Palácio Universitário terá alas demolidas para restauração de projeto original

PRAIA VERMELHA — A história do Palácio Universitário, sede de 4 cursos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é bastante conhecida entre seus frequentadores: ele foi construído em meados do século XIX para servir como um hospício — um hospício onde curiosamente estavam isolados alguns opositores do imperador Pedro II—, e 100 anos depois foi ocupado pela Universidade do Brasil, inclusive abrigando a Reitoria na era pré-Fundão.

O que pouco se sabe, porém, é que o Palácio inaugurado um século e meio atrás tinha menos de ⅔ da área que o Palácio tem hoje. As duas alas posteriores, que hoje são o principal meio de acesso ao prédio por estarem próximos à rua principal do campus da Praia Vermelha (oficialmente denominada Alameda Émile Durkheim, mas praticamente desconhecida por esse nome), não faziam parte do projeto original do Palácio. Elas só foram construídas um século mais tarde, quando o prédio já pertencia à UFRJ.

O Palácio em seu formato original, sem as alas posteriores

Na última terça-feira, 27 de outubro, uma reunião entre a Reitoria da UFRJ e o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional começou a escrever um novo capítulo na história do Palácio: a restauração do formato original. Pelo projeto, que já foi licitado e deve ter as obras iniciadas em poucas semanas, as duas alas posteriores do Palácio serão demolidas, junto com uma pequena parte do 2º andar. Todas as alterações pós-1852 serão desfeitas, e o formato original do prédio poderá ser visto já a partir de fevereiro de 2016.

Se a decisão pegou de surpresa a comunidade acadêmica, a reação positiva de professores e alunos pegou de surpresa a Reitoria e o IPHAN, que já estavam preparados para um embate. O Laguinho Business Journal circulou pelo campus na quarta-feira e encontrou uma maioria de frequentadores que desconheciam o projeto, mas que se mostraram favoráveis a ele.

"É um alívio saber que vamos sair das salas de aula improvisadas do Palácio e ir para as salas de aula menos improvisadas dos conteineres", contou Nicole Oliveira, aluna do 3º período de Ciências Contábeis. "Nunca achei que diria isso, mas é uma decisão 100% acertada da Reitoria," completou.

“Ouvi uma história dessas hoje cedo, mas achei bom demais pra ser verdade,” disse ao Journal a Dr.ª Norma Lessa, professora titular da Faculdade de Educação. "Luís, é verdade, vão demolir!", gritou a Dr.ª ao também professor Luís Boaventura, que passava do outro lado do corredor.

O Palácio em gravura sem data de S. A. Sisson

Uma história de improvisos

Projetado especificamente para ser um hospital psiquiátrico—inclusive com um necrotério no porão, numa área que hoje fica diretamente sob a sala do Centro Acadêmico da Escola de Comunicação—, a transformação em um prédio acadêmico nunca foi devidamente concluída.

Na década de 1940, após a desativação do hospício e a entrega do prédio à UFRJ (então chamada Universidade do Brasil), foi elaborado um projeto de expansão do Palácio. A área seria quadruplicada com a construção de 8 novas alas, que transformariam o prédio num quadrado com lados de mais de 100 metros e um enorme jardim central. O Palácio seria a única edificação do campus—o restante da área viraria um bosque público.

A parte do prédio já existente passaria por grandes transformações internas. As ilustrações artísticas da época mostravam salas de aula em formato auditório, laboratórios, uma grande biblioteca no subsolo e até uma quadra de esportes interna, acompanhada de uma sala com equipamentos de ginástica—uma academia dos anos 1940.

A construção da expansão foi iniciada em duas frentes, uma de cada lado do Palácio, mas os recursos financeiros se esgotaram antes mesmo do fim das primeiras duas alas. Só no final da década de 1950, por iniciativa do próprio presidente Juscelino Kubitschek, foram retomadas e terminadas as obras nas alas iniciais, que deram ao Palácio seu formato atual.

O projeto foi suspenso, mas a ideia do "Super Palácio" persistiu na mente de algumas pessoas. Nas décadas posteriores, surgiram pelo menos 3 propostas de retomada da expansão. Na mais recente, do fim dos anos 1990, a parte frontal do Palácio seria alugada a uma rede de hotéis como forma de obter recursos para a construção.

Nos anos 2000, com o projeto de transferência de todas as unidades acadêmicas da Praia Vermelha para o campus da Ilha do Fundão, a proposta de expansão do Palácio caiu no esquecimento. O orçamento de manutenção da Praia Vermelha foi reduzido sistematicamente, como forma de pressionar pela transferência. O Palácio e os demais prédios começaram a se deteriorar.

No final da década, foi iniciada uma obra de restauração do Palácio. Passados mais de 5 anos, ela sequer atingiu metade do prédio. Para piorar, a obra ainda provocou o grande incêndio de 2011, que destruiu a capela e parte das alas centrais do Palácio—o maior desastre em seus 160 anos, pior até mesmo que o acidente aéreo da Exposição Nacional de 1908, quando um pequeno avião se chocou contra o prédio enquanto participava de uma demonstração.

A demolição das alas adicionais, apesar do espanto inicial que pode causar, acaba se mostrando uma boa solução para os problemas que o campus vem enfrentando. "É uma saída honrosa—não se trata exatamente de uma demolição causada por maus tratos, como ocoreu com uma ala do Hospital do Fundão em 2010, e sim da restauração do projeto original de um prédio centenário," explica o professor José Eduardo Ferreira, do Instituto de Economia. "A demolição de parte do Palácio e a construção de um novo prédio, em outro lugar do campus, acaba saindo mais barato que a restauração e manutenção de um prédio tão antigo. E o resultado final é indiscutivelmente melhor," conclui o Sr. Ferreira.

Para o Dr. Aurélio Fernandes, para quem o Palácio significa décadas de estudo e trabalho — ele fez graduação, mestrado e doutorado e hoje leciona na Escola de Comunicação—a perda imaterial representada pela demolição é aceitável. "É só um pedaço de um prédio. A história, as memórias ficam, e o que realmente importa são os momentos de diversão e alegria que passamos ao lado de pessoas que amamos".