Giovanni Abeni
May 15 · 7 min read

“Mente vazia é oficina do diabo.”

Este é um daqueles ditados que sua avó fala aleatoriamente e você nunca dá bola. Afinal de contas, você só estava fazendo alguma bobeira e, de repente, uma senhora soltou algum clichê “sem sentido” da época dela. Porém, se paramos para pensar, clichês só recebem esse título por mérito próprio: eles sabem do que estão falando.

E, se por um instante, refletirmos sobre os ensinamentos de sua sábia avó?

Voltemos ao ditado: “Mente vazia é oficina do diabo”. Ou então, fazendo uma adaptação um pouco menos agressiva, sem julgamentos religiosos e com as modificações necessárias para sustentar minha tese: “Quem não tem o que fazer, vai fazer a coisa errada”. Ok, entendemos a frase, mas vamos elucidá-la com situações, pelas quais eu aposto que você já passou:

(1) Você chega mais cedo em casa, não lembra de nada urgente para fazer e decide abrir o Facebook para dar uma olhada nas notícias e nas postagens dos seus amigos. De repente, você se dá conta de que passou as últimas duas horas vendo memes, assistindo vídeos de qualidade duvidosa, monitorando brigas de comentários e lendo fake news. Imediatamente vem aquela sensação de improdutividade extremamente frustrante: “credo, fui inútil”.

(2) Você está de férias, sozinho em casa, e acorda numa manhã ensolarada pensando em como aproveitará seu dia. Em seguida, começa a cogitar coisas que gostaria de fazer, mas, mesmo com boas ideias, vem aquela preguiça: “ah, não acho que estou a fim de fazer isso hoje”. Então, você continua pensando e, quando percebe, já se passaram 30 minutos, 3 partidas de Candy Crush, 4 vídeos do Ronaldinho, 7 episódios de Friends e 58 fotos de cachorrinhos no Instagram.

Bem, talvez sua avó estivesse certa, assim como seus poderosos clichês! De fato, sentir que seu tão valioso tempo está sendo desperdiçado é um tanto frustrante. Pior ainda é a sensação de querer fazer algo mas não saber o quê e acabar, involuntariamente, não fazendo algo útil.

Mas espera aí… será mesmo que isso é uma opção involuntária?


Tédio

Definir tédio não é uma tarefa simples. Inúmeros dicionários, poetas e psicólogos tentam fazê-lo há tempos. Entretanto, na minha opinião, apenas uma pesquisa publicada recentemente pela Universidade de York foi capaz de defini-lo de forma sucinta:

“A experiência adversa de querer, mas não conseguir, exercer uma atividade gratificante”

Parece ser exatamente o que ocorreu na situação (2), acima. Você percebe sua ociosidade e estagnação, mas não tem forças para mudar isso. No fim, acaba fazendo uma série de atividades que não satisfazem nem acrescentam nada.

Por mais cômicos que sejam os exemplos citados anteriormente, o tédio muitas vezes pode representar algo muito sério, principalmente quando se torna recorrente. Diversas pesquisas caracterizam o tédio como indício da doença do século ou, pior ainda, como possível causa dela. Não é à toa que pessoas depressivas, no geral, não sentem vontade de fazer nada, assim como pessoas entediadas.


Seja seu próprio herói

Se o tédio acontece quando a satisfação não consegue ser alcançada em nenhuma atividade, procurar por outra não será o caminho para vencê-lo. Isso porque, desta forma, você entra em uma busca inalcançável pela “atividade ideal”, quando o problema está, na verdade, na maneira como você enxerga suas experiências, independentemente de quais são.

Portanto, você não necessariamente encontrará a saída do tédio olhando o mundo ao seu redor ou buscando novos meios de se entreter, mas sim voltando a atenção para dentro de si, para seu modo pensar. Talvez, nesse caso, “sair para dentro” faça sentido…

Tenha sempre um propósito em mente

O tédio surge quando o propósito é perdido. Quando não existe uma intenção final, qualquer coisa que você fizer será incapaz de gerar satisfação, pois nunca será um passo em direção a algum objetivo ou desejo.

“Todas as graças da mente e do coração se escapam quando o propósito não é firme” — SHAKESPEARE, William

Não é necessário filosofar muito. Não é preciso encontrar uma expressão que defina seu papel no universo. Basta ter em mente uma motivação pontual, novamente, sem ter medo dos “clichês”. “Ser uma pessoa melhor”, “Expandir conhecimentos”, “Construir um legado”, “Não trabalhar por dinheiro, mas deixá-lo trabalhar para mim” são outros clichês que merecem seu respeito.

Tendo sempre um propósito genuíno, naturalmente surgirão atividades para atingi-lo e, mais importante ainda: surgirá vontade para fazê-las.

Questione sua rotina

Lembre-se: toda atividade deve agregar algo. Logo, indagar a si próprio sobre as tarefas do seu dia a dia e o que elas lhe acrescentam é um bom exercício.

Pense: “por que eu estou fazendo isso?”, “por que eu faria isso?” ou “eu preciso mesmo fazer isso?”.

Atividades interessantes devem sempre cumprir um papel:

  • Avançar em alguma tarefa pela qual você é responsável
  • Te fazer mais feliz
  • Te tornar mais inteligente
  • Fazer alguém que você ama feliz
  • Te deixar mais saudável
  • Te relaxar ou descansar
  • Te divertir
  • Te abrir oportunidades
  • Resolver algum problema

E não se engane achando que é pecado fazer as coisas “menos importantes”. Muitas vezes, navegar nas redes sociais, assistir vídeos de comédia ou jogar joguinhos de celular é justamente o que você precisa no momento. Inclusive, existem vários artigos sobre os benefícios de “não fazer nada”, esporadicamente.

O único requisito é justamente ter clareza da função de qualquer atividade na sua vida e perceber quando ela for cumprida para, então, partir para a próxima. Assim, você garante que foi capaz de fazer algo útil, sem deixar de realizar as outras coisas importantes.

"Doing nothing is very hard to do… You never know when you're finished." — NIELSEN, Leslie

Aproveite o tempo inútil

Um dos tipos mais irritantes de tédio são aqueles que parecem ser impostos a nós, não mostrando escapatória. Sala de espera do hospital, ponto de ônibus lotado, trânsito engarrafado ou filas de banco são experiências terrivelmente intermináveis, mas que somos obrigados a encarar para atingir objetivos pouco significantes: pegar uma receita de remédio, ir para o trabalho, viajar para outra cidade ou pagar uma conta.

Diante desses cenários, nossa mente parece acionar um mecanismo de defesa, que é tentar se distrair com a coisa mais tola a que temos acesso. Nos dias de hoje, tal coisa é geralmente o celular, com seus diversos joguinhos e feed de postagens. Porém, repare que, mesmo que você se distraia, dificilmente está realizando uma atividade prazerosa. É apenas uma tentativa de tornar o momento um pouco mais suportável.

Entretanto, isso sempre pode ser contornável. Fugir do tédio é também a arte de estar sempre preparado e de se adaptar às diversas situações. Ter um livro na mochila, ler artigos aqui no Medium da Espresso Labs, conversar com as pessoas de que sente falta ou estudar sobre alguma ideia que teve são sempre boas opções para tornar esses momentos interessantes. (Repare que você pode usufruir do celular de maneira inteligente!).

Recentemente, quando a Espresso mudou da Av. Paulista para a Vila Olímpia, meu percurso para o trabalho ficou um tanto mais complicado (apesar de ser um local bem bacana!). Cheguei a perder 3 horas do dia dirigindo entre casa, trabalho e faculdade. Mas, um dia, cansei desses momentos improdutivos e comecei a procurar por soluções. Não consigo fugir muito dos horários de trânsito, mas também não consigo ler ou assistir vídeos durante o percurso (não devemos fazer isso enquanto dirigimos!). Então, o que eu poderia fazer?

Depois de muitas tentativas, me apresentaram o mundo dos audiobooks e cursos por áudio. Agora, meus percursos são sempre acompanhados de uma boa história, aulas de Machine Learning ou, quando minha mente cansa, pelo menos um bom álbum de rock. Cada trajeto não é apenas sacrifício necessário, mas também uma experiência de aprendizado.

Elenque prioridades

Procrastinadores tendem a sentir mais tédio. Sempre existirão tarefas que demandam muito de nós e que não sentimos vontade de realizar. Porém, ficar adiando e adiando o momento de cumprir suas responsabilidades pode ter efeito negativo não só em seu futuro (quando os prazos chegam) mas, também, em seu presente: o sentimento de autossabotagem e irresponsabilidade por deixar de fazer algo essencial para fazer algo irrelevante.

Portanto, para não deixar a preguiça se tornar frustração, é preciso sempre deixar clara a necessidade de se realizar determinada obrigação, pensando sempre no porquê de ela existir. — “Eu preciso fazer esse TCC bem feito para me formar com êxito”.

Este TED trata de procrastinação de uma maneira bem interessante!

Intrigue-se

Por fim, uma das atitudes que eu mais valorizo no ser humano é a capacidade de se intrigar com o mundo a sua volta. É o poder de ter curiosidade sobre cada detalhe, de não aceitar viver o mundo de forma passiva, de buscar entender como cada ação tem uma causa e uma consequência.

Uma pessoa repleta de curiosidades terá sempre a vontade de saná-las, desenvolvendo-se cada vez mais. Já uma pessoa meramente contemplada pela forma como está inserida no mundo e na sociedade eventualmente acabará caindo na mesmice, no desânimo e nas armadilhas do tédio.

Portanto, entenda e acredite nos conselhos dos velhos ditados. Preencha sua mente com propósitos e ideias. Assim, você estará sempre longe da angústia do tédio.

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Giovanni Abeni

Written by

Project Manager at @EspressoLabs

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