniversário até uma despedida de solteira, definitivamente será um evento à parte. Para homens, esse programa tende a ser mais naturalizado. Um clube de strip pode ser o local de encontro para reuniões de negócios ou happy hours. Apesar de não haver, obrigatoriamente, o vínculo sexual, também não é incomum que ele ocorra. No caso feminino, a atmosfera é muito mais lúdica, como se todas fossem cúmplices numa brincadeira.

O rótulo de brincadeira tem grande participação na retirada do estigma desse tipo de programa para mulheres. É feito um esforço coletivo para dissociar a atividade da conotação sexual, para que as frequentadoras não sejam prejudicadas (e nem afastadas) pelo tabu. No site do Clube das Mulheres, uma famosa casa de strip masculino em São Paulo, lê-se a seguinte nota: “importante salientar que o Clube das Mulheres é um show artístico, interativo, de alto nível e que o strip-tease não é total.” Qual seria a relevância de um aviso como esse num club de strip destinado a homens?

Bruninha Fitness também destaca a diferença entre o seu público masculino e o feminino. “Tem diferença, muita. Mulher é mais delicada, não se comunica com certas expressões normais no mundo masculino. Mulher sabe, mesmo no virtual, como agradar a outra sem esforço algum. O público masculino (não me refiro a todos os homens, jamais), em sua maioria, é um pouco mais agressivo. Existem os educados e cavalheiros que sabem como deixar uma mulher bem soltinha no chat; já tem outros que nem na próxima encarnação farão uma mulher gozar de verdade. Existem homens que acessam, não cumprimentam, não se importam com o tesão da menina.”

Desiree Cordeiro explica que, por conta da atribuição cultural de características como o foco aos homens e a percepção à mulher (aquela velha história de que mulheres são capazes de executar diversas tarefas ao mesmo tempo, sabe?), a maioria das mulheres é mais sensorial do que visual. Por isso, uma atividade como o strip-tease, que envolve sobretudo a visão, é predominantemente destinada ao público masculino. Quando o público é feminino, a experiência se transforma em uma excitação coletiva — é mais sobre o contexto do que sobre os strippers em si.

Evidentemente, há exceções: há homens mais sensoriais e mulheres exclusivamente visuais. Há mulheres que frequentam clubes de strip somente pelo strip e há mulheres que pagam por programas. Há, ainda, mulheres que nunca sentiram curiosidade por esse tipo de serviço. E há mulheres que, apesar da curiosidade, nunca conseguiram descobrir mais sobre ele por conta de todos os véus que o encobrem. Caso seja esse o seu caso, esperamos tê-la ajudado a despir o assunto de todo e qualquer preconceito.


Originally published at www.siteladom.com.br on October 14, 2015.

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