Da amizade ao rótulo: cervejas colaborativas

Exemplos de cervejas colaborativas

Elas representam a essência do espírito cervejeiro artesanal. O ato de construir algo juntos, na amizade, geralmente sem preocupação com as questões comerciais, simplesmente para sair da rotina ou variar o “cardápio” da cervejaria. São uma forma de inovar, se divertir e testar novas receitas, sem expectativas em relação ao sucesso comercial dela. As cervejas colaborativas são co-produções de receitas elaboradas por duas ou mais cervejarias, que unem-se por um bem comum: passear por estilos fora dos tradicionais, com pitadas de inovação.

Para entender mais a fundo como funciona o processo, conversamos com ele, ninguém menos que o “rei das colaborativas”, Bernardo Couto. O cervejeiro, marqueteiro, administrador, distribuidor e tudo-o-mais da Cervejaria 2Cabeças, diz que já perdeu a conta de quantas colaborativas já produziu.

“Pra começar, não existe regra”

Seu início pode se basear em inúmeros fatores e motivos, muito embora quase sempre partam de uma amizade ou conhecimento pré-existente entre dois cervejeiros. Isso não exclui outras possibilidades. Podem existir alguns casos, em que uma cervejaria tenha o interesse em dar visibilidade à sua marca em um determinado local, e desta forma, tudo ser acertado, digamos, burocraticamente. Normalmente, as colaborativas tem pouco apelo comercial, ou seja, baixa preocupação com as vendas e aceitação do mercado, portanto exemplos como este são escassos.

Cerveja Rio de Colônia

Vamos tomar (literalmente) a Rio de Colônia como case para compreender o processo como um todo. Antes de qualquer coisa, Bernardo revela, em primeira mão, que pretendem descontinuar a cerveja da sua linha fixa e colocar como sazonal, “gostamos sempre de variar e trazer novidades ao público, e esta nunca foi uma cerveja produzida para ser de linha”. Trata-se de uma Stout com pitanga e sal, da 2Cabeças com a alemã Freigeist. Surgiu de conversas que ocorreram entre Bernardo e Sebastian (alemão), quando um ia para Alemanha, e o outro estava para vir para o Brasil. A ideia de produzir uma cerveja aqui e outra lá, unindo as culturas dos dois países deu o start no processo.

Bernardo Couto, da 2Cabeças

Bernardo explica que a receita foi elaborada em conjunto, trazendo a pitanga, uma fruta brasileira, o sal, ingrediente presente nas Gose alemãs, inseridos numa base de Stout. Pela combinação de ingredientes, ela torna-se uma cerveja com alto drinkability, pois o sal alivia o peso do malte e a pitanga traz um aspecto levemente azedo.

“Em termos práticos, é como se fosse apenas mais uma das nossas cervejas, da 2Cabeças”

É de inteira responsabilidade da cervejaria carioca a produção, envase, distribuição, venda, e consequentemente o lucro obtido com ela. “As colaborativas funcionam assim, quem decide produzir, vai cuidar de todo o resto. Não faz sentido você produzir e o outro bancar os insumos”. A outra cervejaria contribui apenas com o conhecimento na elaboração da receita. Sua marca também é estampada no rótulo, geralmente no verso ou em tamanho reduzido na frente, e o benefício fica sendo simplesmente a exposição da marca para o público, pois ela não colhe os “frutos” da comercialização. A elaboração do rótulo e do nome também foi por parte da 2Cabeças.

Não existe um contrato formal, detalhando os papéis de cada um na empreitada, tudo é feito de boca , na amizade. Caso ocorra algum problema, como por exemplo um batch sair com defeitos ou outro caso extremo de uma cervejaria ser vendida para outra, e tendo a possibilidade de prejuízo para a marca, é feita a solicitação para retirada do nome do rótulo.

“Existe um clima de inimizade, disputa e antagonismo entre as grandes, e com o mercado artesanal a relação entre as marcas é diferente”

Dentre os vários motivos, este é um dos principais, que faz com que esta modalidade de produção seja praticamente exclusiva das cervejarias artesanais. Não interessa para a estratégia de mercado das grandes, produzir cervejas dessa maneira. Essa forma de produzir, na amizade, sem criar vínculos comerciais, tem tudo a ver com o próprio espírito cigano, que é a realidade da maioria das cervejarias artesanais do país.

Cerveja Rio de Colônia