Quem são vocês? Somos sem teto!

Histórias de militantes do MTST da OcupaPaulista, que lutam pela contratação de casas populares do Minha Casa Minha Vida.

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

As mãos cheias de calos são negras. O tempo é passado, lembrado com um insosso pesar do que poderia ter sido, mas nunca foi. Um teto para se morar, dinheiro para se sustentar e tempo para o lazer. Nada disso se traduz na vida do povo pobre brasileiro. A carne é dura feito pedra e a pele manchada forma um mapa do desafio da sobrevivência na cidade grande.

Imigrantes de um nordeste há muito perdido, se aglomeram na mesma luta que os fez migrar da sua terra seca para essa terra da garoa. Permanecem, assim como seus filhos e netos, nas trincheiras da “rotina”, matando um boi por dia para pagar aluguel, comida, água, luz, telefone, INSS, impostos e, se possível, algum lazer. Mas, quantos o fazem? Garanto que poucos.

No Brasil, direito é o que cabe no orçamento. Aluguel ou previdência? Comida ou energia? O mais básico se “escolhe” sob penosas 50, 60 ou mesmo 70 horas semanais de trabalho intenso. Quanto um pedreiro ou uma diarista, sob acordos informais, recebem em relação ao tempo trabalhado? Quanto um eletricista que vive de biscate ganha? O que vale a CLT para quem jamais teve a oportunidade de pegá-la na mão? Ainda assim, se o pudessem, tenho certeza que jamais recusariam ter uma lei que aplaca a gana insaciável do patrão, dono da produção que visa somente o lucro dos seus negócios em detrimento do trabalhador.

O trabalho no acampamento é realizado intensamente durante todo o dia. Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

Destes tantos nordestinos sem teto e desempregados que lutam pelos seus direitos nas fileiras do MTST, poucos tiveram a oportunidade de ter em suas mãos livros e cadernos. Com quem quer que se fale, o estudo foi inevitavelmente vítima da necessidade de trabalhar. Aos 12, 13, no máximo 14 anos, já estavam no mercado informal de trabalho sustentando famílias inteiras.

Os direitos que já vislumbravam de longe, hoje veem sumir na penumbra de um governo que inaugurou um novo período sombrio na história desse país. A aposentadoria está cada vez mais perto de ser destruída, e o trabalho segue o rumo da precarização. A história nos permite lembrar que durante os 13 anos dos governos petistas, mais de 15 milhões de pessoas foram registradas na CLT, e o Brasil alcançou o chamado “emprego pleno”, com somente 4% de desemprego.

Hoje, quando batemos a marca de 12 milhões de desempregados, é evidente que o retrocesso deu-se tão rápido quanto o avanço, e quem é penalizado nesse estado são os mais pobres. Isso porque, mesmo empregado, os salários são baixos, “o mínimo do mínimo”, como diz a ex-empregada doméstica, desempregada há 9 meses, Leandra Souza, de 38 anos. Com apenas 12 anos ela saiu da cidade de Itabuna, interior da Bahia, e veio para São Paulo com os pais. Na escola, ao chegar à 4ª série parou os estudos para trabalhar em casa de família e somar na renda.

Cristiane Alexandra na ocupação do MTST na Av. Paulista. Foto: Mídia NINJA

Durante anos foi empregada, outros tantos auxiliar de limpeza em “firma”, e mais outros auxiliar de cozinha. Agora, sem emprego fixo, vive de bico e do salário do marido, Manuel dos Santos, de 48 anos. Não está fácil a situação em casa. Às vezes tem que tirar da comida para pagar o INSS, porque eles não querem ficar sem aposentadoria. No MTST, ela sonha com um teto pra sua filha, de 13 anos.

As histórias desenham um panorama bastante distinto do acenado pelo governo. “Se arrecada menos do que se gasta”, “Estamos a beira de um colapso na previdência”, afirmam analistas e políticos em favor da “reforma”. Mas o que se vê nas ruas é um povo que, se for preciso, vai catar latinha para pagar a sua contribuição. O que se vê é um povo que não descansa jamais, a fim de um dia ter o direito de descansar. Um povo que, por outro lado, não descansa porque o patrão jamais solta as rédeas de um chicote que estrala nas costas há mais de 500 anos neste país desgraçado.

A resposta é de um corpo bravio de homens e mulheres que lutam nas periferias pela sobrevivência. Se a oportunidade lhes tivesse ao alcance, é inimaginável o que poderiam fazer, e, na realidade, surpreendem os donos do casarão quando o fazem. Eles se assustam quando urram as massas do MTST nas avenidas que pertencem à elite. E por isso, bravejam as elites nos telejornais, aviltando a verdade e fazendo coro para que o povo pobre se divida e torne-se rival de uma mesma causa que os une.

Luciano fazendo carão com a viseira azul na Ocupa Paulista. Foto: Mídia NINJA

O Nego é um desses caras que a gente chama de autodidata. Jamais pegou um livro nas mãos, frequentou uma sala de universidade ou escreveu equações complexas. No entanto, é eletricista que tô pra ver melhor. Qualquer acampamento do movimento que precise de uma força na elétrica o nome que se chama é: “Luciano da Infra”.

Nego é o nome de batismo no Parque do Carmo, quebrada onde Luciano Antônio nasceu e vive há 41 anos. Está há 6 no acampamento da Copa do Povo, no qual entrou por causa das falecida esposa, que perdeu há pouco menos de dois anos.

Pai do primeiro filho aos 12 anos, largou a escola e construiu um barraco para morar com a mulher. Estudou até a 8ª série somente, e depois disso nunca mais viu o quadro negro em sua frente. No entanto, quem ajustou toda a eletricidade do acampamento montado na Av. Paulista? Não preciso nem dizer. Mas, enquanto conversamos, alguém grita a resposta: “Luciano da Infra!”. Os postes da avenida serviram de fonte de alimentação para a programação de shows na ocupação.

“Amanhã tem um trampinho que vai virar uma grana”, ele conta. Biscateiro como tantos, nunca perdeu um mês do talão do INSS, que a esposa controlava à mão de ferro, e ele continuou mesmo sem ela.

Os bicos sustentam apenas por alguns dias, e depois, caso nada apareça, como irá se alimentar? Como vai saciar a fome do filho? Há poucos dias, o Padre Julio Lancellotti, em reunião na Câmara Legislativa do Município São Paulo, chamava atenção para o número crescente de moradores de rua com o avanço do desemprego no país. Esse cenário ocorre em meio à uma desigualdade crescente, que vitimiza aqueles que não usufruem da “estabilidade” gerada pela CLT e questionada pelos atuais “reformistas”.

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

Atrasadas”, “velhas”, “ultrapassadas”: esses adjetivos são diariamente usados para descrever a CLT em canais de TV e rádio Brasil à fora, como uma forma de justificar o desmanche de uma lei que significou um avanço grande para um povo, esse sim, ultrapassado. Ficaram assegurados os direitos do trabalhador e foi criada uma defesa contra os desmandos dos patrões.

No entanto, quando chegamos à uma época em que a lei será sobreposta aos acordos dos patrões com os funcionários, quem sairá perdendo nessa balança? Como um desempregado à beira do desespero terá margem de negociação com o patrão?

A Cristiane Alexandra, de 39 anos, está desempregada há um ano. Mãe de cinco mininu’ (o mais novo tem 6 anos e o mais velho 20), ela vive de uma renda de apenas 1 salário mínimo mensal, que consegue através do trabalho de cabeleireira, evidente pelo seu vasto canecalon loiro que bate as costas pouco acima da bunda. Baiana, como tantos outros, migrou de Vitória da Conquista com apenas 6 anos.

O marido dela estava empregado até o começo do ano, e tinha a função de tapa bueiro para a prefeitura. Com a entrada do novo prefeito, João Doria (PSDB), aparentemente todos os funcionários foram demitidos e uma nova equipe foi recontratada em seu lugar. Cris conta que haviam interesses de deputados na contratação do novo pessoal, no entanto não soube detalhar o esquema.

Com isso, ela passou a ser a única pessoa com renda na casa, sendo a renda variável conforme o número de clientes no mês. Na ponta do lápis, não sobra absolutamente nada: apenas o aluguel da casa onde mora, que pertence à sogra, custa R$ 500,00, consumindo quase dois terços da renda mensal.

A solução seria morar no acampamento do MTST chamado Povo Sem Medo e não ter custos com aluguel. No entanto, como o acampamento não é reconhecido como uma residência, as escolas não permitem que os seus filhos se matriculem morando no local. E por causa disso, a sogra disse que entrará na justiça para tomar-lhe os filhos caso vá para o acampamento. Aliás, quando Cris tentou, foi o que aconteceu.

Hoje ela já exerce um importante papel dentro desse acampamento, em que é responsável pelas refeições diárias. Todos os dias pela manhã ela vai para o morro do Povo Sem Medo preparar o café da manhã, e por diversas outras vezes a outras alimentações. Ela integra a equipe da infraestrutura, assim como o Luciano.

“Inspiração”, foi com essa palavra que ela definiu sua relação com o Movimento, e do seu envolvimento com as pessoas que dele fazem parte.

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

Esse afeto entre os integrantes do Movimento, é também uma resistência às dificuldades que o trabalho excessivo e o dinheiro escasso promovem na vida das pessoas. O pouco tempo que lhes resta para qualquer lazer, é junto com quem se ama, às vezes, mesmo sob intenso cansaço, se doando para que o movimento possa continuar.

O caso de Alexandra só escancara como mesmo sob intensa pressão para dar comida aos cinco filhos, ela doa o pouco tempo que sobra para alimentar os acampados, para conversar com eles e entender as dificuldades das suas vidas, colocando em primeiro lugar o bem estar alheio. É preciso enxergar como a comunidade se organiza e quais seus agentes fundamentais para sua manutenção.

Quando se fala em trabalho e comunidade, está claro que a remuneração está em patamares muito baixos, mas há um prazer contínuo de atuar junto aos seus. Estar próximo de quem se há, e valorar de significado a sua atividade, faz com que as pessoas se sintam parte de um processo e, dessa forma, possam construir muito mais do que a “renda do mês”, mas dá alimento à alma, algo que o trabalho massivo simplesmente para sustentação jamais poderá o fazer. As ferramentas são abraços, beijos, carinhos, palavras amigáveis e tantas outras conselheiras.

Assim é que Paizão entra nessa história. De batismo chama-se Vagner Souza, tem pra lá de 40, diz sorrindo, e está há 12 anos no MTST. Há dois conseguiu o apartamento no condomínio Chico Mendes, que o movimento construiu a partir do programa Minha Casa Minha Vida Entidades, que Michel Temer (PMDB) encerrou na semana passada.

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

Pintor de profissão, está parado também, e vive de bico em construção civil. Mas começou, como tantos outros, sendo pedreiro e eletricista aos 14 anos. Morador do bairro do Capão Redondo, no extremo sul da capital, parou de estudar na 8ª série, para ajudar com grana em casa. Passou a morar nos fundos da casa do pai, em que não pagava aluguel, mas também não tinha liberdade, em função de atritos com a madrasta. Os pais são migrantes da Bahia e de Minas Gerais.

O nome Paizão foi dado porque, ao entrar no movimento, passou a trabalhar com uma mulher chamada Cissa Maezona. A brincadeira virou que ele era namorado da Maezona, e daí por diante não deu outra, virou Paizão. Mas, há muitos outros motivos para essa alcunha, muito mais do que um apelido, ser para esse homem baixo, corpulento e sorridente.

Enquanto conversamos, é incontável o número de pessoas que passam por ele e praticamente pedem uma “benção” ao o abraçar com carinho. A todos ele pergunta como estão, se está acontecendo alguma coisa em sua vida, se a casa ou o barraco no acampamento está tudo certo. De fato, se preocupa em afagar todos que o procuram. Mostra-se compassivo com as histórias sucessivas de algumas dificuldades, mas bastante força para seguir em frente. Como o antigo padrinho, que ainda hoje se encontra nas comunidades, Paizão é de fato um pai para muitos que veem nele alguém com quem podem conversar e depositar mágoas e também felicidades. Alguém com quem se confessar.

“Di Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo têm o mesmo valor que a benzedeira do bairro”, diz uma das letras do rapper Criolo, que traduz bastante essa questão.

Paizão é pai desse povo, o pai que muitos não tem ou não tiveram a oportunidade de vê-lo, pois trabalhava arduamente para colocar a comida em casa.

Este é um povo que se reconhece através da esperança, uma palavra bastante comum em seus vocabulários. Ela só é possível porque há afeto, resistência e principalmente luta, em que eles se veem finalmente amparados e em comunidade.

O trabalho faz sentido e, mesmo sob exaustão, é realizado com amor e carinho. O dinheiro não é pauta, ao contrário, torna-se coadjuvante nas relações. São pilares fundamentais para a união de um Movimento que se firma cada vez mais como protagonista na luta contra a desigualdade social no país.

Publicado em Mídia NINJA