Entre Olhares

O calor brotava do asfalto e tremulava bem à minha frente. O trânsito seguia vagaroso, corpulento, resignado. O peso do ar maciço fazia encurvar o mais resistente dos transeuntes. O vermelho do semáforo afrontava os para-brisas, deliciando-se com sua própria demora. Há tempos penso em largar esse despropósito e caminhar todos os meus quilômetros rotineiros, contemplando as ruas tão pobres de estética e tão ricas de incerteza. Em meio ao caos tedioso, arrasto o olhar para o retrovisor. Pelo reflexo do espelho, de relance, lá estão eles. Protegidos pelo acrílico embaçado do capacete, vibrando em cima de uma CG150 surrada pelo cotidiano, dois pontos negros, fixos, desconhecidos — e cúmplices.

Não sei nada do homem, ele nada sabe de mim. Nossos olhos, sim, sabem de tudo: como fossem amigos de longa data, proseiam durante um infinitésimo. Prontamente, compartilham a aflição pela pressa de derrotar o atraso; vermelhos, riem da ressaca da noite anterior; secos, vislumbram o gole de cerveja no horizonte do dia; inquietos, praguejam contra políticos, clubes rivais, marronzinhos e amores antigos; distantes, sonham com o fim das mazelas do mundo; satisfeitos, despedem-se caminhando na mesma direção da saia que fez de passarela as listras gastas no chão.

Um átimo de magnetismo força encontros oculares. É repentino e involuntário. Um momento tão breve, cuja capacidade de infligir constrangimento é nula. Um momento tão dilatado, que impregna a memória com a gravidade dos grandes acontecimentos. Quando olhares se cruzam, há uma confissão visceral entre observador e observado. Neste instante discreto, no qual pupilas se encaram, somos os mesmos oprimidos, pervertidos, esperançosos e iludidos. Os mesmos liberais, conservadores, hipócritas e anarquistas. Somos as mesmas angústias, anseios, fetiches, devaneios, batalhas e desejos. Vai ver era eu mesmo naquela moto.

Pela humanidade que nos resta, mais olhos nos olhos.