Ensaio de um futuro
Todos os dias da semana, saio de casa em torno de 9:30 da manhã sentido Vila Olímpia. Esse trajeto inclui uma linha de metrô e uma de trem, a detalhar, a Linha Amarela, a mais nova das demais linhas de metrô de São Paulo, e a Linha Esmeralda do trem, que atravessa parte da zona sul.
Esse encontro em dois tipos supostamente distintos de transporte público, um assistido pelo governo e outra pela iniciativa privada, apresenta contrastes que me levaram a tentar entender porque as pessoas parecem mais educadas na Linha Amarela. Por educado, vale dizer que considero noções de senso comum relacionadas ao conceito de civilidade, que inclui cordialidade e polidez nas relações sociais ali estabelecidas.
Nove e meia da manhã é um horário de extremo movimento. Vagões vem e vão lotados, escadas sempre cheias, fluxo intenso. Mas apesar do aparente caos que uma grande concentração de pessoas em deslocamento para locais diferentes presumiria, na Linha Amarela a organização, frente às outras estações, é tamanha que lhe faz peculiar. Filas em ambos os lados das portas na espera do metrô, abrindo espaço no centro para quem for sair do vagão; lado esquerdo da escada rolante para quem quiser subir os degraus além do impulso mecânico, lado direito para quem quiser seguir na velocidade dessa engenhoca; portas abertas para entrar no vagão, espera-se todos os passageiros descerem para que novos entrem.
Pego o metrô na estação da República e vou sentido Butantã, descendo na estação Pinheiros. Subo os cinco lances de escada e atravesso a passarela da baldeação sentido plataforma do trem. Chegando lá, parece que mudei de cidade. Uma grande parte das pessoas que desembarcaram comigo e foram também para a estação do trem parecem ter esquecido toda a educação que exibiam anteriormente. Onde antes via-se filas na plataforma à espera do próximo comboio, vê-se agora um amontoado desorganizado de gente. Quando o trem chega, quem quer sair do vagão precisa literalmente empurrar aqueles que querem entrar, na tentativa de conseguir passar.
Volto mentalmente à Linha Amarela e me questiono como lá as coisas tem esse aspecto mais cordial. Parece que assimila-se inconscientemente um espírito de “civilidade”, incitado talvez pelo exagero de seguranças, excesso de regras descritas em diversos lugares e visível maior esmero com a limpeza das estações. Sensação de que estou num mundo socialmente mais organizado que o habitual da vida paulistana, como se aquela linha fosse melhor que as demais e por isso o melhor de si também deveria ser exaltado, manifestando-se principalmente no maior respeito às normas de convívio social.
Outras características do ambiente das estações dessa linha reforçam essa sensação. A Linha Amarela é mais suntuosa que as demais. As baldeações ostensivamente demarcam onde começa a gestão privada e acaba a pública; entrar em alguma dessas estações por uma baldeação é como atravessar um portal. A moldura da passagem é de um amarelo que salta aos olhos, há catracas para controlar o ritmo das pessoas, as luzes são mais fortes e é preciso cruzar duas portas para adentrar o vagão, sendo a primeira porta fixa à plataforma, aparentemente ali disposta para evitar suicídios. Se seguirmos o pensamento de Durkheim, descrito em “A divisão social do trabalho”, de que “o número médio de suicídios (…) parece crescer à medida que as artes, as ciências e a indústria progridem”, temos aí uma estrutura que tende a ser comum nas sociedades urbanas do futuro. Os trens do metrô também parecem antecipar o que há por vir. Totalmente robotizados, esses trens não tem a maquinistas e são controlados por sistemas de computador.
Tirando a cor viva que identifica a linha, todas as demais são variações frias de preto, cinza e branco, remetendo à identidade visual dos filmes de ficção científica, onde o amanhã é higienizado, organizado e mecânico. O excesso de sinalização apresenta as leis que regem as estações, os limites são claramente mais demarcados que nas demais linhas, a liberdade individual é desestimulada, assim como os poucos espaços livres e falta de bancos nas estações inibem o convívio social e aumentam o senso de velocidade, característica associada a evolução desde os tempos de revolução industrial. A quantidade de telas de todos os tamanhos também reforçam esse apelo futurista e o mascote da linha, um robô, sela esta relação.
Ainda citando Durkheim, dessa vez seu livro “As formas elementares da vida religiosa”, a religião é o culto da sociedade a si mesma. Sempre que saio da Linha da Amarela estou imbuída da certeza de que ela é um culto à projeção que fazemos dessa sociedade ideal, que só será alcançada no futuro, e sua noção de civilidade.
Enquanto o caos é a regra aparente e fundamental das demais estações, na Linha Amarela a ordem cisma em se impor. Por diferir-se muito das outras, no que diz respeito ao senso comum existente em torno dos transportes públicos (desorganizados, sujos, mal cuidados), parece ser um ensaio a sociedade que desejamos fazer parte, obedecendo o ideal esperado pelo civil ocidental, uma sociedade urbana, educada, prática, funcional, acelerada, automatizada e higienizada.
