O SCRUM que ninguém fala

Recentemente li o livro Scrum. A Arte de Fazer o Dobro do Trabalho na Metade do Tempo, escrito por um dos criadores do método, Jeff Sutherland. Fiquei surpreso ao perceber que o SCRUM é apresentado como mero plano de fundo para aquilo que realmente importa: tornar a sua equipe produtiva e feliz, continuamente.


O pensamento e a ação

Talvez eu não tenha lido a contra-capa do jeito certo, mas quando comecei o livro esperava encontrar uma defesa do SCRUM e como aplicar todas as suas técnicas revolucionárias para virar a maior empresa de software com pegada de startup. Já no primeiro capitulo o que me chamou a atenção foi que, de várias maneiras, o livro defende a importância de ser um bom gerente, e demonstra como você de fato não é.

“Um bom gerente se dedica a tirar do caminho aquilo que atrasa a equipe”

O autor dedica bastante tempo a contar a história do SCRUM, da criação às aplicações bem sucedidas, seja no desenvolvimento de software ou na construção de uma casa. Ainda assim, nos capítulos introdutórios eu esperava ver um passo a passo do tipo “torne sua empresa incrível” ou qualquer outra chamada que te faz clicar nos testes do Buzzfeed, expectativa que só passou quando o autor cita o livro The Mithical man-month (link para minha resenha aí embaixo!), me lembrando que não existe bala de prata no desenvolvimento de software.

Usando as observações e experiência no sistema Toyota de produção, o autor traz um esquema onde sua equipe é o ponto central da ação, e define como ela deve ser responsável por tudo aquilo que entrega, seja um produto inteiro ou partes de um sistema maior. Se você é do tipo lê que as referências do autor, vai gostar bastante do texto The remarkable Chief Enginner citado na bibliografia, onde podemos aprender mais detalhes sobre a relação de produção nas fábricas da Toyota, e entender como várias questões de estrutura e pensamento no SCRUM vem direto de lá, incluindo a relação Liderança x Autoridade.

Após ler casos de empresas como Spotify, Netflix ou Etsy, uma equipe dona de um “produto” por completo pode parecer bastante óbvia e funcional. Mesmo assim, alguns dos insights que o livro traz sobre como uma equipe deveria guiar suas ações e passos são relevantes a todo momento, e aqui o foco do livro fica claro, indo para o processo como filosofia e fugindo do lugar comum ao se ler sobre SCRUM. Não se trata de seguir um livro de regras, mas de definir princípios e criar a sua cultura baseada neles.

O tempo, os erros e o processo

“O desperdício é um crime”

O título de um dos capítulos é bastante incisivo ao caracterizar o desperdício de tempo como uma das piores coisas que pode acontecer a uma pessoa, podendo ainda ser agravado quando ela toma consciência disso. Usando exemplos de como a perda de tempo, o cansaço e até mesmo o ambiente podem levar as pessoas a tomar más decisões, garantir que o tempo de uma equipe seja bem gerenciado e produtivo se torna o tema central de alguns capítulos.

É neste ponto que o autor finalmente apresenta as técnicas do SCRUM (com poucos detalhes, se posso dizer), falando de ferramentas como o SCRUM poker, épicos e histórias, e como tornar minimamente burocrático o processo decisório e totalmente institucional sua validação, de um modo que boas decisões sejam validadas rapidamente e más decisões sejam detectadas em tempo hábil.

Um das coisas mais interessantes aqui é como o autor define o objetivo das reuniões diárias, que não devem servir como um simples relatório (erro cometido por muitos “SCRUM masters”), em conjunto com o ritmo dos sprints, que não devem ser usados com a promessa de evitar decisões ruins, mas para garantir que elas serão abandonadas nos próximos sprint reviews.

A pergunta de um milhão de dólares

Um conceito bastante interessante, e que na minha percepção vem sendo pouco trabalhado por aqueles que tentam vender o SCRUM como ferramenta de negócios, é a relação do autor com a felicidade de quem faz parte de uma equipe SCRUM, criando uma “medida de felicidade” em relação aos sprints, baseada na conclusão das tarefas e na percepção de quanto impacto a contribuição teve.

No ponto mais alto do livro (na minha percepção, é claro), o autor levanta duas perguntas importantíssimas, que são de extremo valor para aqueles que buscam melhoria contínua, seja através do SCRUM ou não.

O que você está fazendo agora te faz feliz no momento?
E te fará feliz depois?

Se você está se dedicando a algo que não te leva a responder sim para essas duas perguntas, o momento de buscar mudanças chegou. Responder sim para estas perguntas significa ser feliz agora enquanto investe na sua felicidade futura, criando uma tendência de torna-la maior a cada dia.

A grande questão é: como responder sim para essas duas coisas? A verdade é que não existe uma resposta exata, e mesmo que você encontre a sua agora, ela provavelmente irá mudar amanhã.


Mais que um livro de regras de RPG ou um esquema milagroso para fazer o dobro do trabalho na metade do tempo, o livro é quase um tratado filosófico sobre como encarar e estruturar o trabalho em equipe. Fazer o dobro do trabalho (ou diminuir o tempo de trabalho atual para metade) é somente uma consequência.

Buscar a felicidade das pessoas que fazem parte da sua equipe e mais ainda, buscar isso continuamente, é a maior contribuição que eu consigo enxergar no livro.

Eu não tenho ideia se o SCRUM vai funcionar para você, e eu sei por experiência própria que nem todo o arcabouço de ferramentas vai fazer sentido em diferentes contextos, mas unir esta filosofia ao processo é o ponto crucial em equipes SCRUM.

E mesmo que amanhã eu tente uma resposta que me faça perder um milhão de dólares, no fim do sprint eu posso revisar e tentar outra vez.


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