Game of Thrones — 7ª temporada

Como ir de melhor série que já assisti a uma piada muito mal feita

Leonardo Fuita
Aug 28, 2017 · 6 min read

A 6ª temporada de GoT já tinha me deixando um pouco receoso com a que vinha. Como comentei no texto da época, algumas decisões dos roteiristas como a ressurreição do Jon Snow e a volta dos olhos da Arya já haviam me deixado com um pé atrás, já que eram Deus Ex-Machina bem bobinhos para não deixar personagens principais em situações ruins. E toda a minha preocupação foi se tornando realidade conforme os episódios da 7ª iam passando.

No meu outro texto, depois de um comentário que tinha lido em algum review e transcrito para ele, surge o seguinte parágrafo:

Parece que os roteiristas começaram a ler as teorias da internet e utilizar dentro da série porque a maioria das pessoas vai achar legal. E convenhamos que a ultima vez que usaram tudo que o povo queria em uma série não deu exatamente muito certo né? (Lost, estou olhando para você)

Alguma semelhança? Foi exatamente o que aconteceu nessa temporada. Com a pequena diferença que todas as teorias foram incorporadas independentemente de ser plausível ou não. Não só teorias como uma quantidade gigante de fanservice gratuito. Afinal tivemos algumas pérolas como Nymeria aparecendo, Verme Cinzento transando com a Misandei, personagens aparecendo só para morrer, ‘mago’ colocando fogo na espada e outras que não consigo nem comentar.

Mas vamos começar do início, onde a série ainda parecia promissora como eu achava no texto do ano passado. Primeiro temos várias reuniões políticas interessantes, tanto pelo lado do Norte quanto pelo lado da Daenerys. Dorne e Jardim de Cima, além de parte da frota de navios do Trono de Ferro iam criando uma aliança impossível de se vencer. Parecia que tudo seria fácil, e mesmo com um plano menos combativo a luta seria simples e acabaria rapidamente. Porém, como sempre, Cersei mostra que não é uma idiota e consegue algumas grandes vitórias sobre essa aliança.

Vitórias essas que, apesar de rápidas, convencem pelos planos bem feitos e falta de experiência do outro lado. Nesse momento ignoramos o fato de todos os aliados de Daenerys serem tão inúteis, e seguimos com esperança pelo que está por vir. Até termos a melhor batalha de toda a série no quarto episódio The Spoils of War. Visualmente linda, bem feita e extremamente interessante, temos a sensação que ‘agora vai’ e que a série será mesmo tudo que estávamos esperando.

Fonte: Uol

Para então ter o primeiro baque: Eastwatch, 5ª episódio, vem para nos mostrar que talvez tenhamos alguns problemas. As viagens de dias se tornam banais, e todo mundo consegue viajar por Westeros como se estivessem de andando de trem bala. Até aí, ainda conseguia utilizar da suspensão de descrença e presar para o melhor, mas então começam os primeiros acontecimentos imbecis da série.

Cersei está grávida, Sir Jorah volta mais uma vez para Daenerys e começa um clima de romance entre ela e Jon Snow. Para então termos o plano mais retardado da história das séries: que tal ir até o norte, depois da muralha, onde ninguém volta normalmente, para buscar um zumbizinho gente boa e levar até a Cersei? Assim, logicamente, ela para com a guerra sem sentido pelo trono dos 7 reinos e se foca em exterminar a, até o momento, pior ameaça de todas em Westeros. Belo plano não?

Só que não existe nada de ruim que não possa piorar! E cá estamos no fatídico episódio que fez a internet finalmente entender que Game of Thrones se perdeu completamente. Beyond the Wall é um dos episódios mais ridículos que eu vi na vida, e isso que passei anos da minha vida lendo o final de Bleach. O ‘genial’ plano é colocado em prática por 7 personagens que, tirando Jon Snow, ninguém da a mínima foda. Gendry, Sor Jorah, Tormund, o Cão, o Sacerdote e o cara que ressuscitou umas 7 vezes vão em busca do amigo da vizinhança que trará paz e felicidade a Westeros.

Eles andam pelo norte com conversas que beiram o ridículo, e algumas até divertidas como Tormund e o Cão, até chegar a um pequeno grupo de White Walkers. Neste grupo, convenientemente temos um dos ‘líderes’ (aqueles azuis sabe?) e mais uns 7 ou 8 zumbis. Ao matar o líder os que foram ressuscitados por ele também morrem, e novamente a força do bom roteiro (IRONIA) faz com que somente um dos minions fique vivo. Eles o capturam, mas não antes de ele gritar e ‘chamar’ o resto da horda.

Então, de novo, temos uma passagem de tempo que não faz o menor sentido. Gendry corre até a Muralha, manda um corvo para Daenerys e ela chega até onde os outros estão. Tudo isso em um espaço de tempo onde os sobreviventes vão até o centro de um lago congelado cercado por White Walkers (que não conseguiam passar porque ele não estava congelado o suficiente). Conveniente não é não?

Cenas legais de White Walkers sendo queimados, Vyserion morre pelas mãos do Rei da Noite, e eles fogem deixando o Jon para trás. Surge então mais um Deus Ex-Machina e Jon, que tinha afundado e de repente surgiu novamente, é salvo pelo seu tio em uma das cenas mais gratuitas de toda a série. Eles trazem um personagem para morrer e salvar o nosso personagem principal. Lindo exemplo do poder do protagonismo. Tudo isso para que o nosso vilão malvadão conseguisse um dragão de gelo que deixasse tudo mais ““““épico”””” ainda.

Para então termos o último episódio com a mais esperada reunião de GoT. Daenerys, Jon Snow, Cersei, todos no mesmo local para discutir sobre os White Walkers e a ameaça do Norte. Reunião que dura 40 minutos, de puro nada, com direito a uma cena ridícula do Jon Snow ‘que não sabe mentir ou não cumprir um juramento’ (alguém lembra da Ygritte?). O lado bom fica pela Cersei que não trai o que ela sempre acreditou: foda-se o mundo, o que importa é a família dela, em uma pequena reviravolta no final do episódio.

Temos a Arya e Sansa protagonizando um bom desfecho e finalmente se livrando do Mindinho. A insistência em falar que o Jon é um Targeryan, pela trigésima terceira vez. O amorzinho ridículo entre ele e a Daenerys, que claramente vai sendo destruída como personagem forte e se tornando só mais uma. E um dragão soltando fogo azul em cima da muralha, que é uma cena bem foda esteticamente mas que perde muita força pelo episódio anterior.

Termina a temporada e o que fica? O inverno chegou, e a ameaça é muito menor do que parece. O dragão até nos deixa com um pouco de receio, mas no fundo sabemos que ninguém importante vai morrer nessa temporada que está por vir. Quebrou-se a coerência da série, os bons diálogos se tornaram escassos e nada precisa fazer muito sentido.

Affonso Solano já apontou que até mesmo a magia precisa de coerência. Você pode ter dragões, pode ter zumbis, pode ter mágica que venha do nada, mas ela sempre precisará ter coerência dentro do seu mundo. GoT esquece disso e destrói boa parte do que foi construído durante esses anos, seja com corvos e dragões supersônicos ou com soluções mirabolantes e ações sem consequência.

Game of Thrones sempre foi exemplo de roteiros bem escritos e diálogos épicos que subvertiam as expectativas. Algo que se perdeu completamente nessa temporada, e transformou uma das melhores séries de todos os tempos em algo digno de pena. Infelizmente não acho que tenha mais conserto, e só quero acompanhar para saber o quão absurdo ela pode chegar. Não importa o quão boa seja a última temporada, dificilmente vai fazer algo que consiga salvar a série do que fizeram nesse ano.

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Leonardo Fuita

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27 anos; eng eletricista; mba em marketing; tricolor; otaku e arroz de festa. contato: leonardopfuita@hotmail.com

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