Ocupação de Sem Tetos faz governo retomar contratação de casas populares

Após 22 dias de ocupação na Av. Paulista, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto força governo Temer a retomar contratações de moradias populares do programa Minha Casa Minha Vida

Vitória! Esse é o sentimento dos milhares de militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) que conseguiram ontem (8), após 22 dias de ocupação no escritório da Presidência da República, na Av. Paulista, em São Paulo, a retomada de 35 mil contratações do programa Minha Casa Minha Vida Entidades, e assim a promessa da construção de casas para famílias com renda de até R$ 1.800,00.

Assembleia histórica que definiu a retirada da #OcupaPaulista após vitória do Movimento. Foto: Mídia NINJA

A unidade necessária para a resistência durante os 22 dias de ocupação do MTST na Av. Paulista, mostra que, mais que um grupo acampado em meio ao maior centro econômico do Brasil — ainda que essa seja uma tremenda façanha — trata-se de um dos mais pujantes Movimentos Sociais da América Latina, que impôs a sua força e poder de mobilização contra o desmonte das políticas habitacionais, realizado pelo Ministério das Cidades, de Bruno Araújo (PSDB) e Michel Temer (PMDB).

Comemoração após anuncio da vitória na contratação de 35 mil novas unidades habitacionais. Foto: Mídia NINJA

Ao fazer isso, e conseguir que o governo volte atrás nas mudanças estruturais que impôs ao programa Minha Casa Minha Vida, maior meio de acesso à moradia popular no Brasil, o MTST mostra que a esquerda brasileira não está no limbo que alguns tentam colocá-la. Ao contrário: está mais forte do que nunca na resistência, ainda que com as mãos amarradas pelas vias institucionais.

Primeiros dias da Ocupação na Av. Paulista, ainda com estrutura precária. Foto: Mídia NINJA

Aliás, a unidade que constrói em sua base, também consolidou nos seus eixos, articulando junto à outros Movimentos Sociais as mobilizações. Foi assim que a OcupaPaulista, como ficou conhecida, conseguiu atrair centenas de artistas, intelectuais e ativistas, em programações diárias durante todo o dia.

A união entre a cultura e a luta por moradia mostrou-se a principal arma de atração popular, fazendo com que a os constantes ataques e tentativas de deslegitimar o movimento fossem inúteis. A cada dia, mais e mais pessoas se encantavam com o que viam no acampamento, situado logo na esquina com a Rua Augusta, uma das mais badaladas da cidade, e bem em frente ao Escritório da Presidência da República.

Assembleia geral da Ocupação durante fala de Guilherme Boulos, uma das lideranças do movimento. Foto: Mídia NINJA
Foto: Gabriel Fernandes / Mídia NINJA

A articulação da programação cultural foi realizada pelo Fora do Eixo, rede de cultura responsável por festivais colaborativos como o Grito Rock, e também pela fundação da Mídia NINJA em 2013. O coletivo esteve à frente da organização das atividades como debates, aulas públicas, shows, intervenções e oficinas, que foram documentadas em tempo real com fotos, reportagens especiais, transmissões ao vivo e um documentário que está em produção e deverá ser lançado em breve.

O Círculo Palmarino, corrente nacional do movimento negro, foi também integrante do núcleo cultural da ocupação, contribuindo de forma decisiva na programação das atividades e shows.

A cada dia mais e mais artistas queriam se apresentar no local, apoiar o Movimento usando suas camisas nos shows, colocar a sua cara para falar sobre a importância daquela luta popular.

A OcupaPaulista também serviu para mostrar que a velha “esquerda rachada” está na contramão do futuro que o povo precisa. O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), o Levante Popular da Juventude, a Frente de Luta Por Moradia, e muitos outros estiveram presentes no acampamento, deram aulas públicas, dialogaram sobre como suas bases podem estar mais próximas, e deram um sinal verde para um futuro promissor de uma esquerda mais fortificada para enfrentar o desmonte promovido por Temer.

João Paulo do MST deu uma aula pública da OcupaPaulsita. Foto: Mídia NINJA

Outra fronteira importante no imaginário popular que tornou-se referência nessa luta é a religião. Amplamente dominada por um simbólico poder reacionário, a OcupaPaulista mostrou que há resistência também nesse campo, e ela não é pequena. Milhares se reuniram para rezar juntos em um carnaval diferente.

Encontro de religiões atraiu multidões. Foto: Mídia NINJA

Outras centenas se calaram e ouviram a mensagem sábia e carismática do Pastor Ariovaldo Ramos, um expoente na resistência democrática dentro da Igreja Evangélica. Há muita luta pela frente, mas um passo importante foi dado para que nossa visão seja mais ampla na religiosidade, e possamos nos despir dos preconceitos para fazer parte dessa luta.

Foto: Mídia NINJA

As questões nacionais, para além da moradia, foram amplamente discutidas. Reforma da Previdência e trabalhista se tornaram pautas de diversos professores e intelectuais, como Laura Cardoso e Souto Maior. Suas falas revelam as mentiras das propostas do governo Temer, e esclareceram aqueles que ainda tem dúvidas do quão danoso será a efetivação de leis que não passaram pelo crivo popular.

Ao enxergar todos esses elementos que comporam a OcupaPaulista, a vitória do MTST ao final de 22 dias de ocupação, na verdade, foi vitória durante todos os dias de ocupação. Vitória do diálogo, das articulações, das bases, das unidades, da resistência e, essencialmente, da sociedade que pode enxergar caminhos possíveis contra o desmonte promovido pelo governo Temer.

Um Movimento feito por mulheres

O histórico 8 de março, dia Internacional de Luta das Mulheres, que levou milhões de pessoas às ruas de todo o mundo, também reforçou a importância da mulheres do MTST na conquista da Avenida Paulista.

O movimento é composto majoritariamente pelas mulheres, que assumem funções de coordenação nas ocupações e manifestações. Na OcupaPaulista tiveram papel central na organização da alimentação, segurança, estrutura e no cuidado com todos os acampados.

O ensaio Mulheres da Lona Preta foi realizado durante a ocupação como forma de reconhecimento às guerreiras que conseguiram levar esse Movimento à vitória.

A unidade do movimento tem origem na periferia

No Capão Redondo, um largo gramado, vezes um mar de lama, marca as ruelas entre um barraco e outro dos moradores do acampamento Povo Sem Medo. Nesse local, em que quase 2 mil pessoas moram, o conforto é restrito, mas a comunidade é forte. Assim como o é em Embu Das Artes, no acampamento também chamado Povo Sem Medo.

Ainda recentes, as comunidades são fruto de ocupações do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que em pouco tempo atraíram centenas de famílias pobres, favelados que almejam uma casa própria.

Ocupação do MTST no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Foto: Mídia NINJA

Como nasceram essas e se fortificaram, hoje as veteranas João Cândido, em Taboão da Serra, e Palestina, no Jardim Ângela, veem de perto a casa que, alguns estão há mais de dez anos na luta para ver de pé. São homens e mulheres, trabalhadores incansáveis nas mais diversas funções, retratos de uma sociedade desigual que possui um déficit habitacional na casa de 84% entre famílias de R$ 1.800 de renda mensal, a chamada faixa 1 do Minha Casa Minha Vida.

Geralmente relegadas ao status de “ignorantes” e “peões”, esses trabalhadores foram urdidos sob o nome de “Povo Sem Medo”. Ao se reconhecerem assim, crescem. O sentimento de pertencimento a uma comunidade forte que pode lutar contra a desigualdade os empoderam da força que têm. Bastava que descobrissem. Juntos, o fazem. E assim como Zumbi dos Palmares, Lampião e Marighella, são resistências ante os governos defensores dos privilégios das elites. Sua vantagem é que são milhares, reunidos em torno de um mesmo ideal.

Publicado em Mídia NINJA