A gente não quer só moradia, quer aposentadoria também

Foto: Marcelo Rocha / Mídia NINJA

Moradia e aposentadoria: os direitos do “povão” estão na ponta do lápis todos os meses

Quando pousei os olhos sobre a massa de 15 a 20 mil pessoas que estavam na Avenida Paulista, na tarde de ontem (15), na manifestação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), só pude perceber um povo pobre e, em boa medida, velho.

Barbas e cabelos brancos, peles enrugadas e olhos cansados, corpos exaustos pela maratona que é uma marcha na luta pela moradia. Quem é pobre sabe que só há um compromisso tão importante quanto o aluguel para o “povão”: a contribuição do INSS.

Assim como a casa própria, sonha-se dia e noite com o descanso, com o fim da exploração braçal, que consome a energia de acompanhar o crescimento dos filhos e do lazer fundamental para a vitalidade do espírito. Credita-se isso à aposentadoria.

Muitos idosos integram as fileiras do MTST na luta por moradia. Eles agora sofrem para conseguir se aposentar. Foto: Marcelo Rocha / Mídia NINJA

No entanto, assim como o sonho da moradia tornou-se mais difícil com as alterações no programa Minha Casa Minha Vida, que agora privilegia famílias com rendas maiores, o sonho da aposentadoria escapa pelos dedos com a reforma da previdência.

Periféricos e imigrantes: essa é uma descrição recorrente nas conversas que travei com os idosos do Movimento. Uma maioria de nordestinos, vindos ainda na primeira onda que construiu as bases da explosão demográfica que tornou-se argumento para essa “reforma”.

“A vida é uma busca contínua por esperança”, me disse profeticamente a senhora Teresa de Souza, mulher de olhos pequenos, pele branca e sorriso fácil. Ex-feirante de 67 anos, aparenta muito menos idade do que o RG denúncia. No entanto, ao ver o fotógrafo, escondeu-se atrás dos vizinhos, a fim de evitar o clique.

Durante muitos anos ela, assim como todos os militantes do MTST que não moram em alguma ocupação, teve de colocar na ponta do lápis do orçamento o aluguel, a despesas domésticas e a contribuição para a previdência. “Às vezes a gente deixava de comprar as coisa pra pagar o INSS”, conta. “Agora chega de trabalho pesado na feira, eu quero o meu sossego, meu merecido descanso”.

O processo para dar entrada na aposentadoria feito por Teresa durou cerca de 3 meses, pois ela guardou a documentação com bastante cautela. Apesar disso, permanece na luta por moradia na Ocupação Palestina, na Zona Sul.

Caso a legislação proposta pela reforma da previdência estivesse em vigor, Teresa e qualquer outra mulher estaria submetida a trabalhar até os 65 anos para atingir a idade mínima para aposentar.

Seo Zé na manifestação de ontem na Av. Paulista. Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

A mesma sorte não teve o ajudante geral José Ferreira, de 68 anos. Vindo de Pernambuco no ano de 1987, já foi pedreiro, metalúrgico e eletricista, o que antigamente chamava-se biscateiro. Como a profissão não era registrada, foi com bastante dificuldade que conseguiu provar a contribuição. Foi necessário viajar para o estado natal para recuperar os dados dos 15 anos que trabalhou lá.

Seo Zé, como é conhecido, aposentou-se somente em 2013, com 65 anos, idade mínima de aposentadoria para homens, de acordo com a legislação vigente. O problema para ele é que muito antes de conseguir a aposentadoria, não conseguia trabalhar em função de uma deficiência na mão contraída em um trabalho na metalurgia (aliás, algo bastante comum nessa profissão).

As seguidas consultas nas perícias do INSS nunca detectavam a evidente deformação na mão esquerda, que o impossibilita de usar os dedos médio e anelar. Hoje não recebe muito mais do que um salário mínimo, como diz, mas não reclama, pois conseguiu através do MTST o sonho da casa própria no condomínio João Cândido, na cidade de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo.

“Até latinha eu já peguei pra pagar a previdência”, disse com um sorriso de soslaio o também ajudante geral Rosival, de 52 anos. Pedreiro, eletricista, motorista: a lista é extensa de profissões do homem negro e baixinho, que mora a vida toda no bairro do Capão Redondo, extremo sul de São Paulo.

Há apenas 3 meses no MTST, ele passou por outros movimentos na luta por moradia. Passou sete anos em uma ocupação de um movimento do qual não lembrou o nome, e se entristece ao lembrar que esse período longo não resultou no sonho da casa própria.

Pai de quatro filhos, dois homens e duas mulheres, três mais velhos tomaram seu rumo e saíram de casa, o mais novo é um adolescente fruto da infidelidade. “É difícil conciliar a pensão com o INSS, mas não tem um mês que eu não pague”.

A Helenice, ou como as vizinhas a chamam, Dona Geralda, de 58 anos, está preocupada por esse motivo. Há sete anos teve que fazer a decisão: o aluguel ou a previdência. Preferiu manter-se sob um teto, mas deixou de contribuir e vê cada vez mais longe o sonho da aposentadoria.

A vida começou a mudar quando ela entrou no MTST, há pouco menos de dois anos, e ocupou um terreno, que ficou conhecido por Silvério de Jesus, na cidade metropolitana de Embu das Artes.

A dona do local estava com uma dívida milionária com a prefeitura, e viu na ocupação uma oportunidade de negociar o terreno e sanar o débito. A prefeitura de Embu desapropriou o terreno e agora os prédios estão em construção.

Enquanto não saem, Dona Geralda recebe uma “bolsa-aluguel”, que mantêm ela e os familiares, mas ainda não suficiente para a contribuição mensal.

Na manifestação, a luta dela é pela casa própria que aguarda há anos. Com as alterações no programa Minha Casa, Minha Vida ela vê que a luta por um teto fica tão distante quanto a pelo descanso.

O pintor Abenilton Oliveira. Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

Essa é a mesma consciência do pintor de automóveis, Abenilton Oliveira, de 52 anos. Juntos, tentamos fazer as contas para mensurar quantos anos ele vai precisar contribuir para receber o valor máximo do benefício, caso a “reforma” seja aprovada. (Isso seria mais fácil com essa calculadora do Brasil de Fato)

Ele me disse que tem 28 anos de contribuição em carteira. Para alcançar o teto, preciso de 49, de acordo com a PEC 287, texto da “reforma”. Sendo assim, faltam 21. Ou seja, aos 73 anos ele terá direito ao valor que durante toda a sua vida foi descontado do salário conquistado com muito suor.

O orçamento de casa não ajuda. Com salário de R$ 2.600,00, ele paga a universidade do filho, de R$ 1.200,00, e a da mulher, de R$ 930,00. O salário da esposa é pequeno, mas é o que segura as despesas domésticas e o aluguel.

Abenilton é nordestino como os tantos outros dessa reportagem. A cidade é Mascote, na Bahia, e veio no ano de 1982, e jamais parou de trabalhar para o sustento próprio e da sua família.

Do mesmo estado vem as “Marias”, da cidade de Nordestina, que segundo elas não existem nem no mapa. A primeira Maria tem 34 anos e vislumbra ao léu a aposentadoria. Está na luta pela moradia e vê no MTST a “esperança”, palavra recorrente entre os militantes do movimento. Há dois anos ela conseguiu a construção do seu apartamento na ocupação Chico Mendes, na cidade de Taboão da Serra.

A segunda Maria, tia da primeira, não faz parte do movimento, e está há três meses em São Paulo, fazendo turismo na capital econômica do país. Aposentada, sorri e diz que é feliz no seu “lugar fora do mapa”, em que possui casa própria e planta “o de comer”.

Nesses “causos” da vida cotidiana, de velhos e velhas que viram o tempo passar, governantes mudarem e “esperanças” nascerem no chão barrento da periferia, é que fica evidente que direitos são escolhidos e não concedidos, que um está em detrimento do outro na vida do povão, vitimado pelas políticas que visam a saúde econômica da elite.

São nordestinos pobres, migrantes de uma cidade calcada nas suas mãos cheias de calos e nos seus músculos esgarçados, pela saudade da terra natal e, principalmente, pelo sonho de um dia poder descansar sob o sol que cobre a terra abençoada que um dia há de virá mar.

Publicado em Mídia NINJA