Crédito: Alex Caparros/Getty Images

O racista da rodada

O preconceito nosso de cada dia berra nas arquibancadas e nas redes sociais

Domingo, 27 de agosto:

Edna é “negra, mulher e bela”, como faz questão de elencar. É Bahia, jornalista, diretora do IFBA. Ela e filha são vítimas de racismo em uma montagem de autor desconhecido.

“Não é piada. É racismo”.

Segunda, 28 de agosto:

Márcio é negro, homem, zagueiro do Coritiba. Vítima de injúria racial após ser expulso na derrota do time para o Vitória.

O jogador registrou ocorrência contra a página de torcedores do clube no Facebook que postou a injúria. Os responsáveis pediram desculpas. Afirmam estar à disposição da Justiça e que o autor das ofensas foi expulso da publicação.

Dois casos, em dois dias. Mais de 40 catalogados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol este ano. Em 2016, foram 25 em toda a temporada.

Numa conta rápida, bem mais de uma ocorrência envolvendo discriminação racial para cada semana de futebol. Lá se vão 30 segundo o calendário da CBF. Com a licença matemática, podemos falar em mais de um caso de racismo por semana/rodada no Brasil.

Não dá pra banalizar. Estamos chegando ao ponto de ter o “racista da rodada”. E achar isso normal.


É redundante, mas necessário lembrar que o esporte não é um universo paralelo. Em especial, o futebol é produto do contexto social, econômico, cultural.

Há duas semanas, torcedores do Botafogo identificaram o responsável por ofensas racistas a familiares de Vinícius Jr. do Flamengo no Estádio Nilton Santos. Era o jogo de ida das semifinais da Copa do Brasil e a reação não só expôs o agressor, como evitou uma possível punição ao clube alvinegro. Uma semana depois, jogo de volta no Maracanã. Um torcedor do Flamengo preso em flagrante por injúria racial a um segurança do estádio.

Leia mais: legislação relacionada ao tema organizada pelo Observatório

Ambos os acusados tiveram a mesma punição: se apresentar a uma delegacia em todos os jogos dos respectivos times, não deixar o estado por mais de 10 dias e não mudar de endereço sem avisar ao Juizado Especial do Torcedor, além de ir ao fórum local uma vez por mês.

É o que prevê o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de racismo no futebol. E esse é o ponto: “racismo no futebol”. Qual a diferença para o racismo praticado no supermercado, no elevador do prédio? Com a palavra quem sofre dia sim outro também, seja discriminação velada ou explícita.

Vamos tentar de novo. O torcedor racista não o é apenas por 90 minutos, quando veste a camisa oficial de R$ 250 e vai assistir ao jogo do lounge de uma arena. Continua sendo no escritório, no restaurante, na igreja. É só uma questão de circunstância e oportunidade para manifestar o preconceito.

Um estádio lotado pode ser o gatilho. Há quem extravase alegria, frustrações individuais ou coletivas. Há quem coloque o ódio pra fora na certeza de se esconder na multidão. Há também quem se esconda por trás de um meme anônimo do Whatsapp ou de um fanpage satírica de torcedores.

E tudo isso tem a ver com impunidade. Um jogo que só muda com atitude. Com um basta de quem é alvo e de quem testemunha, quem compartilha piada racista (é, você aí mesmo). Não deixar por isso mesmo. Não calar, como não se calaram Edna, Márcio e os botafoguenses que disseram não ao preconceito.